Lívia Vieira
Mestre e doutoranda em Jornalismo pelo POSJOR/UFSC

Em tempos de internet, qualquer pessoa pode fazer jornalismo. Mas quem realmente quer? A produção de uma reportagem exige não somente investimento financeiro e de tempo, mas intelectual: contrapor versões, realizar entrevistas, investigar, ter sensibilidade para encontrar e contar histórias que importam. Apesar de serem a alma do bom jornalismo, grandes reportagens são mais raras do que deveriam. No jornalismo impresso diário, tanto mais.

No último sábado, dia 20 de junho, o Diário Catarinense acabou com essa escassez ao publicar 24 páginas da reportagem “As quatro estações de Iracema e Dirceu” (http://www.clicrbs.com.br/sites/swf/DC_quatro_estacoes_iracema_dirceu/index.html).  Trata-se da história de uma família catarinense que vivia abaixo da linha da pobreza em um dos estados mais ricos do país. Durante mais de 2 anos, a repórter Ângela Bastos acompanhou o casal e seus 14 filhos, apresentados ao leitor num texto impecável e extremamente sensível.

A versão multimídia da reportagem ganhou vídeos, mapas e áudios chamados de ‘Diário da repórter’. São trechos em que Ângela conta os bastidores de seu contato com a família, revelando nuances do processo de apuração e alguns dilemas éticos. Algo raro numa reportagem e, por isso mesmo, será objeto de análise neste artigo.

Mostrando ‘como se faz a salsicha’

Uma reportagem que dura três anos não se esgota no texto final. Apesar de parecer um raciocínio bastante óbvio, jornais e jornalistas se amarram à objetividade, como se não relatar o processo fosse garantia de isenção ou neutralidade no relato. Neste caso, o ‘Diário da repórter’ não só complementa como revela detalhes fundamentais para a compreensão e interpretação do leitor.

Como quando Ângela conta o dilema de levar ou não presentes para os filhos de Iracema e Dirceu no Natal de 2013.

Decidimos passar o Natal com a família. ‘O suplício de papai noel’, de Lévi-Strauss, foi minha leitura de dezembro de 2013. Eram muitas as perguntas que me fazia, afinal, aquela não era uma visita como as outras. Deveríamos levar presentes? Eu e o colega fotógrafo, Charles Guerra, conversamos muito sobre isso. Entendemos que deveríamos fazer como das outras vezes: até então, no máximo, chegávamos com um pacote de erva-mate e um bolo, para tomarmos juntos café. Mas não resistimos ao pensar nas crianças e levamos caixas de bombons. Entendemos que isso não era interferir na realidade deles. No começo da noite do dia 25, já na viagem de volta para casa rumo à Florianópolis, ríamos das caras sujas de chocolate das crianças. Tinha sido o único presente naquele dia.

Ao explicitar o dilema com transparência, a repórter sai do pedestal da objetividade e mostra toda a subjetividade do relacionamento com as fontes. Algo que todos os jornalistas sabem, mas ocultam do leitor. Com isso, não estou dizendo que todo processo de apuração deve ser contado em minúcias, mas o relato de Ângela humaniza a figura do repórter e enriquece a própria história. Impossível não imaginar seu diálogo com o fotógrafo, a reação das crianças. Diante disso, o próprio dilema ético é solucionado, a meu ver. Afinal, como condená-los por essa atitude tão humana?

Vale lembrar que a ética jamais deve ser deslocada de seu contexto e que não há respostas prontas para os dilemas que surgem. A transparência com o leitor é uma saída ética, que o leva a refletir sobre o próprio fazer jornalístico.

Em tempos de efemeridade e curadoria de conteúdo, a história de Iracema e Dirceu é um bálsamo para o bom jornalismo, o que se faz relevante com uma grande reportagem como essa.

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