Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no Posjor e pesquisadora do objETHOS

Os jornais impressos estão agonizando. A saída é investir em reportagens interpretativas, com análises profundas sobre os acontecimentos que são noticiados em tempo real na internet. Você já deve ter escutado esse discurso, certo? Mas será que é isso mesmo? Será que os jornais impressos estão assumindo esse papel analítico e contextualizador?

Comecei a pensar sobre essas questões ao notar a falta de um debate mais frequente nas redes sociais sobre as eleições estaduais. E não só eu. Um professor já havia me instigado a refletir sobre isso. E o jornalista Bruno Torturra também sugeriu, em seu perfil no Facebook: “Que pelo 20% dos posts e comentários sobre as eleições sejam sobre o governo dos estados. E outros 20% para o parlamento. Que tal? Um dos mais sérios problemas de tantos cargos em jogo na mesma campanha é que a disputa federal rouba a cena”.

Partindo dessa percepção, procurei o assunto no Diário Catarinense, maior jornal do Estado de Santa Catarina. E encontrei. No submenu “Eleições 2014“, é possível acessar as notícias mais recentes sobre a disputa estadual, perfis dos oito candidatos ao governo, perguntas enviadas pelos internautas a esses candidatos, vídeos com as principais propostas, além de links para dois blogs que cobrem política. Uma cobertura com predominância factual e poucas marcas de análise, feita somente por meio dos blogs.

Fui então em busca das eleições estaduais também nos jornais impressos. Seguindo a premissa inicial, encontraria mais contextualização e interpretação no papel. De que forma as alianças se estruturaram? O que dizem especialistas sobre o cenário da disputa em Santa Catarina? O que pode ser dito sobre os candidatos que eles não querem que seja dito?

No entanto, nas últimas cinco capas do Diário Catarinense (4 a 8 de setembro de 2014), não havia um destaque sequer para as eleições estaduais. Nada. Minha observação se restringiu à capa, pois o jornal só disponibiliza o conteúdo completo para assinantes. Imagino que nas páginas internas foram feitas matérias sobre o tema. Ainda assim, é surpreendente que não haja menção ao que deveria ser o assunto mais importante faltando menos de um mês para as votações.

Abaixo, veja um resumo das manchetes do Diário Catarinense:

8.9 (segunda):
– Delação na Petrobras respinga na eleição
– Oeste segue no topo da Educação
– Transporte marítimo volta à ativa no Norte
– Parceiros até no capotamento
– Vitória heróica (futebol)

7.9 (domingo):
– Tendência de encolhimento das famílias brasileiras está maior no Sul
– Quem é o assassimo da novela das onze?
– A vida no subsolo

6.9 (sábado):
– Aeroporto fará manejo de pássaros
– Os recados do ranking da Educação
– Guerra à contramão
– A revelação que a enxurrada deixou
– Como aproveitar o 7 de setembro em SC

5.9 (sexta):
– Como a BMW encara a queda no PIB
– Fraude no leite tem 48 denunciados
– No topo das Américas (esporte)
– Para Marina, governo deve ampliar energias renováveis
– SC ganhará um novo parque para a música

4.9 (quinta):
– Mais mortos em ações policiais
– SC passará a ter região metropolitana
– Catarinenses na briga pela taça na série B
– Racismo tira o Grêmio da Copa do Brasil
– Solução temporária (liberação de uma ponte)
– UFSC começa o controle de ponto dos servidores
– Como enfrentar os obstáculos até a aprovação no vestibular

Não questionamos a importância dos destaques selecionados para as capas, mas sim, a completa ausência das eleições estaduais. No dia 5, inclusive, houve menção à disputa da presidência, mas nada sobre o local, que deveria ser o foco do jornal. Sabemos que toda decisão editorial é também uma decisão ética. Silenciar é também dizer. Se não informa com destaque, se não analisa e contextualiza de forma clara e perceptível um acontecimento como esse, qual é o papel do jornal impresso?

Apesar da flexibilização espaço-temporal, o site do Diário Catarinense não se aprofunda, pois está dedicado ao factual. As linhas preciosas da capa do impresso poderiam ser aproveitadas para instigar a reflexão e propor o debate público num momento crucial de nossa democracia.