Francisco José Castilhos Karam
Pesquisador do objETHOS e professor na Universidade Federal de Santa Catarina

Em entrevista ao repórter Rafael Thomé, do jornal Notícias do Dia (http://ndonline.com.br) de Florianópolis, semana passada, o jornalista e escritor Fernando Morais, autor, entre outros, dos livros “Olga” e “Chatô”, ressalta a crise do jornalismo atual mas antevê uma nova fase para a profissão. Considera que a nova geração será a coveira e a parteira de um novo jornalismo; que ele não está acabando mas sofrendo profunda mutação, com enormes vantagens, como a quebra dos monopólios “sem dar um tiro e sem expropriar o jornal de ninguém”. Destaca que a precisão, relevância e  credibilidade continuarão importantes no novo cenário, que terá maior participação do público. Trata-se do ambiente também chamado de ciberespacial na academia, que terá anunciantes para o bom jornalismo sem se prender ao modelo de negócios tradicional.

Na mesma semana, em 12 de junho, no Observatório da Imprensa (www.observatoriodaimprensa.com.br), o jornalista Carlos Castilho, em sua coluna/blog Código Aberto, sob o título “O jornalismo e a nova economia política da informação” , escreve que o jornalismo está em uma nova fase que ultrapassa  a cultura trabalhista e pergunta, diante do desafio atual para a área, “como assegurar a sustentabilidade de iniciativas jornalísticas em ambiente informativo onde o modelo convencional de publicidade e patrocínios já não funciona mais como antes?”

Os dois reconhecidos profissionais, respeitados no Brasil e exterior, com cerca de 50 anos de ofício cada, entendem o percurso do jornalismo e não o sepultam, e, sim, o redefinem com novas perspectivas.

Ainda na mesma semana, na Grécia, foi anunciada a reabertura da teve pública ERT, fechada dois anos antes, quando, por decisão do governo anterior, despejou 2.600 trabalhadores na rua. O canal foi reaberto em 11 de junho com um noticiário e a promessa dos seus apresentadores que a televisão será para toda a população e não será controlada pelo Governo. A lei que determinou a reabertura do canal foi aprovada no Parlamento grego em abril, num quadro de tentativa de recuperação da economia e da democracia, na qual a mídia parece ter um papel central, especialmente a pública.  Os demitidos poderão recuperar seus postos de emprego. O custo anual da empresa terá de ser limitado a 60 milhões de euros anuais e será pago por uma taxa de três euros mensais.

As constatações de Morais e Castilho, de um lado, e a decisão do governo grego, de outro, reabrem também esperanças para intensificar – embora a crise no setor privado – as relações entre jornalismo e democracia.

A crise da empresa jornalística tradicional está associada à crise do grande capital – onde se inserem as grandes empresas de outras áreas sócias da mídia, como bancos, empreiteiras, agronegócios e produção de armamentos. A iniciativa grega se insere na produção própria, não tão vinculada ao grande capital, para a realização do jornalismo. Embora os argumentos de que uma tevê pública será “chapa branca”, o controle da tevê grega não será do governo. A reabertura da tevê está ancorada na ideia de que o público a controle, já que é ele que a paga. Além disso, não se pode falar de imprensa oficial nos meios públicos sem levar em conta de que a grande mídia mundial, incluindo a brasileira, tornou-se o que o próprio Fernando Morais reconhece como um partido político, já popularmente conhecido como PIG, Partido da Imprensa Golpista. Ora é oposição, quando seus interesses podem ser afetados pelo governo, como agora; ora é situação e chapa-branca, como ocorre no tratamento de denúncias que envolve amigos, como o governo de São Paulo, o governo de FHC, de José Serra, de Aécio Neves e todos os seus desvios. É um chapa-branquismo e tanto…

Mais experiências como a grega seriam interessantes também em outros países, entre eles o Brasil. O enfrentamento com a mídia argentina feita pelo governo Kirchner, por exemplo, sobretudo com o grupo Clarín, aponta um caminho em direção à democracia midiática que outros países estão acelerando. E que no Reino Unido, por exemplo, tem regulamentação clara.

No caso brasileiro, parece haver pouca disposição de tal enfrentamento ou de, ao menos, aqui, efetivamente aplicar recursos em uma mídia pública, sem a precariedade em que ela se encontra hoje, embora os esforços de diretores e profissionais.

Há excelentes programas jornalísticos nas tevês Senado, Câmara, Justiça. Há excelentes programas de entrevistas, reportagens, notícias, que superam, em muito, a qualidade jornalística dos grandes meios, em equilíbrio, profundidade, apuração e controvérsia. Mas falta, ainda, uma rede nacional que compartilhe e dispute determinados espaços, hoje residuais, com a mídia hegemônica. Se esta perde força como atestam algumas pesquisas de audiência e se também cresce o profissionalismo das assessorias, nada mais justo e potencialmente democrático do que apostar em mídias públicas que ampliem qualidade , diversidade e público. Para isso, é necessário profissionalismo, concurso público, abertura de postos de trabalho e permanência e continuidade de bons projetos. Alguns estados estão, ao contrário, sepultando boas iniciativas, caso do atual governo do Rio Grande do Sul, em uma política de destruição de uma boa mídia pública , como a Televisão Educativa do RS.

A ideia de um investimento massivo em meios públicos , longe de ser chapa branca, acompanha a ideia de comunicar diretamente com os públicos. Para isso, é necessário profissionais que reconheçam, apurem e narrem com base nos critérios jornalísticos ideais e que podem ser aplicados, com mais liberdade e profundidade, em meios públicos, muito mais do que em meios privados, sem as amarras vinculadas a anunciantes, acionistas e fontes que impõem as pautas e as angulações.

Assim, junto com a profissionalização jornalística das assessorias, públicas ou particulares – e com os vários e crescentes espaços contra-hegemônicos e de qualidade nas redes sociais – pode prosperar também um jornalismo mais transparente, mais vinculado ao conceito de interesse público e de esfera pública. Como na Grécia, primórdio da democracia ocidental, o Brasil poderia apostar em uma mídia pública nacional em diferentes formatos, via internet, tevê e rádio, ainda que na disseminação ciberespacial, compartilhada e com relação direta com o público. Seria uma grande contribuição ao processo de intensificação da relação Jornalismo e Democracia, hoje destruído, nos meios hegemônicos tradicionais, pelos interesses privados que se sobrepõem ao interesse público.

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