Thiago Amorim Caminada

Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Tendo completado o segundo ano de seu pontificado neste mês, o papa Francisco consegue ainda manter as lentes midiáticas voltadas para o Vaticano. Poucos jornalistas imaginariam que a figura do cardeal Bergoglio, discreta e pouco desenvolta diante das câmeras, e que ocupou as manchetes de jornais argentinos em poucos casos de confronto direto com a família Kirchner, tomaria de assalto a simpatia do grande público e suscitaria uma curiosidade digna de astros de Hollywood.

Aproveitando-se do interesse e da curiosidade alheia os grandes veículos, especialmente os brasileiros, adotaram o papa como vítima recorrente dos títulos, chamadas e compartilhamentos em redes sociais conhecidos como caça-cliques. Essas chamadas são compostas para atrair o maior número de pessoas para a notícia, entretanto, muitas vezes o conteúdo explicitado anteriormente, não coincide com o acontecimento reportado no corpo do texto. Os casos mais comuns são frases recortadas e retiradas do seu contexto original, dando um sentido polêmico ao conteúdo. Ou, ainda, chamadas nas redes sociais em forma de perguntas, instigando os leitores ao acesso ao conteúdo no site. E, nos últimos tempos, não conheço maior vítima dessa estratégia midiática do que Francisco.

Na semana passada, mais uma vez, o papa Francisco é utilizado para caçar os cliques dos internautas desavisados nos sites jornalísticos e redes sociais. Eis os títulos das notícias: “Papa Francisco diz que seu reinado será breve”, em O Globo, e “Papa diz que deve permanecer no Vaticano por no máximo 5 anos”, no portal RIC Mais. Contudo, enquanto as chamadas sentenciavam uma possível data de despedida, as notícias, na verdade, tratavam-se de repercutir uma entrevista concedida pelo papa aos vaticanistas. A declaração destacada se referia a uma impressão pessoal e não a uma declaração ou pronunciamento oficial. O pior, é que a mesma opinião já tinha sido exposta por Francisco em outra ocasião em agosto do ano passado. Ou seja, além de sensacionalista, a notícia é velha.

O próprio estilo de fala do papa vem propiciando essa tática de caçar-cliques, mas, ao mesmo tempo, dificultando o trabalho dos jornalistas especializados na cobertura do Vaticano. Isso porque, em seus pronunciamentos e entrevistas, o papa prefere utilizar uma linguagem simples e, como característica peculiar, é comum o uso de figuras de linguagem e até anedotas. O que acaba aproximando a fala do líder religioso à compreensão das pessoas, deixando de ser necessário a mediação de profissionais especializados em decodificar o linguajar eclesiástico, mas, ao mesmo tempo, abre um espaço para interpretações sensacionalistas.

Como no caso do vazamento de uma carta de Francisco enviada à um representante de uma ONG argentina de combate às drogas. O papa escreveu que teme pela situação de seu país e reza para que não aconteça uma “mexicanização”, ou seja, que a Argentina não passe pelos mesmos problemas com o narcotráfico que vem enfrentando os mexicanos. A expressão inventada pelo papa é típica do seu falar, mas causou até um incidente diplomático entre o México e o Vaticano.

O caça-cliques se coloca, então, como a propagação daquilo que não é verdade, o veículo oferece ao leitor, em troca de cliques, aquilo que não tem para oferecer. O que espanta neste caso, é que o próprio Facebook já se mostrou muito mais preocupado com essas transgressões do que o próprio jornalismo. Porém, é melhor tomarmos cuidado, porque, mesmo para aqueles que não creem, o desrespeito ao oitavo mandamento (não mentir) é pecado grave na religião e no jornalismo.

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