Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR/UFSC

Na terça-feira, véspera da fatídica tragédia que tirou a vida do presidenciável Eduardo Campos e de seus assessores, um assunto mais ameno tomou conta das redes sociais e repercutiu de forma avassaladora na imprensa: o brasileiro Artur Ávila recebia, aos 35 anos, a maior honraria acadêmica destinada a matemáticos em todo mundo – a medalha Fields, equivalente ao Nobel.

Para a imprensa diária e para seus leitores, ouvintes e telespectadores, tratava-se de uma grande surpresa, afinal, nós, brasileiros, somos vira-latas também na Ciência. Produzimos poucos, pensamos pouco, temos baixíssimos índices nos testes de ciências aplicados entre estudantes de Ensino Fundamental e – pasmem, não temos nenhum Nobel, em nenhuma área.

Claro, as frases são ironias corriqueiras que lemos como verdade entre um e outro post no Facebook, entre um e outro suspiro. Frases de quem não sabe o que acontece nos laboratórios, nem nos campos onde atuam cientistas de todas as áreas, mas que aceitam a verdade pronta de que o que é feito aqui nasce com pouco valor. São, também, frutos da percepção de quem consome produtos midiáticos generalistas e pouco afeitos à cobertura científica, ao menos não na forma como ela deveria ser.

Em 2010, li um magistral perfil de 15 páginas de Artur Ávila na Revista Piauí. O jornalista João Moreira Salles foi certeiro ao identificá-lo como um jovem estudioso e promissor, que chamava atenção do mundo pela sua sensibilidade para abstrações e para uma ciência dura como é a matemática. O repórter mostrou também o jovem por detrás do gênio – ou a sua frente. Era comum o garoto Artur, não fosse a capacidade de ler o que os nossos olhos não leem. Comia fast food, assistia jogos de futebol, divertia-se. Gênios também são feitos de carne e osso.

Finda a leitura, era impossível não ver, nas linhas da Piauí, que Artur também poderia estampar as capas e manchetes de outras mídias quando se enquadrasse em alguns dos tantos critérios de noticiabilidade que nos moldam e enrijecem: atualidade, relevância, originalidade, ineditismo. Mas Artur não era tudo isso antes mesmo de ganhar a medalha?

A resposta é sim. Mas se olharmos para a cobertura de Ciência e Tecnologia nos jornais, independentemente da mídia, chegaremos a sempre triste constatação de que ainda somos apegados ao valor da descoberta, das excentricidades que brotam da prática científica, dos prêmios que reverenciam nossos pensadores. Claro que tudo isso deve ser noticiado na mídia generalista, mas é preciso ir além. Conforme aponta Roque (1999):

Em geral, a mídia não dispõe de espaço para a divulgação científica e tecnológica. Há vários aspectos que considero fatores que levam a esta apatia. É um pouco a história de quem vêm primeiro o ovo ou a galinha. Como não somos um país de grandes feitos científicos e tecnológicos, então não divulgamos nada, pois aparentemente não há nada de novo sendo feito. Por outro lado, como não nos preocupamos em divulgar mais o conhecimento, o cidadão comum torna-se cada vez menos informado e por conseguinte desinteressado por matérias sobre o assunto, quando divulgado na mídia.

Medeiros et al (2010) fizeram um estudo sobre quando e como a Ciência é abordada nas capas de três jornais brasileiros – Folha de S. Paulo, Jornal do Commercio e Zero Hora. Os resultados, para as pesquisadoras, foi satisfatório, mas é necessário ponderar. Segundo o estudo, existe interesse na cobertura de C&T, mas “precisa ser ainda mais estimulado”. Seria importante, dessa forma, criarem-se “mais estratégias para mostrar a repórteres, jornalistas e editores que temas de ciência são instigantes e podem render boas matérias de capa”. (p.452).

Não há motivos para ignorar a ciência como fonte de pautas inesgotáveis e oportunas. Um país com ciência forte precisa de indivíduos que reconheçam o seu papel na modernidade – tanto para o bem, quanto para o mal (e aí poderemos entrar em incontáveis debates éticos). Precisa, antes de tudo, entender que ciência é processo, não é produto, e que para cada conhecimento gerado há uma série de problemas enfrentados, de recursos negados, de percalços de todas as ordens.

E aí você pode questionar se teria espaço no jornal para tudo isso, já que é preciso ser rigoroso quanto o que é e não é notícia. Vou me dar o direito de pedir para subvertermos esse modelo estático, porque defendo que a ciência deveria ser pauta como é a política. Nós sabemos quando um projeto vai ser votado, por que não podemos saber quando uma pesquisa importante está para nascer ou dar seus primeiros frutos, ainda que não tenha o peso de uma grande descoberta?

Moreira Salles preparou seu leitor para as conquistas de Artur. Nós, que o lemos em Piauí, sabíamos que em algum momento o jovem de 35 anos seria manchete em todos os jornais. Esse acaba sendo o grande papel do jornalismo em um momento de crise e instabilidade: antecipar, mostrar o que parece escondido, situar-se no limite das interpretações, estimular ainda mais a curiosidade do leitor. Quando apareceu nos portais, nos impressos e no Jornal Nacional, quando teve milhares de brasileiros celebrando seu título como uma conquista que marca nossa história, Artur já estava pronto. E onde estávamos nós, intérpretes do mundo, que não permitimos aos nossos leitores que lhe vissem nascer?

Referências

Medeiros et al. A ciência na primeira página: análise das capas de três jornais brasileiros. In: História, Ciências, Saúde – Manguinhos , Rio de Janeiro, v.17, n.2, abr.-jun. 2010, p.439-454.

Roque, Waldir. Divulgação Científica e Tecnologia no Brasil: Uma tarefa difícil. Disponível em: http://www.ebc.com.br/abrn/c&t/artigos/1999/artigo_151099.htm. Acesso em 14 de agosto de 2014.