Rogério Christofoletti
Professor da UFSC e pesquisador do objETHOS

A notícia que mobilizou a imprensa catarinense na semana passada foi a morte do senador Luiz Henrique da Silveira (PMDB). O desaparecimento repentino de um dos políticos mais influentes das últimas décadas exigiu a reação imediata de profissionais e veículos. O acontecimento se deu em pleno domingo, quando as equipes estão enxutas nas redações e o noticiário é raquítico. Com isso, além da correria habitual desencadeada pelo fato, foi preciso um conjunto de esforços adicionais para dar conta do assunto. Os principais jornais de Santa Catarina não poderiam se restringir a um mero registro no dia seguinte. Esperava-se que trouxessem repercussões, impactos na política local e que retomassem a trajetória do senador.

É bem verdade que algumas empresas jornalísticas preparam com antecedência necrológios de personagens mais velhos e importantes, doentes ou com morte iminente. Embora seja uma prática polêmica, esta é uma maneira que as redações encontraram para não serem pegas de surpresa em situações como a do domingo, 10 de maio. Apesar de contar 75 anos, o senador Luiz Henrique não se enquadrava nesses parâmetros e estava em plena atividade política. Daí que sua morte caiu como uma bomba nas redações naquela tarde.

Não bastassem as dificuldades próprias desse tipo de cobertura – onde se corre o risco e a tentação do emocionalismo exacerbado, da superestimação do personagem e do esquecimento de eventuais insucessos e erros de sua trajetória -, aos domingos, os horários de fechamento das edições também são antecipados. Isto é, tudo conspira contra o bom trabalho jornalístico…

Clones nas bancas

Na segunda-feira, 11, as manchetes dos principais jornais de Santa Catarina não poderiam ser outra, se não a morte de Luiz Henrique. Mas quem esperava que as primeiras páginas saíssem tão parecidas? Que os jornais de um mesmo grupo publiquem textos e imagens semelhantes para reforçar um contexto e uma versão é até esperado. É uma forma de otimizar recursos, de padronizar coberturas e de aproveitar ao máximo os materiais. Mas e quando empresas concorrentes lançam às bancas produtos que mais parecem clones?

Foi assim com o Diário Catarinense – do Grupo RBS – e a edição de Florianópolis do Notícias do Dia – do Grupo RIC-Record. Atentos à gravidade do fato, os profissionais decidiram editar primeiras páginas emblemáticas, com caráter histórico, parecidas com as capas de revistas, onde se privilegia o conteúdo imagético, que ao mesmo tempo é sintético e contundente. Neste caso em particular, para além dos mesmos critérios de concepção, os capistas comungaram a mesma perspectiva de enquadramento do personagem e a mesma fotografia. Com um detalhe: o registro não era de nenhum dos repórteres fotográficos de DC e ND, mas de Pedro França, da Agência Senado. É claro que jornais podem recorrer a materiais de agências noticiosas e de terceiros, desde que com as devidas permissões e créditos, mas a escolha daquela fotografia em especial ajudou em indagações incômodas nas redes sociais: Os jornais não tinham fotos próprias e de qualidade para ilustrar o político nessa hora? Com quarenta anos de vida pública e tantos registros fotográficos feitos pela imprensa local, não havia nada que pudesse ser utilizado? Se os jornais precisaram apelar para fotos da Agência Senado, isso é sinal de que não destacam seus repórteres-fotográficos para acompanhar os políticos catarinenses em Brasília?

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Não me arrisco a responder a questões acima, mas tenho certeza de que os responsáveis pelas primeiras páginas têm razões e argumentos para justificar suas escolhas. Mas as capas de DC e ND de Florianópolis não foram as únicas clones nas bancas naquele dia. Em Joinville, onde Luiz Henrique morreu, o jornal A Notícia e a edição local do Notícias do Dia também vieram chegaram aos leitores muitíssimo parecidas, e também reaproveitaram fotografia de Pedro França, da Agência Senado.

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Três escolhas editoriais distinguiram levemente as capas. Enquanto A Notícia publicou a foto, sem corte, ocupando a largura no alto da página e em preto e branco, o ND optou pelo registro em cores, com um enquadramento mais fechado e uma orientação vertical da fotografia. Apesar disso, outro conteúdo externo intensificou as semelhanças: a publicação de um anúncio idêntico da Prefeitura de Joinville decretando luto de sete dias na cidade.

É de se perguntar: Foi por coincidência que os jornais ficaram tão parecidos? Os editores combinaram entre si? Existem agentes duplos nas redações?

Sinceramente, não acho possível nenhuma das alternativas acima, e isso me preocupa muito.

Pluralidade e diversidade

É bastante comum que tomemos as palavras “pluralidade” e “diversidade” como sinônimas. Afinal, elas apontam para uma mesma direção. Entretanto, elas podem até ser complementares, mas não são a mesma coisa. Este episódio das capas clones serve de ilustração. Temos grupos de comunicação distintos, orientações editoriais que não são as mesmas, mas os resultados que colhemos nas bancas no dia seguinte eram muito parecidos. E não apenas as capas, as coberturas e os vieses também, é preciso que se diga.

Por isso que as hipóteses de coincidência, combinação e vazamento me preocupam menos que uma quarta alternativa: a de que repórteres e editores estão vendo o mundo e as histórias com os mesmos óculos. Assim, a realidade – que é complexa, contraditória, multifacetada e dinâmica – se apresenta por um conjunto muito limitado de formas de expressão. A vida se torna conformada, acomodada em grandes certezas e pouco questionadora.

No caso em questão, só era mesmo possível representar aquele momento daquela forma? Claro que não, existem muitas maneiras de se contar o mesmo episódio, e não se trata apenas de modulação de linguagem. Não há descolamento entre estética e conteúdo, entre expressão e apuração jornalística.

Meu temor é que repórteres saiam das redações automatizados demais para se surpreenderem com os fatos; que editores permaneçam narcotizados diante de suas telas; que redatores vomitem textos apoiados em meia dúzia de fórmulas redacionais; que infografistas tenham as mesmas formações visuais; que jornalistas só façam perguntas idênticas nas entrevistas; que jornais e revistas tenham as mesmas capas; que não importe mais onde estejamos sintonizados para ver o noticiário; que o dissenso escorra pelo ralo, e que a nossa compreensão do que se passa lá fora seja cada vez mais restrita e conformista.

Existe espaço para a criatividade no jornalismo? Ainda há tempo para fazer algo novo? O trabalho do jornalista tem a chance de ser original e diferente? Pessoalmente, respondo um triplo “sim”. Se não acreditasse, não teria insistido até agora com o leitor. Mas este “sim” não é solitário. Ele precisa vir acompanhado de doses cavalares de disposição e empenho. Afinal, pensar fora da caixa, ir além do senso comum, não se satisfazer com as primeiras ideias são passos certeiros na direção do incomum, do singular, do inédito, do criativo.

“Inovação” é uma palavra da moda, mas ela só deixa de ser um substantivo pomposo para se tornar em verbo de ação se conjugarmos no plural e em diversos tempos. As empresas devem investir em inovação para oferecer produtos e serviços de qualidade, para se consolidar em seus segmentos, para alcançarem liderança nos mercados. Por sua vez, profissionais com vocação inovadora tendem a ser versáteis, ágeis, mais valorizados, estratégicos nas equipes. Para se efetivar, a inovação depende de um conjunto variado de condições, pois precisa se estabelecer como uma cultura, um espírito comum. Há que se ter disposição, vontade, dedicação. Queremos pensar além dos limites impostos? Temos vontade para agir de forma distinta do que espera o senso comum? Responder a essas duas perguntas ajuda a abrir novos horizontes, e ajudaria também a editar primeiras páginas diferentes…

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