Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Dizem que a justiça que tarda já é falha por natureza, porém nos últimos meses vemos que diante desse delay, ao menos, tem-se levantado a hipótese dos julgamentos. Basta abrirmos as páginas ou ligarmos os aparelhos eletrônicos na sintonia dos canais de notícia que logo veremos algum assalto, latrocínio, roubo, furto… Ao mesmo tempo discussões sobre processos parados, cadeias lotadas; reincidências de fatos cotidianos que parecem a mesma história, alternando apenas os desfechos e personagens.

O saco é o mesmo, mas os grãos de farinha escolhidos para serem destaque na mídia recebem distinções dentro dos critérios de noticiabilidade que, quase sempre, se balizam por capital financeiro e influência política. A esses grãos bons a seleção das notícias é investigativa, reportagens extensas, dias e dias remoendo os processos e desfechos. Aos demais grãos uma nota simples quase sempre basta, juntando à massa um pouco de sensacionalismo, uma pitada de ironia e colocando tudo em uma mesma tigela cujo pão, se não se destacar diante dos demais, sairá do forno beirando o esquecimento.

Junto aos casos estereotipados dos assaltantes, traficantes e meliantes, tem sentado também no banco dos réus alguns engravatados com indícios de amnésia, cujo antídoto para essa está em alguma fita de vídeo ou escuta telefônica. Mensalão, Lava-Jato e mais recentemente os escândalos envolvendo a FIFA são exemplos dessa justiça tardia que mostra as mangas para os marajás. São eles os grãos bons que se misturam a massa principal e saciam a audiência jornalística, porém é no preparo dos pratos que a falta de um tempero pode amargar a receita: a ética jornalística mal dosada ou mesmo esquecida de ir à mistura.

Um jornalista que não sabe lidar com esse ingrediente pode azedar todo o prato, mesmo que ele fique assando por um bom tempo nos tribunais. A TV Band Bahia provou desse dissabor na última semana, tendo que pagar uma conta de R$60 mil reais por uma iguaria feita na própria cozinha.

Quase três anos atrás a jornalista Mirella Cunha fez uma reportagem1 para o programa “Brasil Urgente Bahia” e zombou descaradamente de Paulo Sérgio Silva Souza, então acusado de estupro. No vídeo ele assume furto, mas nega o estupro e mesmo assim a jornalista parece instigar uma confissão.

O desserviço jornalístico chegou a seu auge quando Paulo confunde exame de corpo de delito com exame de próstata, tendo dificuldade ainda em pronunciar o nome da glândula masculina. Ingrediente que faltava na receita humilhante da jornalista.

De forma vexatória Mirella ironiza o acusado e amplia sua humilhação debochando sempre que podia do desconhecimento da língua portuguesa. Era visível o desconforto do acusado diante do menoscabo da repórter. Uma matéria que deveria ser sobre estupro foi para o You Tube como um trágico deslize ético jornalístico em que a ignorância do acusado passou a ser o critério de noticiabilidade mais relevante.

De acordo com o juiz Rodrigo Brito Pereira, da 11ª Vara Federal de Salvador, a sentença de R$60 mil por danos morais coletivos foi resultado de uma entrevista que violou os direitos humanos. Independente do valor e ainda que tardia, nesse caso a justiça trouxe um pouco mais de esperança ao jornalismo feito com responsabilidade, que preza pela informação e zela pelo discernimento nas interações com as fontes.

Não foi o primeiro nem será o último caso em que a ética pauta o desfecho. Embora nesse especificamente a ética tivesse um preço para ser cobrado, as consequências de seu uso (ou falta dele) indiscriminadamente tende a gerar consequências físicas, morais e até psicológicas imensuráveis.

Diante de casos como esse e outros como o mesmo desastre aéreo em que o nome das babás é ocultado para dar ênfase ao de seus patrões famosos, parece que cada vez mais esse condimento crucial vem sendo esquecido na receita do jornalismo. Claro que é benéfico e até aconselhável que em tempos de transformações desenvolvamos novas formas de sovar a massa, novas técnicas para se misturar os temperos, mas acima de tudo é crucial acompanhar o que está escrito no caderninho de ingredientes.

Nessa realidade comunicacional em que religião coloca em xeque a propaganda de um perfume trocado por pessoas do mesmo sexo, cabe a nós trilhar maneiras sutis de continuar aguçando os bons paladares e ao mesmo tempo quebrando os preconceitos. Desfrutando dos temperos éticos do Chef em uma Master Class jornalística infinita, onde cada erro alheio sirva de exemplo para aprimorarmos nossa receita, antes que coloquem água no nosso chopp.

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