Melissa Bergonsi
Mestranda no POSJOR-UFSC e pesquisadora do objETHOS

Quando este texto for publicado nessa segunda-feira já teremos o resultado das eleições presidenciais. Arrisco dizer, sem receio do erro, que concordamos todos que desse período democrático recente que vivemos, não houve tamanho acirramento entre opostos extremos de eleitores. O país ficou dividido entre os pró-Dilma e os anti-PT.

Escrevo esse artigo em uma sexta-feira simbólica para o jornalismo, onde a revista Veja decidiu por adiantar sua edição para chegar às ruas antes do último debate eleitoral, apresentado pela Rede Globo de Televisão, e imediatamente depois do resultado das primeiras pesquisas que colocaram a candidata petista e à frente de seu opositor fora da margem de erro e, portanto, do empate técnico.

A matéria de capa que Veja chama como reportagem, chamo, sem receio, de atentado ao jornalismo, aos manuais e regras da prática profissional. Prática essa que sempre prezou pela apuração criteriosa dos fatos ou denúncias por meio da consulta incansável de fontes testemunhais, documentais, analíticas. O alemão Tobias Peucer já falava sobre isso nos idos de 1.690, mas para Veja a tese que baseou códigos de ética  e da deontologia da profissão ao longo dos séculos foi definitivamente enterrada.

O semanário baseia todo um texto (não o chamarei de reportagem ou matéria) na suposta denúncia de um doleiro, velho conhecido da imprensa paranaense e nacional e também da polícia e da Justiça, para afirmar que a presidente Dilma Rousseff sabia previamente de todo o esquema de corrupção mantido na Petrobras e que o ex-presidente Lula, além de saber, estaria envolvido diretamente como articulador. Alberto Youssef é o mesmo que participou ativamente de um dos maiores esquemas de corrupção e evasão de divisas da história brasileira: o caso Banestado e suas contas CC-5. Ele também foi figura central nas investigações da CPI Nacional do Narcotráfico.

Se Youssef é fonte qualificada ou não é a primeira questão para o jornalismo de apuração. Chaparro (2009) afirma que é da cultura jornalística tratar as fontes com desconfiança e suspeita. Veja não faz isso com o doleiro ao  descrever na abertura do texto o suposto depoimento: “Youssef: ‘O Planalto sabia de tudo!’ Delegado: ‘Quem é o Planalto?’ Youssef: ‘Lula e Dilma’.

Schmitz (2011) trata sobre a qualificação das fontes conforme sua credibilidade. De acordo com a classificação do estudioso, Youssef se enquadraria na categoria “duvidosa”. Portanto, seu testemunho mereceria apuração rigorosa. Contraste de opiniões, de fontes, coleta de documentos. Mas isso levaria tempo. E tempo, claramente, é o que a revista não dispunha frente a uma eleição a ser decidida no domingo. Por isso, parece impossível não ligar o mal feito jornalístico em prol do interesse eleitoral, do partidarismo, da parcialidade.

Atitudes aliás comuns ao semanário. No episódio da segunda posse do então presidente Luis Inácio Lula da Silva, Veja, em sua edição dominical, optou por desconsiderar o fato que ocupava a primeira página de todos os jornais do país. Nada sobre a posse de Lula em sua capa. Internamente, uma “matéria” de poucas páginas com a única foto do presidente empossado pela segunda vez: Lula está de costas e com a cabeça baixa sob o título “Devagar, quase parando…”.

Capa_1 Mat Veja

Há mais de uma década, em sua edição de 2001, o Manual de Redação da Folha de S.Paulo trazia em sua página 25 a seguinte regra: “Não havendo tempo para a apuração completa, o jornalista deve publicar aquilo que dispõe no momento, desde que rigorosamente checado, e pode estender sua investigação aos dias seguintes, se o fato for significativo o suficiente para voltar às páginas do jornal”. Ao que vemos e lemos, os manuais foram parar nas fogueiras de uma nova inquisição onde a bom jornalismo foi incinerado.

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