Melissa Bergonsi
Mestranda no POSJOR-UFSC e pesquisadora do objETHOS

A ditadura do tempo real tem deixado o jornalismo e os jornalistas cada vez mais expostos ao erro, uma heresia que fragiliza uma profissão que sobrevive diariamente com a guilhotina de um paradoxo sobre o pescoço. Afinal, é uma obviedade que a pressa é a grande inimiga da apuração que, por consequência, é prima-irmã-gêmea da credibilidade que sustenta o status quo de jornalistas e os negócios que vendem notícia desde o século XIX.

Em uma rápida visita ao contexto histórico do estabelecimento do jornalismo, fica claro que o fator tempo, herdado da Revolução Industrial, e a busca pela exatidão das informações, herança do positivismo comtiano, desde sempre estiveram entranhados na alma da profissão e foram essenciais para a consolidação como um negócio e mais tarde como função social legitimada. O tempo foi fator elementar para a organização da produção jornalística, para que os exemplares dos jornais matutinos ou vespertinos estivessem nas ruas da Inglaterra ou dos burgos alemães respeitando a periodicidade proposta. Ele também foi fator de lucro, desde os idos de 1840, quando edições “extra” começaram a circular com informações de última hora, desbancando os concorrentes que estavam nas ruas. A corrida do jornalismo contra o tempo é tão antiga quanto seu surgimento industrial. E a possibilidade de quebrar a espera de 24 horas por uma nova edição fascinava jornalistas e leitores. Da mesma maneira que a busca por informações exclusivas, certeiras e dadas em primeira mão era o motor de impulso dos profissionais que se acostumaram a manter uma relação de amor e ódio com a temporalidade no jornalismo. Generalizando, ao longo do século XX, os que nutriam uma paixão pelo desafio que o pouco tempo impunha à produção e veiculação da notícia acabaram nas emissoras de rádios e TV. Nos jornais, geralmente, estavam os jornalistas que deveriam cumprir prazos, mas conseguiam esticar os ponteiros do relógio para apuração de suas matérias. Acostumados a isso, ainda nem imaginavam o que a ditadura do tempo poderia ocasionar ao jornalismo.

A temporalidade tomou outros contornos com a entrada da internet e todas as suas funcionalidades e ferramentas. Hoje, a profissão vive com o fim do deadline, ou melhor, o deadline contínuo. Não há mais fechamento com a internet. Coberturas em tempo real, informações fragmentadas que sofrem atualizações constantes até que se transformem em matéria. O espaço para publicação de notícias não tem limites. A pauta que antes seria cortada por falta de espaço no impresso ou eletrônico, agora tem vez no virtual. A fonte que não entraria, agora pode entrar. É um cenário que não apenas reduziu o tempo de produção de notícias, mas o quer simultâneo ao fato. Não há dúvidas que isso fragiliza a apuração, cerne da credibilidade jornalística, e expõe os profissionais ao erro e a situações bizarras. Como foi o caso da cobertura ao vivo momentos após o acidente aéreo que vitimou o candidato à presidência Eduardo Campos, assessores e pilotos. As emissoras de TV, por exemplo, praticamente fizeram suas apurações ao vivo. Um show de especulações e erros em nome da simultaneidade. Fontes que alegavam ter visto o avião em chamas, um homem que enganou ao vivo o jornalista Roberto Burnier, da TV Globo, e também Eleonora Paschoal, da Band, alegando ter visto o corpo do presidenciável e ainda aberto seus olhos. Informações fragmentadas, desencontradas e falsas. Afinal, um acontecimento dessas proporções para jornalismo algum botar defeito em seu valor-notícia deveria ficar no ar, todo o tempo, a qualquer custo. Nada, aparentemente, muito diferente do que os jornalistas sempre enfrentaram. Mas antes, isso acontecia atrás das câmeras, durante o tempo de apuração e produção do seu material. Quando a simultaneidade entra como uma ditadura para a existência e competitividade das empresas jornalísticas perdemos todos. Uma lavada de 7×1 da pressa sobre a apuração no jogo da credibilidade.

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