Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Quando manuseamos um jornal contemporâneo, seja na interface digital ou no meio impresso, ou quando assistimos a um telejornal, nos deparamos frequentemente com notícias de crimes hediondos que nos dão a impressão de que a humanidade é um caso perdido e de que o mundo só piora a cada dia. O que o senso-comum muitas vezes ignora é que este tipo de notícia é moeda corrente nos jornais há pelo menos dois séculos. As notícias de caráter sensacionalista, consideradas expressão de uma imprensa provinciana, resistiram ao tempo e à modernização, ocupando hoje seções inteiras ou programas exclusivos de televisão. Sob a égide de faits divers, relatos que envolvem violência há muito ganham destaque e despertam um grande interesse público. Quando a notícia chega ao requinte de relatar um crime passional com esquartejamento do corpo, então, aí é ver o interesse aumentar e a curiosidade mórbida dos leitores chegar a seu extremo.

O objetivo deste breve comentário é demonstrar que os crimes bárbaros, que trazem o esquartejamento do corpo humano como leitmotiv, não são prerrogativa dos dias atuais, mas já vêm desde as primeiras formações do jornal no Brasil. Parto da ideia de que, para além do horror que despertam, há um princípio de prazer, de descarga, de desvio das várias “amputações” e “clivagens” simbólicas que o indivíduo sofre na vida moderna. E alguns jornais, inseridos na lógica do lucro fácil, alimentam este princípio, servindo em fatias o corpo humano mutilado para saciar o apetite de uma massa de assíduos leitores deste tipo de publicação.

Recupero aqui ideias já discutidas por mim em artigo publicado em 2011 (revista Alceu-PUC/RJ) quando analisei casos pioneiros de sensacionalismo nos jornais em fins do século XIX, começos do XX. O objetivo agora é trazer esta discussão para as linhas do presente para demonstrar que, embora a linguagem tenha mudado, os mesmo ingredientes integram a receita de um tipo de notícia que, ao falar de morte, se mantém viva até hoje.

O corpo mutilado provoca horror

Conforme artigo mencionado (SANTOS, 2011), na virada do século XIX para o XX, com a aceleração da velocidade das técnicas, sobretudo de locomoção (bondes, trens, automóveis), e o excesso de estímulo decorrente do aumento da carga de trabalho, os habitantes das cidades sentiam-se cada vez mais ameaçados. Além do desgaste da vida moderna, havia o medo dos acidentes ferroviários e dos trabalhos nas fábricas, comuns há época. Assim, se as novas técnicas de um lado prometiam um maior conforto corporal, por outro, provocavam angústia pela constatação de que o corpo podia ser mutilado, os membros esmagados ou amputados (BUCK-MORSS, 1996). Tanto que foi neste período que ganhou notoriedade um profissional cujo ofício era juntar literalmente as partes de um corpo que poderia se despedaçar: o cirurgião. E a droga que pudesse aplacar a dor dos iminentes desastres ganharia projeção: a anestesia.

É curioso constatar que também nesta época surge uma demanda por um tipo específico de notícia que, em muitos casos, traz justamente a mutilação, o desmembramento do corpo, como chamariz principal. É como se este tipo de notícia funcionasse como um narcótico para os sentidos, tal qual a anestesia entorpece um corpo mutilado. Só que a notícia sensacionalista entorpece não porque anestesia os sentidos, mas porque os inunda. E daí a sua predileção por assuntos ligados a catástrofes, violências urbanas, crimes bárbaros. Contra o medo do choque produzido pelas novas tecnologias e pelo automatismo do trabalho, o sexo, o sangue, as mutilações, os dramas passionais como forma de entretenimento.

O corpo mutilado provoca prazer

E não foi outra coisa senão puro entretenimento a notícia do assassinato de Maria de Macedo em 1892 e que ocupou as páginas dos jornais por cerca de quatro meses. Já tratei deste crime no artigo citado anteriormente, mas o recupero aqui para confrontá-lo com outros crimes semelhantes divulgados na mídia contemporânea.

Maria de Macedo, uma mulher de “cor parda”, foi encontrada morta dentro de um cesto no Largo do Depósito, no Rio de Janeiro. Segundo o jornal Gazeta de Notícias do dia 21 de setembro daquele ano, estava “sem cabeça, com o braço esquerdo desarticulado pela cabeça do úmero, o antebraço direito com a mão decepada e em flexão sobre o braço, as pernas cortadas pelo terço inferior de fêmur, e as partes pudendas queimadas por ácido azótico”. A manchete e o primeiro parágrafo evidenciam o caráter sensacionalista da notícia, com uma linguagem naturalista, carregada de adjetivos e interjeições:

Singular Crime!

Era meio-dia quando entramos no necrotério. Uma atmosfera formada por gases pútridos e pelo cloro enchia o ambiente, sufocante, nauseabunda. Sobre uma mesa à direita, o cadáver mutilado de uma mulher de cor parda estava sendo autopsiado pelos médicos, que procuravam descobrir a causa da morte! No coração e nos grandes vasos não existia gota de sangue. A morte devia ter sido causada por abundante hemorragia (GLEDSON, 1996, p. 126).

Segundo Machado de Assis, que comentaria o caso em crônica do dia 25 de setembro, publicada no mesmo jornal, a sociedade carioca estava “expirando de tédio” e ansiava por um banquete que saciasse a fome da população por esse tipo de crime. Criticando o prazer com que os leitores degustam o corpo mutilado da vítima, conclui contrafeito que “não importa a camada dos personagens para achar interesse num drama lúbrico” (GLEDSON, 1996, p. 128).

O escritor carioca talvez não imaginasse que tais dramas lúbricos perdurariam por tanto tempo atraindo o interesse do leitor. Mais de um século depois, relatos dessas amputações, clivagens, decapitações como um anestésico da experiência do choque nas cidades modernas são populares até hoje.

Vejamos o caso do esquartejamento de Marcos Matsunaga, um empresário de 42 anos, ocorrido em 2012 e que teve um grande destaque na mídia nacional. Conforme a edição impressa da revista Veja do dia 23 de junho daquele ano, “o assassinato e o esquartejamento de Marcos Matsunaga pela mulher, Elize, já tinham ingredientes de um filme de terror, mas a divulgação na semana passada do laudo pericial sobre a causa da morte do executivo adicionou contornos ainda mais macabros ao episódio”. Segundo ainda a revista, o laudo apontou duas hipóteses para a morte do empresário. A primeira é que Elize teria mentido quando disse que matou o marido com um tiro e que teria desmembrado o cadáver apenas na manhã seguinte. A segunda conclusão é que ela teria degolado o marido ainda vivo. E aí a revista, nos mesmos padrões da notícia sobre o assassinato de Maria de Macedo, descreve em minúcias as questões legistas:

Um dos profissionais que participaram da necrópsia confirmou a VEJA que também os dois braços do executivo foram cortados enquanto ele ainda vivia. A informação consta do laudo pericial. Diz o documento: “As secções na região cervical e raízes dos membros superiores apresentam características de reação vital. As secções em região abdominal e joelhos direito e esquerdo não apresentam sinais vitais”. Isso significa que, ao analisarem o pescoço e os braços da vítima, os legistas perceberam que os tecidos dessas regiões apresentavam circulação sanguínea ativa no momento dos cortes, o que só pode ocorrer enquanto o coração está batendo. A situação não se repetiu na análise de outras partes do corpo.

No mês passado outro caso a ganhar notoriedade na mídia justamente pela mutilação do corpo foi o assassinato de Kely Cristina de Oliveira, de 44 anos. A professora morreu em decorrência de um golpe de arte marcial dado pelo sobrinho Guilherme Lozano Oliveira, de 22 anos. Mas o que teria tornado a notícia mais “sensacional” foi o fato de Guilherme ter usado um facão para cortar o corpo de Kely, conforme noticiou o site G1 do dia 07 de agosto, sob a manchete “Ex-skinhead matou tia com golpe de jiu-jítsu e usou facão para cortar corpo”:

Guilherme usou um facão para esquartejar o corpo da tia em ao menos oito partes. Ele colocou a cabeça, as pernas, as coxas e o tronco em uma mala e em sacos plásticos para guardá-los no freezer de uma geladeira do apartamento onde moravam, na Zona Norte de São Paulo. Os braços teriam sido jogados numa área de mata em Itapevi, Grande São Paulo. O corpo da vítima ainda não foi sepultado.

E para ficarmos no contexto local, no último dia 21 de agosto o jornal Notícias do Dia repercutiu o caso de um homem que esquartejou uma mulher em Porto Alegre e trouxe alguns pedaços do corpo para Santa Catarina. Vandré Centeno do Carmo teria matado Cintia Beatriz Lacerda Glufke por encomenda de um parente da vítima que acreditava que ela traía o marido.

Se as regras do jornalismo contemporâneo pregam a isenção e a objetividade no tratamento da notícia, ao contrário do incipiente jornalismo de 1892 que abusava do tom literário e melodramático, ainda assim o impacto, se não se dá pela forma, dá-se pelo conteúdo. E o Notícias do Dia, para obedecer aos critérios de isenção apregoados pela imprensa considerada mais séria, deixa na voz do acusado os detalhes sórdidos do esquartejamento:

O acusado contou que matou a mulher a marteladas e depois separou as partes do corpo. A cabeça e o tronco foram enterrados no quintal da casa, enquanto que pernas e braços foram trazidos dia 8 de agosto à Serra catarinense e abandonados em duas malas, jogadas em um terreno a 400 metros da rodovia SC-114, no acesso a São Joaquim. Um catador de materiais recicláveis foi quem encontrou os pedaços do corpo e acionou a polícia.

Como se vê, a notícia sensacionalista de ontem ou de hoje, seja ela escrita de forma romanesca ou sob os preceitos da linguagem jornalística moderna, anestesia os sentidos e provoca prazer. O prazer do esquecimento como uma necessidade de sobrevivência. Caberia se perguntar se os jornais de ontem e de hoje não estariam ultrapassando alguns princípios éticos ao explorar e estender ao máximo esta dualidade da psique humana, convertendo a notícia sensacionalista ao mesmo tempo no remédio e no que perpetua a doença. No que provoca a clivagem e no que a anestesia.

Referências bibliográficas

BUCK-MORSS, Susan. “Estética e anestética: o ‘ensaio sobre a obra de arte’ de Walter

Benjamin reconsiderado”. Travessia: revista de literatura. Florianópolis (SC): Editora da Universidade Federal de Santa Catarina (Edufsc), ago / dez 1996. n° 33. p. 11-41.

GLEDSON, John (edição, introdução e notas). Bons Dias! crônicas (1888-1889) Machado de Assis. São Paulo: Hucitec, 1996.

SANTOS, Jeana Laura da Cunha. “O sensacionalismo no jornal: casos pioneiros”. ALCEU: Revista de Comunicação, Cultura e Política. v.12, n. 23, jul./dez 2011. Rio de Janeiro: PUC, Dep. de Comunicação Social. p. 154-163.