Ricardo José Torres
Mestrando em Jornalismo no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Infelizmente, os anos passam e poucas alterações são percebidas nos debates políticos e na cobertura política por parte dos veículos de comunicação, especialmente durante o período eleitoral. Os candidatos que pretendem nos representar insistem em fazer recortes temporais e históricos, buscando evidenciar lacunas e problemas na biografia de seus adversários e respectivos partidos. O que se percebe é uma atenção demasiada para argumentos superficiais que levantam as demandas sociais e quase sempre são apresentadas e co-relacionadas com a frase: “Vamos trabalhar e solucionar esse problema!”.

O debate de projetos é rasteiro e há várias décadas temos que ouvir a “retórica eleitoral”, que é repercutida sem indagações consistentes sobre como essas problemáticas serão solucionadas, por meio de ações, e principalmente com planejamento. Cabe refletir sobre alguns aspectos destacados pelo professor Nelson Traquina quando fala sobre os deveres do jornalismo, tendo em vista as diretrizes democráticas.

“O jornalismo deve dar aos cidadãos as informações que são úteis, que são necessárias para que eles possam cumprir os seus papeis de pessoas interessadas na vida social e na “governação” do país; o jornalismo deve ser o espaço contraditório e da pluralidade de opiniões, ser uma espécie de mercado de idéias; e o jornalismo tem o papel de ser o watchdog (cão de guarda) da sociedade, proteger os cidadãos contra o abuso de poder”. (TRAQUINA apud SEABRA e SOUZA, 2006, p. 138). Para Traquina ao longo da história, o jornalismo político brasileiro acompanhou o roteiro traçado pelos grupos dominantes, aderindo ao modelo desses grupos ou os denunciando.

Diante das características apresentadas, ocorrem situações inusitadas como as que estamos presenciando nesse momento de disputa eleitoral, onde alguns temas reformulam o cenário da disputa e podem interferir de forma significativa no resultado final do pleito, fatos evidenciados pela cobertura política. É importante pontuar que a retroalimentação do que deve ser discutido e até apresentado pelos candidatos passa pelas pautas elencadas que acabam ecoando no cotidiano da população.

A repercussão de escândalos 

O sociólogo John Thompson critica e questiona a capacidade do jornalismo provocar mudanças benéficas na sociedade, especialmente com o que ele chama de “escândalo midiático”. Para ele os escândalos midiáticos atingem as características básicas da reputação e da confiança e provocam uma série de consequências negativas, dentre as quais a geração de um clima de desconfiança generalizada que pode levar setores da população a desconfiar não apenas dos líderes específicos ou potenciais líderes, mas nos “políticos como tais”.

Nesta eleição, podemos perceber alguns aspectos que ratificam a descrença de parcela da população no sistema político como um todo e essa situação acaba minimizando a força de alguns preceitos da democracia e afasta esses indivíduos do processo eleitoral.

O debate político acaba se restringindo ao candidato e aos seus pares e a decisão de voto da população sendo motivada por outras formas que não os melhores projetos e as melhores ideias, mas sim pelo candidato com menos problemas e propostas genéricas que tencionam a não prejudicar a potencialidade de votos de nem um segmento da sociedade mantendo o status-quo.

Conceitualmente, a retórica está relacionada à arte de falar claramente a partir de uma argumentação persuasiva, mas parece ganhar novos contornos no período eleitoral e nos discursos políticos de uma forma geral.

Referências:

NASCIMENTO, Solano. Os Novos Escribaso fenômeno do jornalismo sobre investigações no Brasil. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2010.

SEABRA & SOUZA, (org.). Jornalismo Político – teoria, história e técnicas. Rio de Janeiro. Record, 2006.