Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora da UFF e pesquisadora do objETHOS

Uma menina de 12 anos, participante de um reality show culinário, é alvo de comentários libidinosos que rapidamente se espalham pela internet; o tema da redação do Enem, sobre “a persistência da violência contra a mulher na sociedade brasileira”, recebe muitos elogios mas também muitas críticas sobre o seu suposto caráter “esquerdista” e “ideológico” – como se fosse possível ignorar uma realidade evidente; no Rio e em São Paulo, milhares de pessoas, a maioria mulheres, vão às ruas para protestar contra o presidente da Câmara, deputado Eduardo Cunha, e seu Projeto de Lei 5069/2013, que dificulta o aborto em caso de estupro.

Foi nesse contexto que a avalanche de denúncias detonada pela hashtag #primeiroassedio, lançada pelo coletivo feminista Think Olga, se tornou especialmente significativa. Não por tratar de algo pouco conhecido: pelo contrário, o assédio sexual praticado contra mulheres, desde a infância, é tão corriqueiro que se tornou banal. O que essa iniciativa conseguiu foi desnaturalizar essa violência, estimulando as pessoas a romper o silêncio em relação a esse tema.

Não foi a primeira vez: em 2013, o Think Olga havia lançado a campanha “Chega de fiu-fiu”, com o mesmo objetivo de combater as inúmeras formas de constrangimento que as mulheres enfrentam cotidianamente.

A atual campanha, entretanto, não teve na mídia tradicional uma repercussão compatível com seu alcance, o que não deixa de ser curioso, tendo em vista que os jornais monitoram regularmente as mídias sociais e tendem a noticiar o que ganha relevância nesse ambiente. Ainda mais que se trata de uma questão com inúmeros desdobramentos possíveis, como algumas das raras reportagens indicam.

A condição social e a cultura

Assim, em 29/10, no Jornal do Commercio de Recife, a repórter Fabiana Moraes alertou para as diferenças de condição social das vítimas da violência. Como se sabe, não se pode tomar a parte pelo todo: o que se passa nas mídias sociais é muito significativo, mas entre os excluídos – inclusive do acesso à tecnologia – a realidade é bem mais opressiva.

“Enquanto os ataques a Valentina [a menina participante do reality show culinário] ganharam necessária e importante voz e posição da sociedade, a exploração sexual de meninas como as da comunidade quilombola Kalunga (em Goiás), escravizadas por políticos e donos de grandes nacos de terra na região não teve repercussão nacional (os casos foram ao ar em abril através de uma reportagem da TV Record). São meninas entre 6 e 14 anos, cujos relatos foram ouvidos pela Polícia Civil local, que, por sua vez, comunicou as histórias terríveis para a Secretaria de Políticas da Igualdade Racial da Presidência da República”.

Em 31/10, a Zero Hora articulou, em duas reportagens e um artigo, os vários acontecimentos da semana à campanha, incluindo um vídeo em que jornalistas da empresa relatavam suas próprias experiências com o primeiro assédio e estimulando o público a enviar seus depoimentos.

Uma das reportagens trata das consequências do PL proposto por Eduardo Cunha e aponta as dificuldades tanto de se encarar o trauma do aborto pós-estupro quanto de denunciar o abusador, que “pode ser o chefe do tráfico na comunidade” onde a vítima reside, ou mesmo “um agente da segurança pública”. A reportagem de abertura, entretanto, poderia ir mais fundo: diante da indagação de uma antropóloga sobre “que sociedade é essa que acha normal sexualizar uma menina de 12 anos?”, seria possível responder com o argumento do colunista Tony Goes, no site F5, da Folha de S.Paulo:

“Nossa cultura incentiva a sexualização precoce: já são inúmeras as funkeiras mirins cantando letras totalmente impróprias para crianças. Ensinamos desde cedo que elas devem ser provocantes e sensuais, só para depois dizermos que a culpa é delas se sofrerem algum assédio”.

Bastaria recorrer aos arquivos da própria ZH, que em abril publicou reportagem sobre esses pequenos funkeiros, mais ou menos no mesmo sentido do que a Folha faria em maio. Mas, antes de mencioná-los, valeria a pena recordar do Xou da Xuxa, que entretinha – e “educava” – as criancinhas – ou melhor, os “baixinhos” – entre meados dos anos 1980 e o início da década seguinte.

A hiperexposição pela tecnologia

Outro aspecto relevante a ser considerado nessa “cultura do assédio” – ou do estupro, como se convencionou chamar – é o contexto que a tecnologia digital favorece: de posse de seus smartphones, adolescentes de todas as classes sociais costumam compartilhar imagens de seus próprios corpos nus, sem se darem conta das consequências desse ato. Deveriam servir de alerta os frequentes usos perversos de fotos e vídeos íntimos, consentidos ou não: um caso recente ocorreu numa unidade do tradicional Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro, envolvendo três alunos que forçaram uma colega de 12 anos a praticar sexo com eles. Mas também ocorre com adultos, tanto em casos fortuitos como o que expôs o ator Stênio Garcia e sua mulher quanto na prática do “revenge porn”, quando, ao fim de um relacionamento, uma das partes resolve se vingar da outra e divulga as imagens comprometedoras.

Foi, aliás, por isso que, em setembro, a revista TPM  acabou provocando uma polêmica, com a campanha “manda nudes”, para uma reportagem sobre “a relação entre sexo e tecnologia”. A reação negativa nas redes virtuais provocou um enviesado pedido de desculpas, que não convenceu.

Explorando pautas

Finalmente, seria importante perceber que discursos prevalecem numa campanha como a do “primeiro assédio”. No grupo MidiaRS, Raquel Recuero assinalou que a observação de quase 77 mil tweets sobre esse tema entre os dias 22 e 23 de outubro compunham um quadro de “grande densidade e clusterização”, típico de “redes ativistas, ou seja, que engajam as pessoas que ficam repassando os tweets relativos ao assunto inúmeras vezes”.

Verificar como esse ativismo se expressa no Facebook é significativo: foram várias as intervenções de certos grupos que demarcam de maneira rígida o seu espaço e rejeitam a manifestação de homens num assunto visto como exclusivamente feminino: da mesma forma que condenaram o humorista Gregório Duvivier quando ele apareceu para apoiar o debate sobre o aborto – o que expôs divergências entre diferentes tendências feministas –, também consideram que homens não podem se pronunciar sobre assédio, mesmo quando se mostram arrependidos ou quando condenam esse comportamento.

Foi talvez esse o sentido da indagação de Fred Coelho, no artigo que publicou no Globo de 28/10: “Pode o homem falar criticamente sobre a violência contra a mulher?”. Se, como ele conclui, “o que está em disputa, neste momento, não é o presente, conservador e corta-onda, mas sim o futuro, libertador e diverso”, talvez fosse o caso de refletir sobre as consequências de posturas excessivamente rígidas, que, em nome de um justo combate, acabam por criar novas barreiras para o convívio social.

Quem nega ao outro o direito à palavra nega-lhe também, como é óbvio, o direito de defesa, o que é fatal nesses tempos em que a tecnologia digital facilita a exposição pública de qualquer um. Quem prioriza a punição tende a criminalizar todas as condutas distintas daquelas que considera corretas e a vestir uma armadura para prevenir-se de qualquer ação do outro – no caso, o homem –, visto como uma potencial ameaça, e a estabelecer regras estritas para a conduta de seus filhos, no intuito de protegê-los de um mal sempre à espreita. Quem age assim tende a prejulgar – e quem assistiu ao filme dinamarquês “A Caça”, dirigido por Thomas Vinterberg, ou quem se lembra do caso Escola Base, sabe o que isso significa.

Boas reportagens poderiam explorar esses vários desdobramentos do tema original. São muitas pautas que se entrelaçam e podem lançar luz sobre essa questão de extrema complexidade que envolve o comportamento humano numa determinada cultura.

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