Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Em análises anteriores, valendo-me das crônicas de Machado de Assis, abordei a questão do “apetite voraz” dos leitores dos jornais do passado e do presente pelas notícias sensacionalistas. No texto de hoje recorro novamente ao escritor carioca só que não mais para falar da “fome”, mas de outra necessidade fisiológica básica: a sede. A “sede de nomeada”.

Apesar de já terem dado lugar a outras notícias mais impactantes no cenário midiático atual, como os atentados em Paris ou o crime/massacre ambiental da Samarco em Mariana, vou continuar abordando as inúmeras notícias, das frívolas às sérias, que saíram na mídia no mês passado por conta do Enem. Escolho uma frívola. Afinal, estas histórias anódinas podem revelar muito sobre o comportamento humano no que tange à mídia, além de trazerem em si indícios de um passado naquilo que acreditamos ser essencialmente inédito ou contemporâneo.

Deste universo de notícias variadas, as que abordam os atrasos dos candidatos ao exame sempre inundam a cena jornalística do período. O inusitado nesta última edição do Enem é que nem tudo era real. Um grupo de estudantes do Rio de Janeiro simulou um atraso durante o primeiro dia de provas, que ocorreu no último dia 24 de outubro, enganando diversos meios de comunicação que publicaram o fato como verdadeiro. Os jovens, que fazem parte do coletivo Midiativista Mariachi, filmaram e publicaram a farsa no Facebook, alegando que queriam questionar “o grande circo midiático” e o “sensacionalismo da mídia” durante a cobertura do Enem 2015.

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Candidatos atrasados para o ENEM

Para além do gesto “político” destes jovens, parece-me que o que muitas vezes está por trás do desejo incontrolável de sair na mídia, seja por um feito heróico ou por uma construção falsa ou amplificada da realidade, é o que Machado de Assis chamaria de “sede de nomeada”.

 Sede de nomeada: casos pioneiros

A expressão “sede de nomeada”, já tratada por mim em outros estudos, foi cunhada pelo escritor carioca no romance Quincas Borba quando o Rio de Janeiro tivera notícia do feito do personagem Rubião através do jornal Atalaia: o salvamento de uma criança que iria ser atropelada por um coupé. Rubião a princípio aborrece-se com Camacho, dono do jornal, afinal, “que diacho de ideia aquela de imprimir um fato particular, contado em confiança?”. Entretanto, à medida que os elogios se multiplicam, passa a saborear a publicidade, a ponto de o impulso inicial de pedir satisfações ao dono converter-se em agradecimento, e o desejo de anonimato, em “sede de nomeada”: “Rubião foi agradecer a notícia ao Camacho, não sem alguma censura pelo abuso de confiança, mas uma censura mole, ao canto da boca. Dali fora comprar uns tantos exemplares da folha para os amigos de Barbacena. Nenhuma outra transcreveu a notícia; ele, a conselho de Freitas, fê-la reimprimir nos ‘a-pedidos’ do Jornal do Comércio, interlinhada” (Assis, 1994, p. 78-79).

Outro personagem de Machado, Fulano Beltrão, do conto “Fulano” (Obras Completas, 1955, p. 436-440), também tem seu comportamento alterado depois de ver impresso em uma edição do Jornal do Comércio, em 1864 (150 atrás!…), um artigo anônimo exaltando suas qualidades de pai, esposo, amigo e cidadão. O narrador sugere que esse fato fora decisivo para que Fulano passasse a se preocupar com outras coisas, “revelando um espírito universal e generoso”: “Pode ser que me engane; mas estou que o espetáculo da justiça, a prova material de que as boas qualidades e as boas ações não morrem no escuro, foi o que animou o meu amigo a dispersar-se, a aparecer, a divulgar-se, a dar à coletividade humana um pouco das virtudes com que nasceu”. Depois de declarar à mulher que a imprensa era uma grande invenção, mandou transcrever o artigo no Diário do Rio de Janeiro e no Correio Mercantil.

Sobre esse desejo de se tornar público – reflexo de um tempo em que seres e coisas começavam a ficar sujeitos à mercantilização no espaço público da cidade –, a crônica de do dia 14 de março de 1885, publicada na coluna “Balas de estalo”, é esclarecedora. Nela, o cronista discorre sobre os motivos que levariam um capoeira (membro de um grupo que, segundo os jornais da época, praticava a desordem e a agressão) a desferir facadas na barriga das pessoas e conclui que tudo seria por causa do “erotismo da publicidade”. Ou seja, seria culpa do desejo que tem o homem que está em sintonia com o seu tempo de ver o nome “em letra redonda” sair nos jornais e ficar “notório sem despender nada”.

O “erotismo da publicidade” também é mencionado em “A teoria do medalhão” (Papéis avulsos, 1882). Neste conto, entre as várias sugestões que um pai dá ao filho sobre como se tornar um homem célebre, está a de obter os “benefícios da publicidade”. E uma das formas de se obter tal benefício é convidando, quando por ocasião de alguma homenagem, os jornalistas: “Se esse dia é um dia de glória ou regozijo, não vejo que possas, decentemente, recusar um lugar à mesa aos repórteres dos jornais. Em todo o caso, se as obrigações desses cidadãos os retiverem noutra parte, podes ajudá-los de certa maneira, redigindo tu mesmo a notícia da festa; e, dado que por um tal ou qual escrúpulo, aliás desculpável, não queiras com a própria mão anexar ao teu nome os qualificativos dignos dele, incumbe a notícia a algum amigo ou parente”.

Todos estes casos pioneiros, reais ou fictícios, revelam que no afã por tornar pública a própria figura, a imprensa poderia ser uma boa aliada.

Sede de nomeada: casos atuais

Se a fabricação de mitos, seja pela publicidade de produtos ou pelo marketing pessoal, tem nas crônicas de Machado uma documentação pioneira, espraia-se pelo jornalismo que viria depois. No afã para tornar pública a própria figura, mentiras e verdades se confundem.

Emblemático disso é o caso ocorrido em 2012, conhecido como a “falsa grávida de Taubaté” e que repercutiria na imprensa de todo o país. A pedagoga Maria Verônica Aparecida César Santos tornou-se célebre na mídia porque estaria esperando quadrigêmeos. O ineditismo do fato chamou a atenção de vários veículos – rádio, TV, jornais, sites de notícias –, o que rendeu a pedagoga, além de doações de fraldas e roupas para o enxoval dos bebês, convites de grandes emissoras para cobrir com exclusividade a suposta gravidez. Após declarações de um médico que atendeu a pedagoga no segundo semestre de 2011 e afirmou que, na ocasião, ela não estava grávida, a polícia começou a investigar o caso e descobriu a farsa. Usando uma barriga de silicone, a falsa grávida, no intuito de se promover, gerou várias “barrigas” na cobertura da época (e também vários trocadilhos com esse!).

Outro repórter a embarcar na “sede de nomeada” de uma fonte foi José Roberto Burnier. Quando da morte do presidenciável e ex-governador de Pernambuco Eduardo Campos em acidente aéreo em Santos, em 2014, o repórter do Jornal Hoje (Rede Globo) entrevistou um homem que dizia ter estado na cena da tragédia e visto o corpo do político. “Cheguei a abrir o olho dele”, contou o rapaz que ainda afirmou ser eleitor do candidato. Informações oficiais, entretanto, deram conta de que nenhuma vítima poderia ser reconhecida visualmente em virtude da explosão e do forte impacto, e a versão da suposta testemunha caíra por terra, derrubando também o repórter.

Como se vê “a sede de nomeada” sempre existiu e sempre existirá por parte das fontes, a ponto de Eça de Queirós declarar que “para aparecer no jornal, há assassinos que assassinam”. Entretanto, na separação entre o que de fato é e o que parece ser, é insubstituível um repórter que apure com rigor os acontecimentos e os contextualize, com diferenciadas interpretações, com fontes qualificadas e algum conhecimento de história cumulativa. E, claro, com uma boa dose de desconfiança.

Referências

ASSIS, Machado de. Edição Jackson das Obras completas de Machado de Assis. Crônicas (1871-1878). 3° volume. São Paulo: Brasileira, 1955.

ASSIS, Machado de. Quincas Borba. São Paulo: Moderna, 1994. (Coleção travessias).

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