Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Tentou contra a existência
num humilde barracão,
Joana de tal, por um tal João.
Depois de medicada, retirou-se pr’o seu lar.
Aí a notícia carece de exatidão.
Um lar não mais existe
e ninguém volta ao que acabou.
Joana é mais uma mulata triste que errou.
Errou de dose,
errou de amor.
Joana errou de João,
Ninguém notou.
Ninguém morou na dor que era seu mal,
A dor da gente não sai no jornal.
(Notícia de Jornal, de Haroldo Barbosa)

Charge de Vitor Teixeira.
Charge de Vitor Teixeira.

Estudantes lutando por suas escolas. Assim têm sido as últimas semanas em São Paulo, desde que o governo Alckmin anunciou a intenção de fechar 92 escolas estaduais, remanejando cerca de 300 mil alunos. Já são 81 ocupadas por professores, alunos, pais e representantes de movimentos sociais. Portanto, estamos falando de um acontecimento cheio de tensão, com alto critério de noticiabilidade e grande potencial de engajamento nas redes sociais.

É nesse contexto que, na tarde de ontem (19), o jornal Folha de S. Paulo informou que “Gestão Alckmin suspende fechamento e reorganização de escolas em 2016”.

materia_errada_Folha
Primeira versão da matéria publicada pela Folha.
print_facebook_materia_errada_Folha
Post no Facebook do jornal com o primeiro título.

Como era de se esperar, a notícia gerou grande repercussão nas redes sociais, muitas em tom de comemoração pela vitória dos estudantes.

post_Pablo_Vilaca
Post do crítico de Cinema Pablo Vilaça.

No perfil no Twitter da Folha de S. Paulo, a notícia teve mais de 200 retweets e 140 curtidas.

twitter_Folha
Tweet da Folha.

 Imediatamente, outros veículos e blogs (como o site Pragmatismo Político e o portal Bem Paraná) começaram a replicar a notícia, citando como fonte a Folha de S. Paulo.

pragmatismo_politico
Matéria do site Pragmatismo Político.
portal_bem_parana
Matéria do portal Bem Paraná.

Erramos
Horas depois, o jornal atualizou a notícia com uma errata. Foram alterados título e lead, além da inclusão, no pé da matéria, de um ‘erramos’. O destaque passou a ser “Gestão Alckmin oferece suspender fechamento de escolas em troca de desocupações”, e a errata informava que a suspensão seria temporária. O lead da notícia, atualizado, é ambíguo, pois afirma que o governo de SP “pode suspender temporariamente” a decisão de fechar as escolas. Ou seja, de uma manchete que afirmava a suspensão, passamos a ter uma possibilidade de suspensão temporária.

erramos_folha

Outros veículos jornalísticos, como o jornal Zero Hora, replicaram a informação, com o mesmo título dado até então pela Folha de S. Paulo:

zero_hora1
Matéria do jornal Zero Hora.

Para além do erro em si, chama atenção a forma como a Folha se refere às ocupações. O jornal as trata como ‘invasões’, inclusive destacando essa palavra em um dos entretítulos da matéria. Parece ser nítida a intenção do veículo de se referir aos alunos como invasores, mesmo sendo as escolas onde eles próprios estudam.

A essa altura, a informação de que a notícia estava errada começou a circular nas redes sociais. No Twitter da Folha, no entanto, não foi publicada nenhuma retificação (até as 22h30 do dia 19). No Facebook, o jornal editou o post destacando o ‘Erramos’. Houve mais de 4.000 compartilhamentos, muitos deles enfatizando a ‘vitória’ dos estudantes, com base na informação errada. Para esses, a imagem compartilhada ainda contém o título e lead incorretos, fazendo com que a informação errada continue circulando.

erramos_facebook_Folha
Post no Facebook com a errata.

Chama a atenção também o número de comentários negativos nesse post da Folha. Os dois destacados abaixo criticam diretamente o jornal e têm, juntos, mais de 800 curtidas.

comentarios_Facebook_Folha
Comentários de leitores.

Erro ou manobra?
Ativistas e portais independentes começaram a questionar se a notícia foi mesmo um erro ou uma manobra da Folha de S. Paulo em favor do governo de Alckmin, para desmobilizar as ocupações.

esquerda_diario
Matéria do site Esquerda Diário.
"Isca jornalística", de Vitor Teixeira.
“Isca jornalística”, de Vitor Teixeira.

Até memes foram feitos, chamando atenção para o erro da Folha:

meme_erro_Folha

Mais alterações
Horas depois, a Folha mudou novamente o título da notícia para “Gestão Alckmin faz proposta para alunos desocuparem escolas”. Agora, o jornal enfatiza não mais a possível suspensão do fechamento das escolas, mas uma ‘ação’ do governo para que os alunos as desocupem. No entanto, o lead permanece o mesmo, o que torna a matéria confusa, como no trecho abaixo:

trecho_materia_Folha

A correção de erros no jornalismo online
Em minha dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Jornalismo da UFSC, propus parâmetros éticos para a correção de erros no jornalismo online. Durante toda a pesquisa, identifiquei o que acabei de detalhar neste texto: veículos jornalísticos agem muito mal quando cometem erros na internet e não se preocupam com a circulação da informação incorreta mesmo após a retificação. Alguns decidem até excluir a informação, como foi o caso da Revista Exame:

exclusao_revista_exame
Matéria excluída no site da Revista Exame.

No entanto, se digitarmos no Google o primeiro título dado pela Folha de S. Paulo, encontramos ainda diversos resultados com a informação incorreta. Ou seja, apagar o rastro de um erro na internet, definitivamente, não funciona.

resultado_busca_google
Resultado de busca no Google.

Para além da retificação, a Folha de S. Paulo precisa fazer circular a informação correta. Quem segue o jornal no Twitter, por exemplo, não recebeu a errata. Quem compartilhou no Facebook e não voltou à página do jornal, idem.

Os erros jornalísticos podem afetar reputações, levar à incompreensão dos fatos, disseminar falsos julgamentos e preconceitos, e até mesmo provocar incertezas sociais e crises institucionais. Apesar desse perigo, como vimos nesse episódio, as organizações jornalísticas – se comparadas a de outros ramos – pouco fazem para desenvolver mecanismos mais efetivos de identificação de erros, retificação, controle e redução de danos. O cenário se torna mais agudo na internet, com os veículos que não só oferecem uma grande quantidade de conteúdos, como o fazem de forma apressada, com equipes enxutas e em condições propícias ao erro.

Ryan Holiday chega a dizer que “correções online são uma piada”. Segundo ele,

Erro factual é apenas um tipo de erro – talvez o tipo menos importante. Uma história é feita de fatos e, é a convergência desses fatos que cria uma notícia. Correções removem os fatos da história – mas a história e suas consequências continuam. Mesmo jornalistas avessos a reconhecer seus erros, mas que o fizeram, somente nas circunstâncias mais raras seguem completamente a lógica: um fato problemático que se mostra incorreto exige que se reexamine as premissas elaboradas a partir dele. Em outras palavras, não precisamos de uma atualização; precisamos de uma reformulação.(HOLIDAY, 2012, p. 189)

Portanto, ao tratar de erro, estamos refletindo sobre a ética profissional e sobre as responsabilidades do jornalismo na mediação dos acontecimentos do presente. A qualidade dessa mediação depende intrinsicamente da reflexão sobre os procedimentos de apuração, edição, publicação e circulação da retificação. Sem isso, as correções online continuarão sendo uma grande piada – e de mau gosto.

Referência
HOLIDAY, Ryan. Acredite, estou mentindo. São Paulo: Companhia Editora Nacional, 2012.