ATUALIZADO EM 23/02/2016, às 15h30

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de Jornalismo na UFF e pesquisadora do objETHOS

Uma entrevista bombástica numa revista inexpressiva – a BrazilcomZ, voltada para brasileiros residentes na Europa – rapidamente se espalhou nas mídias sociais: finalmente, depois de 25 anos, a jornalista Mirian Dutra resolveu falar. Ex-amante de Fernando Henrique Cardoso na época em que o ex-presidente ainda era senador, Mirian manteve com ele um relacionamento de seis anos, que acabou quando ela engravidou – pela terceira vez, saberíamos depois – e resolveu ter a criança. Desde então passou a viver na Europa, preservando seu contrato com a Globo, que durou 35 anos e, em dezembro do ano passado, não foi renovado. Teria sido este o principal motivo para a jornalista finalmente decidir sair da sombra: na abertura da entrevista (íntegra aqui) a repórter comenta que, agora, Mirian “sente-se livre para contar o que viveu desde os anos 80”.

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Capa da revista BrazilcomZ

À parte a mágoa com a empresa – que, como disse, a marginalizou a ponto de apagar sua imagem – e o ex-amante, seu relato aponta as engrenagens dos meandros do poder: as articulações entre políticos, lobistas, dirigentes de empresas jornalísticas e outros empresários para tirar de circulação quem pudesse atrapalhar o projeto da eleição de Fernando Henrique à presidência da República. Afirma que a presença dela era uma permanente sombra nesse caminho, pois a candidatura inevitavelmente seria abalada se a história do relacionamento extraconjugal viesse à tona.

Mirian cita um pequeno mas significativo aspecto dessa articulação: o acordo que, segundo ela, Fernando Henrique e o então diretor de redação da Veja, Mario Sergio Conti, fizeram para a publicação de uma nota forjada.

“FHC me obrigou a dar uma entrevista para a Veja dizendo que o pai do meu filho era um biólogo, pode olhar na hemeroteca, em julho de 1991, naquela seção ‘Gente’. Quem é a Mirian Dutra para aparecer na ‘Gente’ dizendo que vai ter um segundo filho de um biólogo?! Foi Fernando Henrique com Mário Sérgio Conde (sic)!. Isso foi um acerto com o diretor da Veja”.

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Veja, 24/7/1991, seção “Gente”

A entrevista gerou desdobramentos tanto na grande imprensa quanto nos sites e blogs identificados com o governo. Em síntese, Mirian levantava suspeitas sobre as contas de FHC no exterior; dizia que havia sido “bancada” por ele com uma quantia de US$ 3 mil mensais repassada pela empresa Brasif – que, na época, explorava as lojas duty free dos aeroportos brasileiros; que tinha assinado com essa empresa um contrato fictício, mediado por um dos mais conhecidos lobistas do país e casado com sua irmã – que logo seria apontada como funcionária fantasma do gabinete do senador José Serra, o que provocou um episódio cômico: Serra afirmou que a funcionária trabalhava em casa – irregularmente, portanto – num “projeto sigiloso” na área de educação; e que, finalmente, duvidava dos exames de DNA divulgados por Fernando Henrique.

Fernando Henrique, por sua vez, garantiu que suas contas são legais e que não cometeu nenhuma irregularidade nas transações financeiras. Lembrou que, depois de muitos anos, fez dois exames de DNA, que deram negativo, mas ainda assim mantinha os vínculos com o filho que até então achava que era seu, a ponto de ter comprado para ele um apartamento em Barcelona por 200 mil euros e custeado seus estudos. Finalmente, lamentou “o uso político de uma questão pessoal”.

Já a Brasif informou, numa nota lacônica, os termos do contrato com Mirian, e isentou o ex-presidente de qualquer responsabilidade nesse acordo. Como, evidentemente, tratava-se de um contrato fictício, restaria saber por que ele precisou ser firmado: estaria aí o fio para uma investigação que pode revelar muita coisa.

Também caberia indagar como a informação de que Fernando Henrique pagou dois abortos para a ex-amante pode passar assim, sem um arquear de sobrancelhas, quando se trata de um tema sempre tão explosivo e, por isso, explorado negativamente em todas as campanhas eleitorais.

Verdade precária

A Folha de S.Paulo foi o primeiro dos grandes jornais a entrar no caso, publicando chamada de primeira e duas páginas internas no dia 18/2, uma delas com nova entrevista com a jornalista. Os outros jornais tiveram também de noticiar. Mas imediatamente começou a reação: colunistas insinuavam, quando não afirmavam categoricamente, que o timing da denúncia era suspeito e destinava-se a servir de exploração política para tirar Lula e o PT das manchetes. Eliane Catanhêde, no Estado de S.Paulo, mencionou “o fator amante”, recordando o episódio de uma outra Miriam, a Cordeiro, ex-namorada de Lula, que em 1989 foi utilizada pela campanha de Collor e ajudou a sepultar as chances do líder petista. Augusto Nunes, na Veja, chamou a denunciante de ressentida. Ricardo Noblat, num texto de generosas duas colunas no Globo, prometia informar “o que sei (ou acho que sei) sobre o caso Miriam Dutra”. Ali, lembrou que “a imprensa brasileira sempre evitou falar da vida privada de homens públicos”, verdade precária que desmorona na frase seguinte: “O Jornal do Brasil, em 1989, descobriu que Lula tinha uma filha de um relacionamento passado com uma enfermeira. Lula confirmou a notícia. A mãe da menina também. Então o jornal publicou”.

Noblat sabe que as coisas não se passaram com a tranquilidade que o seu relato faz supor e dá um verniz ético à atitude desprezível do repórter Luiz Maklouf de Carvalho, que enganou Lurian, a filha de Lula, com o pretexto de estar tomando depoimentos para o livro que estava sendo produzido na época, contando a trajetória de seu pai. Ele e o repórter fotográfico ficaram aguardando a menina. Quando Lurian entrou em casa, “José Carlos Brasil começou a bater fotografias. Em matérias envolvendo menores de idade, o melhor era fotografar antes e pedir autorização depois: se houvesse alguma encrenca, pelo menos as fotos já teriam sido feitas”. Quase dá para ver o sorriso de Mario Sergio Conti ao relatar essa estratégia em Notícias do Planalto (p. 132-3) como se fosse a coisa mais natural – e “esperta”, e justa – do mundo, desprezando as consequências que uma exposição daquelas traria para uma adolescente de 15 anos, que vivia uma situação familiar conflituosa e especialmente tensa diante da candidatura do pai à presidência.

Portanto, o respeito à vida privada de pessoas públicas – como qualquer outro nobre princípio da nossa imprensa – só é válido quando interessa. E, frequentemente, passa longe de escrúpulos éticos: tem o propósito de encobrir o que não vale a pena mostrar, para que a estrutura do poder não seja atingida.

Vida privada e interesse público

Embora em Brasília não haja segredo possível para esse tipo de relação, a história entre Fernando Henrique e Mirian só foi tornada pública, pela primeira vez, em dezembro de 1999, numa entrevista do jornalista Sebastião Nery ao jornal Opção, de Goiás, que deu manchete interna para “o filho de FHC com a jornalista da Globo”. Meses depois, a revista Caros Amigos indagaria, na capa de sua edição de abril de 2000: “Por que a imprensa esconde o filho de 8 anos de FHC com a jornalista da Globo?”. A equipe fez essa pergunta aos editores dos principais jornais e revistas do país. Tentou também, sem sucesso, entrevistar Mirian. O título da reportagem, “um fato jornalístico”, era uma resposta aos que rejeitavam a publicação da história, por considerarem tratar-se de assunto privado.

Antes fosse: em política, desde tempos imemoriais os assuntos de alcova estão longe de dizerem respeito exclusivamente à intimidade dos envolvidos. São jogos de sedução e poder, com tudo o que significam de imposição, coerção, intimidação, favorecimentos, chantagem. E isso tem consequências públicas muito relevantes, que não podem ser ignoradas. No nosso passado recente, bastaria lembrar o papel da “promotora de eventos” Jeane Mary Corner e sua rede de prostitutas na organização de festas que reuniam políticos e lobistas, motivo de escândalo que concorreu para derrubar Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, em 2006.

O problema é a forma jornalística de tratar desses assuntos: a tendência é vasculhar os detalhes mais apimentados de uma relação proibida, de preferência exagerando-os, para excitar e satisfazer a curiosidade da massa. Um jornalismo responsável fugiria dessa tentação ao voyeurismo, pois o que importa é demonstrar como essas relações íntimas interferem na vida pública.

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Reprodução Caros Amigos, abril de 2000
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Caros Amigos, abertura da reportagem de capa, abril de 2000

A leitura da reportagem da Caros Amigos (disponível aqui) permite avaliar diferentes pontos de vista. Mas, na época, tratava-se apenas de questionar os motivos da blindagem de FHC. Tantos anos depois, a entrevista de Mirian Dutra acabou revelando-os: são aspectos das engrenagens do poder, do submundo da política, de óbvio interesse público.

Promiscuidade

Entre esses aspectos está um que não chegou a ser discutido com a devida atenção: a naturalidade com que se encara essa intimidade entre jornalistas e políticos. Ruth de Aquino, em seu blog na revista Época, comentou que aquele caso “começou como tantos casos começam, no restaurante dos políticos em Brasília, com um flerte e uma atração mútua”.

As relações humanas às vezes são atravessadas por paixões arrebatadoras, mas conviria lembrar que políticos e jornalistas deveriam saber frear seus impulsos, tendo em vista o papel que desempenham. Mesmo porque a atração mútua, nesses casos, em geral carrega outros interesses, incompatíveis com o adequado exercício profissional. E, eventualmente, se transforma em escândalos, como o protagonizado em 2007 pelo senador Renan Calheiros, que teve uma filha com a jornalista Mônica Veloso – que depois exibiria seus dotes na Playboy e escreveria um livro desses que “contam tudo” – e se valia de um lobista de uma empreiteira para lhe pagar o aluguel e a pensão da menina.

A força (relativa) da internet

A repercussão da entrevista de Mirian Dutra nos grandes jornais, e até no Jornal Nacional, que no dia 18/2 dedicou mais de seis minutos ao tema, levou muita gente a comemorar o papel da internet na ruptura do silêncio que a mídia hegemônica impõe às pautas inconvenientes.

Talvez não seja para tanto: se é verdade que os fatos já não podem ser escondidos como antes, nem por isso eles serão necessariamente notícia para a grande imprensa apenas porque se tornam “virais” na internet. Bastaria observar o que ocorreu com o farto material produzido por sites e blogs sobre o escândalo da mansão da família Marinho, proprietária do Grupo Globo, que estaria registrada em nome de uma empresa controlada por offshores no Panamá e foi construída ilegalmente numa área de preservação ambiental em Paraty, na Costa Verde: as denúncias fizeram alarde nas redes mas não despertaram qualquer interesse na imprensa tradicional. A única referência, por isso mesmo subversiva, foi a notável charge de Laerte publicada na Folha de S.Paulo em 16/2, que sintetiza o contraste entre o silêncio em relação a esse caso e a superexploração do noticiário sobre o triplex no Guarujá, cuja propriedade é atribuída a Lula, apesar dos desmentidos do ex-presidente.

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Reprodução/Facebook Laerte Coutinho

À revista Fórum, Laerte declarou: “Acho que está havendo, sim, um tratamento tendencioso dos fatos por parte da midia – ou da ‘grande midia’ – em relação a partidos e pessoas da política, no sentido de desgastar Lula, Dilma e o PT; e que é uma ação coordenada com instâncias do poder judiciário e do aparato policial do país”. E concluiu: “Sinto que atravessamos um momento de grande perigo para a vida democrática”.

As grandes corporações de mídia, como parte da engrenagem do poder – e não como sua contrapartida crítica, como prometem ser – continuarão agindo como sempre. Pode ser que repercutam algo que destoe de sua pauta, como ocorreu neste caso. Importa prosseguir explorando os espaços alternativos para tentar oferecer o contraponto a esse rolo compressor.