Carlos Marciano
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Um sonho de vida próspera longe de conflitos; uma esperança de realizá-lo; uns muito poucos trocados, suados, poupados durante tempos, levados pela onda da ingenuidade; uma vida que paga o preço pela inocência ludibriada por um mal caráter.

O contexto não é de longe novo. Apertados em pequenos barcos à deriva, as vezes até amontoados em botes, todos os dias famílias tentam entrar clandestinamente nas fronteiras europeias e com um pouco de sorte chegam ou são resgatadas antes de naufragarem. A triste frequência faz com que a relevância torne-se um critério de noticiabilidade transformado em clichê, resumido a tapes rápidos nos telejornais simultâneamente com algumas palavras informativas, deixando o debate público, quem sabe, para outro momento. Em casos assim, a máxima de que “uma imagem vale mais que mil palavras” acaba por se tornar o referencial para novas reflexões, mas, a preço de que? Até que ponto um debate precisa de um suposto sensacionalismo velado para apresentar-se de fato relevante?

Nas últimas semanas a foto do pequeno Aylan Kurdi, encontrado sem vida à beira mar numa praia na região de Bodrum, trouxe à tona a situação dos milhares de refugiados que tentam chegar à Europa. Assim como o menino, mais 11 sírios não chegaram a seu destino, dentre eles sua mãe Rihan e um irmão de cinco anos. Juntos os dois barcos transportavam 23 pessoas e naufragaram antes de chegarem à ilha grega de Kos.

De camiseta vermelha, bermuda e tênis, uma das imagens mostra o corpo do garoto sozinho na praia, a outra, ele sendo carregado por um policial. Divulgadas em destaque por diversos veículos de notícias e nas redes sociais, principalmente a primeira imagem foi considerada como agressiva, colocando em xeque a necessidade de sua exposição. Ansiando a ideia de comoção, frases de efeito acompanhavam a foto, como se pode observar nos casos brasileiros.

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Na edição do dia 6 de setembro, a Revista Veja apresentou a imagem acrescentando a frase de Santo Agostinho (em Confissões) e do poeta polonês ganhador do prêmio Nobel de literatura, Czeslaw Milosz.

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O jornal carioca Extra, optou por substituir o corpo do menino pelo desenho de traços demarcando o local onde o corpo foi encontrado. Divulgada no dia 3 de setembro, um dia após o ocorrido, a capa questiona o descaso com o problema que leva as pessoas a se refugiarem.

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Na mesma semana a revista Istoé apresentou uma ilustração sobre o fato, acompanhada de uma hashtag que relacionava o assunto nas redes sociais. Outras ilustrações do tipo foram disseminadas pela internet como forma de protesto e alertando os governos a realizarem ações que resolvam ou ao menos amenizem consideravelmente essa situação lamentável.

Será que houve falta de discernimento nessas divulgações ou o fato se agravou por retratar uma criança? Pessoas baleadas, outras mutiladas, sangue espalhado pelo asfalto enquanto as vítimas são retiradas já sem vida das ferragens. Não seriam exemplos chocantes em mesmo impacto e magnitude? Por que então costumam ser mais bem aceitas pelo público, ou será que por se tratar de uma situação mais corriqueira do que a de um bebê de três anos encontrado morto na praia, já estamos calejados e aprendemos a reprimir esse sentimento de repulsa?

De fato não se pode descartar que a imagem é chocante, principalmente aos desavisados que ao entrarem em seus sites costumeiros para acompanhar as últimas notícias esbarram em um corpo frágil ao chão. Mas não podemos esquecer também que é função do jornalismo apresentar a realidade e, sempre que possível, levantar o debate público através daquilo que transmite, tanto em textos quanto em arquivos audiovisuais.

Nem sempre palavras são suficientes para descrever a força do fato, ainda mais se ele acontecer longe de nossa realidade, e as imagens atuam assim como amplificadoras desta visão distante. Se forem fortes podem sim gerar desconforto, mas também reações para solucionar o problema. Um exemplo é a imagem da pequena Phan Thi Kim Phuc, correndo nua quando fugia do bombardeio no vilarejo de Trang Bang, em 1972.

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A foto dessa vietnamita de nove anos pode não ter sido o único fator, mas sua repercussão teve papel importante para despertar o olhar das pessoas e autoridades sobre a importância do movimento antiguerra.

Vê-se então mais uma máxima se apresentando, pois esse choque causado pelas imagens e a relevância do contexto no qual elas se inserem, reforçam a ideia de que “a verdade dói, mas precisa ser dita”. Porém, se essas fotografias forem vistas para além do conteúdo, despertando consequências solucionarias para a questão contextual por trás do clique, vale a pena nosso esforço de suprimir essa aversão pelo impactante.

Em se tratando de assuntos sensíveis, apresentar mais do mesmo e evitar essas imagens  chocantes no intuito de preservar a zona de conforto, tende a não maximizar reflexões importantes.  Ao zarpar por esse cais, a prática jornalística pode colocar à deriva o barco do debate público, na esperança que o resgate chegue antes do naufrágio.

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