Leonel Camasão
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Será uma igreja? Uma emissora de televisão? Um partido político?

No caso da Rede Record, são as três coisas. Já não é de hoje que a relação entre o grupo de comunicação, a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD) e o Partido Republicano Brasileiro (PRB) é objeto de discussão e análise entre observadores de mídia. O fato novo é a extensão dessa estratégia para as afiliadas da Record, como é o caso do Grupo RIC em Santa Catarina.

Quem acompanha a emissora e seus veículos de comunicação, já deve ter percebido a presença massiva de políticos como apresentadores de seus conteúdos jornalísticos (mesmo que, em sua grande maioria, estes apresentadores não sejam jornalistas). Os deputados federais João Rodrigues (PSD), de Chapecó, Cesar Souza (PSD), de Florianópolis, os joinvilenses Nilson Gonçalves (PSDB), João Carlos Gonçalves (PMDB) e o atual deputado estadual Patrício Destro (PSB) fazem parte da lista de políticos que exerceram ou exercem a dupla função de parlamentares e apresentadores no grupo RIC em SC. Apesar de representarem quatro partidos diferentes, todos tem em comum a ligação com a emissora de televisão e a participação na base de apoio ao governo do estado.

Em setembro, parte dos apresentadores do Grupo RIC foi “realocada” ao partido oficial da cabeça de rede, com direito a cobertura por parte do jornal Notícias do Dia. No dia 21, o ND publicou matéria de meia página com a manchete “PRB realiza ato de filiações: Partido organiza as bases para aumentar a representatividade em 2016”. O tom da matéria é absolutamente institucional e convida ao ato de adesões ao partido. No dia seguinte, matéria de página inteira repercute a atividade, e destaca a filiação das “pratas da casa” Roberto Salum e Hélio Costa, com a presença do presidente nacional do PRB, bispo Marcos Pereira (coincidentemente, ex-vice-presidente da Record).

ND dá destaque a filiações do PRB
Notícias do Dia destaca filiações do PRB
Notícias do Dia destaca candidaturas do PRB
Cobertura das pré-candidaturas pelo ND

As implicações éticas deste “amálgama” entre partido, igreja e televisão são auto evidentes e já apontadas em outros estudos e artigos. Um levantamento realizado pelo portal Terra revela que, em 2012, mais da metade dos integrantes da Executiva Nacional do PRB (55%) têm ou tiveram relações com a Record, com a IURD ou ambas. O número cresce ao comparar os presidentes dos diretórios regionais: 85% mantinham relações entre igreja, partido e emissora.

Destaque-se que figuras como Salum e Costa não apenas são funcionárias da RIC-Record, mas se apresentam ao público em produtos “jornalísticos”, mesmo que, via de regra, apelativos. De caráter assistêncialista ou policialesco, estes programas liderados por “radialistas políticos” transgridem as barreiras entre partido, governo, igreja, imprensa e até família. Ou como poderemos esperar uma cobertura minimamente equilibrada da RIC-Record sobre a cidade de Florianópolis se o pai do prefeito da capital, que é deputado, tem um programa na emissora?

Radialistas políticos x projeto de poder

Alguns trabalhos do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFPR já trataram da questão dos “radialistas políticos”, pela presença considerável deste segmento na política local. É do Paraná que surgiram figuras como Luiz Carlos Alborghetti, radialista policialesco que foi deputado estadual por 16 anos, e ainda, Carlos Massa, o Ratinho. Com o mesmo estilo de Alborghetti, Ratinho ascendeu de radialista e vereador em Curitiba para proprietário das emissoras afiliadas ao SBT no Paraná (e de quebra, quase elegeu o filho para a Prefeitura de Curitiba).

Larissa Martini Angeli pesquisou os candidatos radialistas à Assembleia Legislativa do PR entre 1986 e 2006, em sua dissertação de Mestrado. Ela traça um perfil do radialista político: pessoas simples, que ingressaram na profissão ainda jovens, conquistaram a confiança dos seus ouvintes com programas de prestação de serviço, policialescos e religiosos, acumulando capital social suficiente para obter sucesso nas urnas. Diz a autora:

“Na ausência de recursos para a solução de suas demandas básicas, como por exemplo, o difícil acesso à esfera pública, os ouvintes vêem na figura do locutor, que faz diariamente seu programa de prestação de serviço procurando ajudar as comunidades, um “herói” disposto a “dar voz e lutar” por essas pessoas que são silenciadas pela falta de conhecimento político. Ao criar um grupo que reivindica as mesmas soluções o radialista gera uma identidade coletiva a esses indivíduos. O resultado é a manifestação popular para que ele os represente no governo, ou seja, faça a mediação com a esfera pública” (ANGELI, 2011, pg. 119).

Se tal análise é válida para os radialistas, quem dirá aos apresentadores de televisão do Grupo RIC, muitos deles que imigraram do rádio para a televisão. Apesar de em geral não realizarem uma autopromoção diretamente (comentando seus próprios projetos de lei, por exemplo), os radialistas políticos influenciam na formação de valores sociais, ao traficar opiniões retrógradas no meio de conteúdos jornalísticos, como redução da idade penal, pena de morte, prisão perpétua, justificação da violência policial ou da execução sumária de suspeitos, entre outros.

No Grupo RBS, principal conglomerado de mídia do Sul do país, a migração de jornalistas e apresentadores para o mundo parlamentar também ocorre com frequência, inclusive, em voos mais largos, pelo menos no Rio Grande do Sul. Dois ex-funcionários da RBS são senadores por aquele Estado (Ana Amélia Lemos, do PP e Lavosier Martins, do PDT), além do deputado federal Afonso Motta (PDT). A diferença é que, ao vencerem nas urnas, todos eles cortaram vínculos formais com a RBS, garantindo, pelo menos aparentemente, a separação entre a atuação política e o conteúdo jornalístico do grupo.

Se no trabalho de Angeli, os radialistas políticos do Paraná se apresentam como indivíduos que se utilizam do prestígio social da profissão para obter sucesso nas urnas, a movimentação PRB-Record-IURD se mostra como projeto de poder organizado, violando de maneira flagrante princípios basilares do jornalismo (e do bom senso). De Celso Russomano (apresentador da Record e líder do PRB na Câmara) ao ex-ministro e senador Marcelo Crivella (sobrinho de Edir Macedo), essa “santíssima trindade” cresce à passos largos, seja em representação parlamentar, seja em ocupação de espaços de poder no Estado Brasileiro.

Evento de grande repercussão mundial, as Olimpíadas do Rio de Janeiro de 2016 serão transmitidas pela Globo, Band e Record. Esta última, porém, sai na frente. O Ministério dos Esportes é comandado pelo PRB, na figura de George Hilton. Segundo o Estadão, o número dois da pasta é Carlos Geraldo (PRB-PE), ex-presidente da Record News e da Record Rio. “Sem qualquer experiência no esporte, ele será o responsável por todo o legado esportivo dos Jogos do Rio-2016, incluindo a preparação dos atletas para a Olimpíada”, afirma a matéria.

Com tantos ex-dirigentes da Record em espaços de poder no comando das Olimpíadas de 2016, como esperar que as outras emissoras terão o mesmo acesso ao evento? Como esperar uma cobertura minimamente equilibrada? Como não imaginar que os interesses econômicos da Record se viabilizam ao apoiar o governo federal e a ocupar frações do Estado que são de interesse da emissora?

A conversão de Andressa Urach

A situação de conflito de interesses se repete em inúmeros casos, eliminando as barreiras entre o que é informação jornalística, propaganda partidária ou pregação religiosa. Mas não é só na política que a Record e afiliadas se beneficiam das quase inexistentes barreiras entre partido, igreja e emissora. O caso de Andressa Urach, alvo de recente polêmica em Florianópolis, é emblemático.

A ex-garota de programa e sub-celebridade ficou conhecida em todo território nacional após a participação em um reality show em TV aberta (não precisamos dizer de qual emissora, certo?). Em dezembro do ano passado, Urach passou 25 dias na UTI de um hospital de Porto Alegre, por conta de um quadro de infecção generalizada provocado pela aplicação de hidrogel nas pernas. Ela chegou a ficar em coma.

Recuperada do drama pessoal, Urach converteu-se à Igreja Universal do Reino de Deus, tornou-se apresentadora em um dominical da Record e publicou, em agosto, um livro contando sua história de superação e conversão. Com uma das maiores tiragens do país, o livro de 1 milhão de cópias é comercializado pela mesma editora que publicou a biografia de Edir Macedo, dono da Record, e “co-escrito” pelo mesmo autor, o jornalista Douglas Tavolaro, diretor de jornalismo da empresa.

A estratégia de marketing para vender o livro (e sua mensagem de superação pela fé) foi fartamente utilizada, à prejuízo do bom jornalismo, nos veículos da Record e afiliadas. Não foi diferente em Santa Catarina. O lançamento de “Morri para viver” em Florianópolis teve grande cobertura do Notícias do Dia e da RIC-Record.

No Jornal do Meio Dia, Urach foi entrevistada por 10 minutos. Mesmo sendo material de evidente caráter institucional, o apresentador Hélio Costa em sua chucra autenticidade levou à moça às lágrimas e a humilhou ao vivo, sendo repreendido pela emissora e publicando, em todos os canais possíveis, um pedido de desculpas.

Independência editorial

O caso mostra não apenas a fusão de estratégias de pregação, comunicação, marketing e vendas de produtos da Record, em embalagem jornalística, mas a interferência direta até mesmo no comportamento do apresentador.

Se a chegada da Internet ameaça a  viabilidade do jornalismo enquanto negócio tradicional, ele se torna cada vez mais necessário socialmente. O início deste século XXI tem permitido não só a academia, mas também à sociedade, perceber a influência, as ligações políticas dos meios de comunicação e sua agenda cada vez mais distante dos ideais de interesse público e bem comum.

Se a pauta jornalística é sempre refém de quem financia o veículo (sendo a Igreja a maior mantenedora da Record), é necessário reabrir a discussão não apenas de um modelo de negócio que garanta futuro para o jornalismo, mas também, se perguntar se será possível fazer jornalismo enquanto negócio. Na mídia mainstream, este é um ideal cada vez mais distante.

Referência Bibliográfica

ANGELI, Larissa Martini. Radialistas políticos: uma análise do desempenho eleitoral dos comunicadores de rádio na Assembleia Legislativa do Paraná (1986-2006). Dissertação de Mestrado da UFPR. Curitiba, 2011.

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