Lívia de Souza Vieira
Dourotanda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

O trabalho do jornalista digital não termina com a publicação da matéria. Apesar de aparentemente simples, essa foi uma grande mudança introduzida pelos meios digitais. Antes, ao jornalista cabia apurar, redigir e editar. A etapa da circulação era mais uma questão logística, no caso do impresso, ou quase automática, no caso do rádio e da TV.

Fazer o conteúdo circular nos sites e redes sociais do veículo representa mais uma atribuição, mas, ainda assim, não tão complicada. Afinal, basta identificar a linguagem de cada meio, selecionar o lead da notícia, fotos ou vídeos e publicar. Mas o novo cenário pede mais que isso.

Manuel Castells lembra que passamos da era da comunicação de massas para a da autocomunicação de massas (embora as duas convivam simultaneamente). Ao invés de um para muitos, a informação agora circula de muitos para muitos. Raquel Recuero também chama atenção para o caráter conversacional das redes sociais. Segundo ela, tratase de uma conversação em rede, e não mais de uma simples emissão de conteúdo. As pessoas continuam querendo se informar, mas também desejam debater, opinar. Na verdade, sempre o fizeram, mas agora o comentário pode ficar registrado e ter seu alcance ampliado pelo próprio perfil do veículo jornalístico.

E aí entra o grande problema. Há muitas críticas com relação aos comentários nas redes sociais, desde os que incitam discursos de ódio, preconceito, até os que cometem crimes, como o recente caso de racismo contra a atriz Tais Araujo. Há o senso comum de que os comentários no Facebook, por exemplo, são puro ‘chorume’, para utilizar uma palavra típica das redes sociais. E nesse senso comum estão os próprios jornalistas.

Mas a má qualidade dos comentários é motivo para lavarmos as mãos e darmos por encerrada a conversa? Continuaremos apenas emitindo conteúdo, seguindo a lógica da comunicação de massas? Qual é o papel do jornalismo frente a essa situação?

A meu ver, os veículos jornalísticos precisam tomar para si uma função que sempre lhes foi cara: a de mediadores do debate público. Para isso, é necessária uma equipe de profissionais disposta a ler os comentários e a tomar atitudes, a conversar com a audiência. Em que pese a realidade de redações cada vez mais enxutas, estamos refletindo sobre o cenário ideal e é com base nele que enumeramos as recomendações a seguir, visando facilitar essa mediação:

Quando responder? É humanamente impossível e desnecessário responder a todos os comentários. Mas o leitor que faz uma pergunta espera uma resposta. Apesar de óbvio, muitos veículos simplesmente ignoram indagações de seu público. Se estamos num ambiente conversacional, é preciso interagir. No caso do Facebook, há uma hierarquização que deixa em destaque os comentários com mais curtidas. Isso facilita o trabalho do mediador, pois esses leitores estão despertando a atenção de outros e, por isso, seus comentários tendem a ser mais relevantes e dignos de resposta. O Brasil Post, por exemplo, costuma responder de forma bem humorada seus leitores, aproveitando a informalidade do meio. Veja:

OBJETHOS
Perfil do Brasil Post no Facebook responde internauta

Exclusão de comentários: Deve ser o último recurso, somente utilizado em caso de comentários passíveis de crime. Tentar apagar o rastro na internet é, além de contraproducente, vão, e a tecla do print screen está aí para provar isso. É também importante que o veículo jornalístico crie regras claras para exclusão e deixeas visíveis em sua página na rede social.

Como lidar com os discursos de ódio: Excetuando os comentários passíveis de crime, ainda sobra muita coisa. Por isso, o veículo jornalístico precisa se manifestar quando as opiniões extrapolam o limite do bom senso e incitam o ódio e o preconceito. Trata-se de uma medida que pode ter efeitos muito positivos, pois os leitores percebem que existe alguém que lê os comentários, que está acompanhando as discussões e que interfere quando é preciso. Dessa forma, o nível tende a subir, pois a mediação acaba exercendo um papel pedagógico com a audiência. Se um leitor percebe que os comentários são ‘terra de ninguém’, vai se sentir encorajado a destilar seu ódio, iniciando uma bola de neve que encoraja outros a fazer o mesmo.

São muitos os desafios que impõem os novos tempos de relacionamento e interação. Mas os veículos jornalísticos precisam entender que as redes sociais representam muito mais do que origem de tráfego para seus sites. Se bem mediados, os espaços de comentários podem gerar novas pautas, aumentar a fidelidade dos leitores com o próprio veículo e contribuir para o debate público.

 

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