Samuel Lima
Professor na UnB e pesquisador do LASTRO/UFSC e objETHOS

Uma intensa narrativa político-midiática, iniciada há pouco mais de um ano, teve seu desenlace no começo da noite de 2 de dezembro, quando o ainda presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ) anunciou que acolhera o pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff, assinado pelos juristas Miguel Reale Júnior e Hélio Bicudo, protocolado no final de outubro de 2015. O pedido teve o apoio “formal” dos partidos de oposição (PSDB, PPS e DEM). Cunha justificou que “atendia um apelo das ruas”.

A decisão de Cunha virou manchete similar nos três maiores jornais impressos do país. Para a Folha de S. Paulo e O Globo o verbo foi comum: “Cunha retalia PT e abre impeachment de Dilma” – disse o diário carioca; “Cunha retalia PT e acata pedido de impeachment contra Dilma”, sintetizou a Folha. Na versão do Estadão: “Cunha perde o apoio do PT e aceita impeachment; Dilma se diz ‘indignada’” (veja as imagens das edições de 03/12/2015).

2015 12 06 Capa Folha de S. Paulo
Capa da Folha de S. Paulo
2015 12 06 Capa O GLOBO 03.12
Capa d’O Globo
2015 12 06 Capa O ESTADÃO
Capa d’O Estado de S. Paulo

Exceto O Globo, que já sinalizou apoio à aventura política aberta pela decisão de Cunha, os outros dois jornais se mostraram cautelosos. Em sua edição dominical (06/12/2015), o diário da corte da família Marinho antecipa: “Grupo de Temer já articula o impeachment de Dilma”.

2015 12 06 Capa O GLOBO 06.12
Capa da edição dominical d’O Globo

No tabuleiro do poder, no entanto, as peças vivem momentos de profunda instabilidade. A começar pelo próprio presidente da Câmara Federal, cujo futuro está nas mãos do Procurador-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal (STF). Desde o dia 15 de outubro, Rodrigo Janot pediu abertura de inquérito contra Eduardo Cunha no STF, após receber documentos da investigação do Ministério Público da Suíça, com provas robustas contra o deputado. Quase dois meses depois, nenhuma atitude foi tomada pela PGR ou pelo STF. Sequer um pedido formal de afastamento de Cunha da presidência da Câmara – ele continua a ser, em caso de impedimento de Dilma e Temer, o primeiro nome da sucessão. Para a mídia tradicional, isso passou em brancas nuvens…

Um ano de pressão, sem trégua

Foi por volta das 20h30 de 26 de outubro de 2014 que o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmou a vitória de Dilma Vana Rousseff, do PT (com 54,5 milhões de votos) sobre seu adversário, o senador Aécio Neves, do PSDB (que obteve 51 milhões de sufrágios). No dia seguinte, o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) já entrava com um pedido de anulação das eleições, baseado em supostas provas publicadas nas redes sociais e na internet.

Evidentemente, que tal pedido acabou indeferido pelo TSE, mas esse seria apenas o primeiro de incontáveis tentativas de abreviar o mandato da presidente reeleita. O pedido seguinte, que tramita até hoje no TSE, e foi ressuscitado recentemente pelo imparcial ministro Gilmar Mendes (STF), reivindica a anulação das eleições, com a impugnação da chapa eleita (Dilma/Temer). Num primeiro momento, Aécio até se anunciou, via redes sociais, como provável presidente da República, porém a coisa também não prosperou muito por aí.

Em 1º fevereiro de 2015 tomava posse o Congresso de perfil mais conservador dos últimos 30 anos. Sob a intensa proteção da narrativa midiática, e contando com o apoio decisivo do PSDB, DEM e PPS – os principais partidos da oposição – começa o reinado de Eduardo Cunha, liderança daquela que passou a ser conhecida como bancada “BBB” (Bala, Boi e Bíblia), para usar a feliz expressão do filósofo Vladimir Safatle (USP). Comandando 73% das cadeiras da Câmara, Cunha usou o cargo para aprovar as chamadas “pautas-bomba” e impôs, dia após dia, derrotas ao país – e não apenas ao governo Dilma.

A crise política alimentava a econômica e a conta dessa simbiose foi repassada à economia nacional, diariamente, à sociedade. Jogando de maneira muito articulada, a mídia tradicional radicalizou em sua narrativa sobre a crise, dando uma goleada muito mais contundente que os 7 a 1 da Alemanha sobre o time canarinho, nas semifinais da última Copa do Mundo. Com a opinião pública hegemonizada, a imprensa tradicional manteve sua posição de partido oposicionista, numa pressão impiedosa e sem tréguas.

Folha na vanguarda: e agora, José?

O papel da mídia transcendeu a simples “narrativa sobre a crise”. Além de dar guarida a teses estapafúrdias (a suposta fraude eleitoral, um ano depois reconhecida como arrematada bobagem pelo próprio PSDB), aos vazamentos seletivos da Lava-Jato (na base do disse-me-disse, da ilação e da má-fé), foi notável a forma pela qual poupou Eduardo Cunha, até o momento em que o Ministério Público suíço resolveu embolar o jogo e entregar as provas de suas investigações que incriminaram o ainda presidente da Câmara.

Há que se destacar, nesse contexto, a posição destacada da Folha. Atuando na linha de frente, o diário paulista usou e abusou do peso de suas “pesquisas fakes”, sondagens de opinião sem base científica ou estatística que o jornal realiza, via Datafolha, e vende como se fosse um estudo probabilístico (com margem de erro e intervalo de confiança e tudo o mais). Mesmo quando não havia nenhum pedido formal de “impeachment” nas mãos de Cunha, coube a este jornal a “missão” de manter essa proposta na vitrine das manchetes.

As capas das edições dos três diários, mesmo com a sinalização pró-impeachment d’O Globo, demonstra um tipo de hesitação que deve durar pouco tempo. A admissibilidade tem algo extremamente positivo: pode servir para estancar a sangria não do governo Dilma, mas do país.

A mídia, como setor econômico e político de alta sensibilidade, é também um ator social e deve assumir, pelo menos do ponto de vista de seu núcleo monopolista, uma posição muito clara sobre a questão do impeachment. Aliás, todos os atores sociais, lideranças políticas, intelectuais comprometidos com a vida e o futuro do Brasil etc. terão de assumir uma posição. É a economia popular e a vida das pessoas que vem sendo profundamente afetadas pela aventura antidemocrática. Tudo isso somado aos equívocos de percurso do governo federal, forjados nesse caldeirão de aleivosias, capas e manchetes desonestas ou de má-fé (nos últimos tempos, até houve desmentidos em O Globo e JN) resultou num cenário complicadíssimo.

Euforia nos “mercados”

É o que já fez, por exemplo, o jornal Valor Econômico, empresa pertencente aos grupos Globo e Folha. Na edição da última sexta (04/12/2015), o jornal especializado em economia já comemora na capa: “Os mercados reagiram positivamente ao início da tramitação do pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff. Ontem, a BM&FBovespa subiu 3,29%, com destaque para ações de estatais e bancos. A ação preferencial da Petrobras valorizou-se 6,11% e a ordinária (com direito a voto) do Banco do Brasil, 8,40%. O dólar caiu 2,30%” ( http://migre.me/skaEF). Pragmático, o banqueiro Alberto Ramos (do Goldman Sachs) declara na matéria: “O mercado enxerga que esse processo pode levar a algum tipo de resolução, seja o impeachment ou o fortalecimento do governo”.

2105 12 06 Capa VALOR 04.12 UM
Matéria no Valor Econômico

Ironicamente, o Valor cita fontes em off para declarar sua opção institucional e política: “A perspectiva de saída de Dilma e de sua substituição pelo vice, Michel Temer, tem potencial, segundo economistas ouvidos pelo Valor, para mexer na variável que os analistas consideram mais importante para tirar o país do rumo da depressão: a expectativa de empresários, do mercado financeiro e dos consumidores”. O jogo, para as aves de rapina do mercado financeiro está posto.

Nesse primeiro momento, ainda não parecer haver um alinhamento geral entre as principais empresas de mídia. Prevalece aquela máxima, nesses casos de crise política aguda, que aqui podemos caracterizar, sem meias palavras, de aventura golpista: todo mundo sabe como começa, mas ninguém em sã consciência é capaz de prever o final.

Os fatos que podem levar ao impeachment são apresentados na arena midiática, como era previsível, sem nenhum contexto. A legitimidade de Cunha para abrir tão grave processo é passada como a mais secundária possível. E um instrumento previsto para ser usado em casos extremos e graves é exibido, pelas forças de oposição, como uma ação política corriqueira.

Futuro da democracia

Comparando o dia da admissibilidade do impeachment, pelo presidente da Câmara, com a declaração de vacância da Presidência, em 1964, que levou ao golpe militar, o escritor e jornalista Fernando Morais faz uma boa síntese desse contexto, em artigo publicado na Folha: “Pediram uma ridícula recontagem de votos; entraram com ações para anular a eleição; ocuparam os meios de comunicação para divulgar delações inexistentes; compraram pareceres no balcão de juristas de ocasião e, escondidos atrás de siglas desconhecidas, botaram seus exércitos nas ruas, sempre magnificados nas contas da imprensa. Nada conseguiram, a não ser tumultuar a vida política e agravar irresponsavelmente a situação da economia, sabotando o país com suas pautas-bomba” (http://migre.me/sjW3V).

No mesmo sentido, o jornalista Janio de Freitas, decano da profissão no país e voz solitária na Folha, concorda acrescentando: “O que se tem passado na Câmara, ao longo de todo este primeiro ano de nova legislatura, não são os meros artifícios com que casas legislativas contornam dificuldades cronológicas, impasses regimentais e acordos problemáticos. São manipulações só possíveis com o uso impróprio do poder funcional, são pressões, são ameaças, punições à resistência e recompensas indevidas. Em grande parte, à sombra do desconhecimento público, pouco e quase sempre mal abastecido, a respeito, pelos meios de comunicação outra vez cedendo espaço do jornalismo a práticas partidárias/ideológicas –o que parecia ser passado já distante no serviço noticioso brasileiro” (leia a íntegra em: http://migre.me/sjXqr).

A tentativa de impedimento nasce nesse contexto, portanto, eivado de flagrantes vícios, manipulações garantidas por uma mídia partidarizada, em seu núcleo monopolista. Entre arautos e colunistas de renome, que falam em nome das empresas de mídia no país, já pintou de tudo: da renúncia ao impeachment, passando até pela abjeta tese do suicídio da presidente Dilma, proposta por Carlos Heitor Cony, colunista da Folha de S. Paulo, em texto recente.

Em paralelo, mas produzindo um mega impacto negativo no PIB, o oligopólio de imprensa dominante também deu guarida à militância político-jurídica na qual se transformou a Operação Lava-Jato, com o impoluto e seletivo juiz Sérgio Moro à frente de uma força-tarefa de jovens e messiânicos procuradores do Ministério Público Federal (alguns viraram celebridades e correm o país fazendo palestras contra a “corrupção do PT” e prometendo “refundar a República” – seja lá que diabos isso signifique). Analistas estimam que o prejuízo provocado pela paralisação na cadeia do petróleo e da construção civil, gerada pelos desdobramentos políticos da Lava-Jato alcance a redução de 2,5% do PIB em 2015.

Muito mais que a troca de comando na Presidência da República, o que está em jogo é o futuro da democracia brasileira. Dilma Rousseff não é Fernando Collor de Melo e o Brasil de 2015 está a centenas de milhas daquele do começo dos anos 1990. Os barões da mídia brasileira e seus porta-vozes não desconhecem esse fato, certamente. A ver os desdobramentos, a partir da formação da Comissão Especial de 65 deputados que irão julgar, em primeira instância, a admissibilidade do impeachment na Câmara Federal.

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