Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora do objETHOS

Papo Amarelo: Por que vocês gostam de sangue?
Repórter: Nós, não. O povo é que gosta.
Papo Amarelo: O povo, não. O povo não gosta de sangue.
Repórter: Então por que o jornal vende pra burro?
Papo Amarelo (ri): Só se o povo gosta do sangue do jornal.

O repórter havia subido o morro para tentar um contato com Papo Amarelo, bandido pé de chinelo e analfabeto, transformado em inimigo público número um pela imprensa popular. A conversa é rápida, momentos antes de se iniciar a perseguição policial. Haveria melhor síntese para o processo de produção do discurso jornalístico do que aquela resposta tão simples e direta?

O diálogo é uma cena do segundo episódio de Os Marginais (1968, direção de Moisés Kendler). O jornal em questão era daqueles característicos “espreme que sai sangue”. Nada a ver com o Meia Hora, tabloide carioca lançado em 2005 e que logo alcançou enorme sucesso: em poucos meses chegou a 130 mil exemplares diários e em 2008 ultrapassou os 230 mil, para depois decair mas, ainda assim, manter-se entre os títulos de maior circulação no país – é o décimo, com média de 114 mil em 2014, de acordo com o IVC (Índice Verificador de Comunicação). A fórmula do sucesso foi tratar a temática típica do universo da imprensa popular – sexo, sangue e futebol – fazendo piada, explorando o grotesco. A criatividade de certas capas despertou um entusiasmo generalizado, inclusive e sobretudo no meio universitário. Mas nem tudo deveria ser motivo para riso.

O documentário Meia Hora e as manchetes que viram manchete, dirigido por Angelo Defanti, proporciona uma rara oportunidade para se discutir questões éticas, principalmente – mas não só – nesse tipo de publicação. Rara por estimular esse debate através do cinema, quando há tão poucos documentários sobre jornalismo no Brasil, e pela forma como é editado, com mínima intervenção do diretor nas entrevistas: é através da exposição dos depoimentos, confrontados entre si e articulados às reproduções das capas – algumas delas trabalhadas com efeitos gráficos criativos –, num ritmo ágil, que o filme ao mesmo tempo provoca o riso e o questiona. E, assim, levanta dúvidas que permitem ao público desenvolver a sua própria crítica.

O documentário foi exibido no Festival do Rio, em outubro de 2014, mas só tive condições de vê-lo quando estreou em circuito regular, na semana passada. Fui uma das entrevistadas e meu desejo de contribuir para esse debate é o que me anima a fazer essas observações agora. Meu comentário diz respeito ao discurso do jornal sobre o crime – este que o Papo Amarelo criticava –, embora o filme trate de maneira abrangente os outros principais interesses do público a que o jornal se dirige, como o sexo – representado na exposição das “Gatas da Hora” e do mundo das celebridades – e o futebol, com as gozações sobre os times cariocas que perdem jogos e campeonatos.

Convite ao extermínio

O recurso ao grotesco é sempre citado pelos estudiosos de Bakhtin. A irreverência, o deboche, a exposição ao ridículo são uma vigorosa e libertadora forma de demonstrar que o rei está nu. Mas nem tudo pode ser motivo de galhofa, como o próprio jornal reconheceu ao pedir desculpas ao leitor pela falta de piada no dia em que noticiou a chacina de seis jovens que inadvertidamente entraram numa área dominada por traficantes, na Baixada Fluminense.

Por isso é tão interessante ver como dois dos jornalistas entrevistados, ambos formados pela UFF, comentam o próprio trabalho. Quando um deles, editor-chefe, diz que “muitas vezes houve uma confusão de que ali às vezes a gente estivesse comemorando uma morte”, o diretor exibe a capa com a manchete “Bope faz aniversário e apaga quatro”, com a imagem de quatro velas correspondentes aos traficantes mortos, e balões de festa pretos com a marca da caveira símbolo do batalhão. A resposta é apenas de que aquela capa foi “desnecessária”, sem mais considerações.

Apesar de várias manchetes de exaltação à polícia que “passa o rodo” e “senta o dedo”, em momento algum os editores reconhecem que o jornal compactua com ações de extermínio. Pelo contrário, insistem em que “a maldade está nos olhos de quem vê”, o jornal apena “relata fatos”, embora “na forma Meia Hora de ser”.

Como bons alunos que foram, sabem que isso simplesmente não é possível.

Um antagonismo equívoco

Além de convergir para a reiteração da velha e ultrapassada teoria do espelho, o depoimento deles e de outros responsáveis pela edição e produção do jornal repete o mantra de que o Meia Hora apenas responde ao desejo de seu público. Que não é possível tratar de assuntos “aborrecidos”, como a tramitação de projetos de lei, porque o leitor não se interessa por isso.

Mas o papel do jornal – de qualquer jornal, popular ou de elite – não é o de mediador entre os fatos e o público? Não deveria haver o compromisso de esclarecer esse público? Não deveria, portanto, levá-lo a se interessar pelas questões que afetam diretamente a sua vida? Recusar essa tarefa não é ajudar a mantê-lo na ignorância?

Essas questões aparecem ao final do filme e provocam o comentário do publicitário responsável pelo projeto e pela campanha de lançamento do jornal:

Eu devo entregar pro cara o que ele quer ou o que ele precisa pra ser um cidadão melhor? Você não consegue enfiar na cabeça de ninguém algo que ela não esteja predisposta, de alguma maneira, a receber. Pensar, de maneira vã, que eu vou conseguir fazer um jornal educativo, com tudo que… as TVs educativas, que são lindas, maravilhosas, sensacionais, não têm audiência.

É como se houvesse uma incompatibilidade entre educação e entretenimento. Como se educar fosse algo necessariamente enfadonho. Mais ainda, é como se algum sentido “educativo” não estivesse permanentemente subjacente a qualquer noticiário, pois a exaltação do extermínio de bandidos é uma forma de sedimentar entre o público a maneira pela qual ele enxerga a realidade, porque aprendeu a vê-la assim. Um público composto essencialmente pelo povo pobre, esse povo que, na estereotipia do comentarista esportivo Washington Rodrigues, “tá sempre bem humorado”, porque “se conforma de tal maneira que não tem outros horizontes” e por isso “acha tudo fantástico, acha tudo formidável”.

(Antes que se diga que esse tipo de crítica é “coisa de intelectual” e que não haveria forma de fazer diferente, o jornal Extra vem demonstrando o contrário. Também voltado a um público popular, essa publicação do Grupo Globo comprova que é possível contrariar o senso comum usando uma linguagem simples e direta. Apenas a título de exemplo, no episódio em que um adolescente negro foi preso sob a acusação de ter assassinado um médico que pedalava à noite pela Lagoa Rodrigo de Freitas para roubar-lhe a bicicleta, o Extra escancarou a manchete “Sem família, sem escola”, que ultrapassava o fato imediato para apontar o drama social por trás de crimes daquele tipo).

O mesmo empuxo

Muniz Sodré, que intervém desde o início do filme, discorda do compromisso do jornal com a educação: “o compromisso formal com a educação das pessoas é do Estado. O jornal tem responsabilidade com a ética social imediata. Com um horizonte de cidadania. Isso eu acho que tem”.

Em seguida, compara historicamente a “imprensa burguesa” com a “popular” para desfazer alguns mitos:

Se tentou separar a imprensa burguesa, e a palavra é exatamente essa, a imprensa burguesa da imprensa popular, mas nunca se chegou realmente a definir bem o que é esse popular. Em geral esse popular se define por uma redução dos conteúdos qualitativos da imprensa burguesa. Faz o filhote, desdobra o jornal, faz um meio jornal. Mas essa divisão tem alguma coisa de preconceituosa. Mesmo o público da imprensa dita de qualidade, maior qualidade, a imprensa burguesa, não lê os artigos de qualidade, é uma pequena fração que lê aqueles artigos de qualidade. E vai ler o quê? A mesma coisa que a imprensa popular, de outra maneira, prefere. Diversão, entretenimento, aí você acrescenta o crime… a notícia de sexo você encontra também na coluna do Globo, a coluna “Gente Boa” é isso, quem transou com quem na festa. Em última análise, no fundo, essa imprensa dita popular e a não-popular têm o mesmo empuxo, têm a mesma vitalidade, só que com estilos diferentes.

Na imprensa popular ou na burguesa – os tais “quality papers”, como se os outros não tivessem qualidade – o “sangue do jornal” é exposto em diferentes estilos, mas no mesmo sentido.

É só mais um dos muitos fios que este documentário fornece para a discussão da ética jornalística.

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Meia Hora e as manchetes que viram manchete está em cartaz no Rio de Janeiro, em São Paulo e em Aracaju. Estreia em Porto Alegre no dia 27 de agosto, no Cine Santander (dia 29 haverá debate após a sessão com o escritor Luis Fernando Veríssimo e o cineasta Jorge Furtado) e chega a Florianópolis em 3 de setembro, no cinema do CIC.

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