Thiago Amorim Caminada
Mestrando do POSJOR/UFSC e pesquisador do ObjETHOS

Estamos vivendo nas últimas semanas a disputa mais acirrada para a presidência da república desde 1989, talvez maior do que aquela. Dilma Rousseff e Aécio Neves protagonizam na televisão e no rádio o embate é marcado por acusações, ataques e promessas. Nos sites noticiosos, as manchetes se multiplicam e os comentários crescem em elevadas potências. Nas redes sociais, uma inundação de conteúdo partidário.

À primeira vista, não há problema algum. Quando o cidadão se porta compartilhando e retuitando material de campanha, conteúdo jornalístico; curtindo conteúdos de sua preferência; e comentando a publicação de outros cidadãos existe um viés democrático e participativo nessas práticas. Por mais que se tenha a dificuldade de aceitar a opinião divergente, isso faz parte da convivência diária, principalmente fora da internet.

Entretanto, os espaços de participação online ultrapassam os limites da discussão e até da legalidade. O discurso de ódio que vinha se concentrando no antipetismo desde a eleição de 2010 (alimentado, provavelmente, pelos 12 anos de hegemonia no executivo federal e pelas fortes acusações de corrupção) generalizou-se e contaminou as redes. Expressões como “petralha” e “tucanada” representam uma ínfima parte de todo o preconceito e violência disseminados na internet.

O maior problema é que as expressões vão além das rixas partidárias e ideológicas e assumem um caráter sexista, xenofóbico, criminoso. Quando Dilma, a autoridade máxima da nação, é chamada de “essa mulherzinha” e lhe é atribuída uma série de adjetivos ligados à submissão feminina ou prostituição, são desvelados os sentimentos machistas e há aí uma referência à violência doméstica contra a mulher. Quando Joaquim Barbosa é chamado de “esse negro” oportunista, desonesto e parcial, percebe-se o racismo. Quando exaltam-se os internautas na defesa da declaração de Levy Fidelix em debate na Rede Record, ecoam junto os assassinatos e perseguições contra homossexuais. Quando crescem as declarações de que os eleitores petistas são nordestinos, mal informados, “vagabundos” sustentados pelos programas sociais do governo, fica evidente a xenofobia praticada aos brasileiros do Norte e Nordeste, em alguns casos protagonizados por grupos neonazistas.

Estamos enganados quando pensamos que essa postura é fruto somente de uma alteração de ânimos alimentada pela disputa eleitoral. Nos comentários recentes sobre a nova onda de ataques criminosos em Santa Catarina, o ódio, a indiferença e a violência também são destaque nas participações do público. A cada novo ataque, sugere-se que coloquem fogo nas prisões, condene à morte um presidiários para cada ônibus queimado e assim por diante. Isso sem falar nos supostos casos do vírus ebola. Engano mesmo é quando achamos que essas pessoas estão longe de nós. Basta olharmos para nossas conexões e percebemos que esses sentimentos estão sendo reverberados por pessoas próximas, bons profissionais, vizinhos pacatos, atendentes prestativos e quem sabe até você. As pessoas estão se comportando nos sites de redes sociais como cachorros protegidos pelo portão de seus donos: quando alguém passa pela calçada, eles latem com raiva, chegam a salivar, mas quando se abre o portão, saem correndo para suas casinhas. O problema é que muito mais do que os cães, nossos latidos alimentam problemas estruturais da sociedade e servem de encorajamento para atitudes intolerantes do dia-a-dia.

Olhando não só para a realidade brasileira, a violência entre os comentadores de notícia preocupa pesquisadores na Catalunha (DÍAZ NOCI; et al., 2010), no Reino Unido, Espanha, França, Itália e Estados Unidos (RUIZ; et al., 2010) e outros países. No Brasil, também pesquisadores se debruçaram sobre o tema (DA SILVA, 2013), inclusive sendo tema principal de artigo científico: como em “violência verbal nos comentários de leitores publicados em sites de notícias” (CUNHA, 2013). Problemas que ecoam na sociedade e nas urnas. Nós, brasileiros, elegemos o congresso mais conservador e fisiológico desde 1964 (dados divulgados pelo Diap), à exemplo do europeus que nas últimas eleições para o parlamento optaram por partidos de ultra direita. São fatos como esses que nos levam a questionar sobre o papel da imprensa na democracia e, mais, sobre o próprio projeto humano democrático e de direito.

Referências

CUNHA, Dóris de Arruda C.. Violência verbal nos comentários de leitores publicados em sites de notícias. Calidoscópio. v. 11, n. 3, set/dez, 2013. doi: 10.4013

DA SILVA, Marisa Torres. Participação e deliberação: um estudo de caso dos comentários às notícias sobre as eleições presidenciais brasileiras. Comunicação e Sociedade. n. 23, 2013.

DÍAZ NOCI, Javier; et al. Coments in news, democracy booster or journalistic nightmare: assessing the quality and dynamics of citizen debates in catalan online newspapers. International Symposium on Online Journalism. 2010.

RUIZ, Carlos; et al. Public Sphere 2.0? The democratic qualities of citizen debates in online newspaper. The International Journal of Press/Politics. n. 16(4), 2011. DOI: 10.1177/1940161211415849

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