Samuel Lima
Professor da UnB e pesquisador do Laboratório de Sociologia do Trabalho (LASTRO/UFSC) e objETHOS

Há um novo “protagonista” na hierarquia da informação jornalística, nestes tempos de comunicação em rede, na vertigem do jornalismo digital balizado pelas redes sociais, blogosfera e a figura do receptor que também produz informação e/ou opinião: o comentarista. O pesquisador Thiago Amorim Caminada (objETHOS/UFSC) apontou, recentemente, a necessidade de um debate sobre essa questão (ver aqui: http://migre.me/q5Oeo), que pudesse desembocar no código de ética profissional e/ou manuais de redação. Vou me ater ao espaço de comentários do jornalismo online, no Portal G1 (da Globo.com), a partir de três reportagens.

Esta brevíssima reflexão dialoga com uma hipótese presente na obra “Mutação no Jornalismo: Como a notícia chega à internet”, da pesquisadora Thaís de Mendonça Jorge (Ed. UnB, 2013): “A notícia enfrenta hoje um novo processo de mutação, e mais uma vez procura se adaptar às transformações da sociedade. Ganhando uma nova mídia para se exibir; espraiando-se por terrenos com som e imagens; conquistando novos públicos na rapidez dos tweets, o relato noticioso muda”.

Em ordem cronológica, começo com a notícia publicada pelo G1 São Paulo (02/04/2015): “Filho mais novo de Alckmin morre em queda de helicóptero em Carapicuíba”. O texto não assinado dá conta da tragédia: “O filho mais novo do governador Geraldo Alckmin (PSDB), Thomaz Rodrigues Alckmin, de 31 anos, morreu nesta quinta-feira (2) na queda de um helicóptero em Carapicuíba, na Grande São Paulo. Cinco pessoas morreram no acidente” (Fonte: http://migre.me/q5OTM). Além do jovem Thomaz, morreram também “o piloto Carlos Haroldo Isquerdo Gonçalves, de 53 anos, e os mecânicos Paulo Henrique Moraes, de 42 anos, Erick Martinho, de 36 anos, e Leandro Souza, de 34 anos”.

A publicação da reportagem suscitou 924 comentários, com repercussão imediata nas redes sociais, em especial Facebook e Twitter. Entre xingamentos, achincalhes torpes à memória do filho de Alckmin e teorias da conspiração de filme “B”, pouco ou nada sobra dessa interação entre o produto jornalístico e as informações e/ou opiniões do público. Destaco algumas opiniões: “Esse acidente foi armação do próprio partido; talvez tenha sido para ‘queima de arquivo’; o rapaz que morreu era avesso à política, não gostava das coisas que o pai fazia, mas sabia de coisas sujas do governador; Celso Daniel, Eduardo Campos… Será que tem mão do PT aí também para atacar o PSDB?; e ainda há quem duvida que o PT é a maior facção do país, estamos em uma ditadura comunista quem for contra o governo salve-se quem puder; Ah não, achei que era o filho do Lula que pena! (fica para próxima)”.

No meio desse palavrório caótico, algumas vozes pregavam a ponderação: “Sem falar de política, por favor. Vamos ter condolências à família; não misturem política, problemas sociais com uma tragédia de família; vamos respeitar a dor da família Alckmin, e dos demais ocupantes que infelizmente morreram”. Uma proposta, no entanto, chamou minha atenção: “Acho que o G1 não deveria liberar o espaço para comentários nesse tipo de situação. Sempre tem um infeliz para falar de política, religião ou fazer alguma piadinha descabida”.

A segunda reportagem, assinada pela jornalista Carolina Dantas (Portal G1, São Paulo, 20/05/2015) tem como objeto a vinda dos imigrantes haitianos do Acre para São Paulo. Na matéria bem apurada, destaca-se uma entrevista em vídeo com o padre Paolo Parise, da Paróquia Nossa Senhora da Paz (Centro). O religioso, que coordena o acolhimento aos haitianos, alertava para os problemas decorrentes da vinda de mais 130 pessoas sem aviso: “Estamos dialogando com a Secretaria de Direitos Humanos e as várias instituições para tentar sensibilizá-las a fazer o seu papel, que é abrir um espaço de emergência para esse haitianos” (Fonte: http://migre.me/q5PxL).

No espaço para comentários, a matéria que a rigor tratava de solidariedade humana e ação pastoral, gerou 206 comentários. Prevalecem xingamentos de cunho racista, xenofóbico e na linha geral do ódio de classe/intolerância tão presentes nas redes sociais. Destaco alguns: “O Brasil não cuida nem do seu povo quer cuidar desses … por que não ficam no seu país e morrem de fome por lá mesmo?; são os caras que vão nos matar em breve!! É bom abrir os olhos enquanto há tempo!; o que deve ser feito com urgência é fretar um navio e mandar esses lixos humanos de volta pra suas origens; é o exército bolivariano que está sendo montado pela esquerda infestada que incentiva esse tráfico lucrativo. Para resolver o problema é só mandá-los de volta para o Peru (grifo nosso), local de procedência”.

No meio do tiroteio verbal sem rumo, alguém se autoidentifica como imigrante e pondera: “Eu sou português e minha família se radicou aqui; hoje sou empresário bem-sucedido que dá emprego para 86 brasileiros”. Perdido no caos supostamente dialógico, um comentarista arrisca uma interação produtiva com a reportagem: “Realmente acho que a mentalidade do paulista está cada dia pior. Sempre fomos um povo que recebeu todos os tipos de migrantes e imigrantes vindos de diversas partes do mundo, desde a fundação dessa cidade, em busca novas oportunidades na vida ou fugindo de algum conflito. Já recebemos em diferentes períodos portugueses, italianos, espanhóis, africanos, japoneses, judeus, sírio-libaneses, armênios, chineses, coreanos, bolivianos e por aí vai, e sempre nos orgulhamos disso. Onde foi que erramos?”. Isso já daria gancho para outra matéria, uma suíte de novo tipo…

Encerro, citando a reportagem publicada no Portal G1 Nacional (27/05/2015) cujo título já sugeria um tipo de matéria-prima no espaço de comentários: “Mãe de Dilma é internada com sintomas de isquemia, diz Planalto”. O texto não assinado informa que naquela quarta (27/05), “a mãe da presidente Dilma Rousseff, Dilma Jane, foi internada em um hospital de Brasília após apresentar sintomas de ataque isquêmico transitório. Dilma Jane tem 91 anos e mora com a presidente no Palácio da Alvorada, residência oficial em Brasília, desde 2011, quando a filha assumiu a Presidência da República” (Fonte: http://migre.me/q5Qvm).

A matéria gerou 261 comentários, um esgoto da alma humana a céu aberto nas páginas eletrônicas daquele portal noticioso: “Morre, morre, morre velha sem-vergonha; vamos rezar pra que satã a receba de volta; essa prostituta tinha que morrer antes de procriar um demônio; a culpa toda é da parteira que teve a oportunidade de enrolar o cordão umbilical no pescoço da Dilma e enforcá-la; manda ela pro SUS; aqui em casa já acendemos uma vela e estamos orando pela piora da saúde da mãe da marmota; por que não se internou no SUS para os médicos cubanos cuidarem?; a Dilma deveria morrer junto!”.

Lá pelas tantas, aparece uma ponderação similar àquela que havia sido postada no caso da tragédia que vitimou o filho do governador Geraldo Alckmin: “Olhei a matéria e pensei: o G1 deixou a área de comentários em aberto. Dito e feito. Gostaria que a nossa imprensa tivesse mais respeito: na matéria sobre a morte do filho do Alckmin também foi a mesma coisa”. Mas, havia raríssimas manifestações de rejeição ao tom geral: “Nossa quanto ódio! Deixa eu sair daqui pra vomitar; esses comentarios fazem seus autores serem piores que qualquer desgoverno”. E até um solitário apoio nos mais de 200 comentários que li: “Boas melhoras a mãe dela…Eu só consigo ter uma imagem da Dilma: Guerreira!!!”

Quando reflete sobre o que seria “o novo papel da audiência”, aqui matizado no espaço dos comentários, o pesquisador Thiago Amorim Caminada aponta que tal “audiência participativa e colaborativa também deveria receber atenção referente ao seu grau de responsabilidade”. Para ele, em princípio, tratava-se apenas de os jornalistas profissionais corresponderem “às expectativas desses públicos ávidos por um diálogo mais franco e por estabelecer parcerias com os editores e jornalistas”. Uma observação preliminar nos quase 1,4 mil comentários postados nas três reportagens aqui analisadas indica que os novos leitores/as estão ávidos por um tipo de catarse com potencial não construtivo, por natureza.

Resgato a obra de Thaís de Mendonça Jorge (FAC/UnB) para reafirmar que, independente dos novos suportes móveis e aplicativos de última geração, “a notícia que se conhece continua ser, na essência, um bem simbólico que nos ajuda a estandardizar o mundo”. Um bem simbólico, forma de conhecimento social que não dialoga com o discurso de intolerância, ódio, misoginia, homofobia, preconceito racial, xenofobia e outros dizeres brotados das pequenas almas humanas que transitam, aos milhares, pelos nós das diversas plataformas de comunicação em rede.

Sacralizado nos novos espaços midiáticos, ancorado na internet, o jornalismo publicado nos portais noticiosos das grandes corporações de mídia também não aponta uma saída ao impasse da nova mutação. Em sua página do Facebook, recentemente, o professor Nilson Lage (UFSC) vaticinou: “Em anos recentes, oligopolizada e domesticada, substituída em alguns de seus papéis por outras mídias, a imprensa regride aos dois estágios primitivos – o do escândalo e da propaganda”.

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