Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR e pesquisador no objETHOS

Dois fatos chamaram a atenção da imprensa na última semana: a morte de Roberto Gómes Bolaños e uma matéria sobre o jogo “Engenho de Açúcar”. O primeiro me afetou emocionalmente, pois devo ao eterno Chaves boas lembranças de minha infância. O segundo profissionalmente, pois ao analisar com mais afinco a matéria vi uma cobertura superficial, com lacunas que deixam implícito a subjetividade da mídia em estereotipar negativamente os jogos.

Mas, qual reflexão sobre jornalismo podemos tirar dessas duas coberturas tão distintas? A meu ver, ambas reforçaram a premissa de que para os veículos de comunicação o apelo emocional ainda é a chave mestra da audiência; seja ele para homenagear como reforçar o senso comum diante da carência de dados.

Uma cobertura sem querer querendo

Sobre a morte do lendário Chespirito não esperava muita coisa diferente do que aconteceu. Enquanto os outros veículos tratavam mais discretamente, o SBT parece não ter medido esforços para relatar, em todas as instâncias, a ida daquele que a mais de 30 anos garante a audiência da emissora. Uma cobertura que se iniciou na sexta-feira (28), dia do ocorrido, e se estendeu durante todo o fim de semana, tanto nos programas quanto nos intervalos. Não houve muita novidade referente à apuração costumeira que se faz nesses casos, apenas um misto de resgate histórico em caráter de homenagem, matérias sobre pessoas que de alguma forma relembravam os personagens, além da exibição de fotos antigas e a reapresentação de trechos de entrevista e programas especiais sobre o criador de Chapolin e companhia.

Não há duvida que a emissora usou e abusou do apelo emocional, causando nos telespectadores uma sensação nostálgica daquele humor simples e formal que conquistou e ainda conquista gerações. Um artifício antigo que, convenhamos, ainda tem efeito.  Porém o excesso de repetições e matérias aleatórias que buscavam fazer vínculos ao nome de Chespirito, algumas sem relevância ao falecimento propriamente dito, mas apelando para o entretenimento; deixaram explícita a busca por audiência a todo custo, além da autopromoção do SBT como o canal que detinha os direitos exclusivos dos programas de Bolaños no Brasil.

O estereótipo como escravo da audiência

Já a reportagem exibida no telejornal Paraná TV, e republicada no último dia 25 pelo portal G1, apresenta uma polêmica gerada após um jogo em que escravos são açoitados ser utilizado na graduação de história da Universidade Federal do Paraná. O jogo de nome “Engenho de Açúcar” tem como propósito servir de complemento ao material didático no ensino médio, pois ilustra ludicamente como se dava a realidade nos antigos engenhos, inclusive com a possibilidade de castigar o escravo, açoitando-o.

A proposta da professora Karina Belotti era apresentar aos futuros docentes como as novas tecnologias podem ser utilizadas nas salas de aula, no entanto a possibilidade do jogador chicotear o escravo gerou irritação em alguns alunos sobre o pressuposto de que tal característica do jogo reforça o preconceito racial.

Não é de hoje que a mídia encara o jogo como um vilão da sociedade e em outras ocasiões eles já foram até tachados como influenciadores de assassinatos, como no Massacre de Columbine, nos Estados Unidos. Na ocasião dois garotos, aficionados por jogos em primeira pessoa como Doom e Wolfenstein 3D, entraram armados com submetralhadoras e bombas caseiras em seu antigo colégio, matando doze companheiros de escola antes de se suicidarem.

É importante considerar que não se deve tratar os dados isoladamente, porém a mídia, na busca pela audiência, opta pela caminho mais fácil do sensacionalismo, do reforço de estereótipos e senso comum, quando na verdade deveria atuar como questionadora desses pressupostos. Em boa parte das reportagens que envolvem jogos, divulgadas nos grandes veículos, ainda permeia o raciocínio em latim “cum hoc, ergo, propter hoc”, no qual o jogador seria aquilo que joga (no caso de jogos de violência, claro, pois não vi nenhuma reportagem ainda sobre pessoas que enriqueceram jogando The Sims ou ficaram diabéticas devido ao Candy Crush). Essa característica da cobertura rasa e cheia de lacunas sobre o tema, também aconteceu na matéria sobre o jogo “Engenho de Açúcar”.

Sob o olhar de um único player

Tanto na matéria da TV como no site um único ponto é ressaltado: a indignação dos estudantes que se movimentam para tirar o jogo de circulação. Embora apresente também a entrevista com Karina, que ressalta positivamente o fato do jogo causar nos estudantes a reflexão sobre o material didático, o outro lado da história se resume a uma suposta afirmação por e-mail de um suposto mestrando criador do jogo (pois o nome dele não é divulgado nem explicado o motivo dessa omissão). Essa afirmação seria em defesa do projeto, o qual deixa claro que a violência contra os escravos é uma violação aos direitos humanos e o açoitamento permitido no jogo era apenas para lembrar o fato histórico de crueldade.

Talvez por já ser familiarizado com o estilo de “jogos violentos” o sentimento que tive ao ver o açoitamento se resumiu a surpresa, não pelo fato em si, mas porque a proposta é apresentar o jogo como material didático. Porém, acredito que seja premeditado tomar uma posição, favorável ou não, apenas pela matéria, pois, particularmente, ela se torna superficial ao ofuscar e não refletir sobre o contexto em que o jogo será inserido.

A matéria somente apresentada de forma clara uma posição sobre o jogo e, pela defesa do jornalismo reflexivo e não tendencioso, senti falta de questões contextuais peculiares ao ambiente de inserção dele: haverá antes da oferta do jogo uma aula sobre o tema? O jogo será apresentado cru ou como complemento de um texto didático? O texto irá abordar o senhor de engenho açoitando? Se aborda, propõe uma reflexão sobre a violência ao negro (que parece ter sido levantada com o jogo) ou apenas apresenta o fato?

E outras questões mais direcionadas à matéria que não foram abordadas: se o jogo é fiel ao conteúdo apresentado nos livros, qual o porquê de censurá-lo e manter os textos? Nesse contexto, os livros não se apresentam também como proponentes passivos da disseminação do preconceito entre os jovens que frequentam a escola? Por que os livros são então socialmente aceitos na prática pedagógica ao contrário de jogos que só ilustram o que o texto diz? Será mesmo que esse fator do açoitamento tirou todo o mérito do restante do jogo, da proposta? Se fosse retirado o açoitamento o jogo estaria bom no aspecto didático? Por qual motivo? Em outras partes o jogo induz a violência gratuita ou explica o propósito da simulação bem como coloca a posição de não querer ferir os direitos humanos? Qual a opinião dos alunos que tiveram contato com o jogo? Todos foram contra como a reportagem apresenta ou existiram pontos divergentes?

É claro que devido ao tempo restrito nem todas essas questões poderiam ser abordadas na matéria, porém o que mais me intrigou foi o fato de só apresentarem um ponto de vista. Após tomar conhecimento fiz algumas pesquisas no intuito de tentar localizar o autor do jogo e como resultado tive apenas mais dúvidas.

A única informação mais relevante procede do YouTube, no canal chamado “Patola Games”. Aparentemente uma empresa dedicada à criação de jogos educativos que se utiliza do canal para publicar os vídeos sobre os produtos, explicando tanto o conceito como à maneira que o jogo poderá ser utilizado.

O fato curioso é que a última postagem, inclusive sobre o referido jogo, aconteceu há quatro anos e o site com mais informações sobre a empresa e os projetos (www.patolagames.com.br) contém apenas dois links que redirecionam a páginas aleatórias ao contexto. Seria essa a explicação para o telejornal omitir o nome do criador do jogo e mencionar apenas o contato por e-mail?

Tal apuração reforça como nos casos em que o conteúdo relacionado aos jogos pode propiciar um apelo emocional causador de audiência, muitas outras questões importantes são deixadas em segundo plano. Se fossem apresentadas na tentativa de estimular o debate de ideias, elas inclusive poderiam ajudar a combater a negatividade que permeia sobre os games; mas não enquanto a carta de alforria for negada e os estereótipos do jogo garantirem pontos de ibope.

O discernimento como protagonista

Acredito no potencial que o jornalismo tem para propor aos seus consumidores reflexões sobre qualquer assunto, no entanto os exemplos aqui citados ilustram que para isso é preciso ponderar e equilibrar as doses estimuladoras de razão e emoção.

Sou a favor da aplicação de jogos na educação e creio que a repercussão da matéria sobre o “Engenho de Açúcar” só tende a ampliar a importância do debate, tanto na inserção dos jogos em escolas quanto sobre a maneira que a mídia retrata esse universo que tem no Brasil o quarto maior mercado mundial.

Sobre a morte do Chico Anysio mexicano fica meu pesar que não é triste, mas alegre por ele ter deixado tantas lembranças boas na minha e muitas outras infâncias. E diante da maneira que a mídia retratou o fato, em especial o SBT com suas matérias que em certos pontos tenderam até ao sensacionalismo, compreendo então a frase eternizada na voz do saudoso Nelson Gonçalves: me deem as flores em vida.

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