Leonel Camasão
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

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Paulo Henrique Amorim, à esquerda, e Reinaldo Azevedo, à direita

O pedido de impeachment da presidenta Dilma Rousseff, que tramita no Congresso Nacional, preenche os noticiários de todos os veículos de comunicação neste dezembro de 2015. Não poderia ser diferente. Após um ano onde a crise política entre o planalto e o Congresso foi o centro dos debates públicos, a admissibilidade do processo de impedimento resultou em uma cobertura relativamente homogênea da imprensa tradicional, quase em clima de torcida.

Se em um primeiro momento o impeachment foi noticiado como “retaliação” à abertura do processo na Comissão de Ética contra o presidente da Câmara Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o que se seguiu foram análises de como a eventual queda da presidente “animava os mercados” e seria a solução derradeira para a economia nacional.

Na contramão da imprensa tradicional, veículos mais alinhados ao governo federal acusavam o “golpe paraguaio” em curso, ou seja, um impeachment sustentado apenas em razões políticas, mas sem provas que sustentem eventual crime de responsabilidade. Mostram uma Dilma Rousseff vítima de grande articulação liderada por Cunha, Temer e pela imprensa em geral.

Neste cenário, os jornalistas Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo tem papel destacado nas linhas de frente a favor e contra o governo. Apesar de posições políticas antagônicas, ambos têm muito em comum. São amados e odiados em grande escala, usam de adjetivos jocosos para atacar os inimigos de suas teses e se prestam ao papel de rottweilers de suas próprias causas (seriam suas, de fato?). Seus blogs servem como mobilizadores na internet deste Fla-Flu da política nacional.

Os termos utilizados pelos jornalistas na pauta do impeachment podem até ser engraçados ou ofensivos (a depender de qual blog o leitor mais se identificar), mas mostram que o jornalismo passa longe destes senhores.

PHA usa termos como “Pauzinho”, “Aecím”, “Cerra”, entre outros, para retratar Paulinho da Força, Aécio Neves e José Serra. Além, é claro, do termo “impitim”, para impeachment. O erro proposital na grafia e a criação de apelidos para retratar os adversários políticos é tática antiga, mas funcional. Em Maquiavel, tal postura já se apresentava: se não há argumentos contra a posição do adversário, ataque a honra do adversário.

No Blog de Reinaldo Azevedo, hospedado no site da Veja.com, o tom era de ampla comemoração ao noticiar o início do trâmite. Já começou a festa na Avenida Paulista – Movimento Brasil Livre e Vem Pra Rua promovem uma comemoração na capital paulista. Ao repercutir o discurso de Dilma sobre o tema, Azevedo atribui a presidenta “mentiras escandalosas”, “inverdades grotescas”, além de classificá-la como “mártir desastrada, vítima de sua própria concepção de mundo”.

Necessário dizer que há farto material para ataque político às figuras acima referidas, e que elas não são necessariamente honrosas. O que se registra aqui é a baixeza com a qual o fazem PHA e Azevedo, igualando-os do ponto de vista moral e ético, deixando o jornalismo ou a informação como acessório em seus espaços de ataque e achincalhe aos inimigos do rei (ou da rainha).

Algumas manchetes destes blogs são interessantes para ilustrar o argumento.

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Em seis manchetes selecionadas do Blog Conversa Afiada no período inicial do impeachment, Paulo Henrique Amorim tirou Dilma do foco para atacar os adversários políticos da presidenta. Ele promove ataques contra Gilmar Mendes, uma colunista da Folha (chamada de “colonista”, em referência a um suposto comportamento colonizador), Marina Silva (que ele costuma chamar de “Bláblárina”, e mais recentemente, “Bláblá”), FHC, Serra, entre outros.

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Já Reinaldo Azevedo chama os manifestantes anti-impeachment de “tarados morais”, diz que o PT chama o impeachment de golpe para “ficar no poder e cometer mais crimes”, chama os juristas pró-Dilma de “ditos juristas” e afirma que ação do PCdoB no STF reúne “bobagens”.

Imprensa alternativa ou governista?

O termo “jornalismo alternativo” ou “mídia alternativa” é daqueles conceitos tão amplos que possibilitam dezenas de interpretações possíveis. No Brasil, um grupo de jornalistas e blogueiros criaram a alcunha “blogueiros progressistas”, veículos na internet mais identificados com pautas mais à esquerda e/ou com a defesa dos governos do PT. O próprio Paulo Henrique Amorim esteve na mesa de abertura do primeiro encontro do tipo, que já tem ao menos quatro edições nacionais. Recentemente, Amorim esteve na UFSC, para encontro de caráter similar, O 1º Encontro de Blogueiros e Ativistas Digitais de SC, para o qual estava convidado para a mesa de abertura, inclusive, o presidente do PT de SC.

Não queremos aqui negar que a imprensa tradicional tem de fato aspirações golpistas, ou ainda, estimula movimentações anti-governo. Mas a experiência brasileira, até o momento, tem mostrado que para se contrapor à oligopolização midiática, surgiu uma rede de veículos na internet que se prestam, em geral, a fazer a apologia do governo, com algumas exceções. É a isso que chamamos de imprensa alternativa? Se é alternativa, é alternativa ao quê? O caso de Paulo Henrique Amorim e Reinaldo Azevedo mostra que, do ponto de vista metodológico, fazem o mesmo jornalismo ruim, porém, em polos políticos diferenciados.

É de Paulo Henrique Amorim uma expressão que se popularizou ainda no governo Lula, na qual a imprensa faria o papel de oposição aos governos do PT. O termo Partido da Imprensa Golpista formava, em inglês, a sigla para porco (PIG), sugestivo nome para tratar a imprensa comercial brasileira.

Reinaldo Azevedo se contrapõe, em 2012, ao passar a utilizar a expressão criada por um leitor, que classifica blogueiros e veículos “alternativos” e “progressistas” como Jornalistas da Esgotosfera Governista, o que forma a sigla (em português) JEG, igualmente sugestiva.

Suspeito, honestamente, que nem Azevedo nem Amorim estão errados.

Por mais contraditório que possa parecer, é do site Brasil 247 (visivelmente pró-governo e com características propagandísticas) um artigo que debate até quando a imprensa brasileira será dividida entre JEGs e PIGs.

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Os jornalistas brasileiros precisam aprender a ser mais que porcos e jegues. O elemento-chave para superar a dicotomia PIG X JEGs é o bom senso. E o senso crítico. A autocrítica. Uma imprensa livre e independente é aquela que sabe criticar qualquer governo e qualquer oposição, não a partir de seus interesses corporativos ou “ideológicos”.  (http://bit.ly/1R2lyqo).

Na batalha de jegues e porcos, perde a imprensa brasileira e o debate público, cada vez mais alimentado por verdadeiros desserviços e desinformações propagandísticas que mais tem a ver com projetos de poder do que com o interesse público.

Novos coletivos e iniciativas de jornalistas tem surgido nos últimos cinco anos, tentando desvencilhar-se do governismo e buscar novas formas de fazer e de financiar jornalismo independente. Talvez resida aí, de fato, as novas potencialidades para um mercado e uma profissão em crise, não só econômica, mas de legitimidade.