Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Foi uma sexta-feira histórica, como já havia anunciado de forma privilegiada o editor-chefe da revista Época em seu Twitter. Como segurar uma informação que abalaria as estruturas políticas do país? Preferiu então contar na madrugada mesmo, para os seguidores insones, o que há muito tempo não se disfarça mais: o envolvimento eticamente condenável da grande imprensa brasileira com a polícia e o judiciário, numa rede de divulgação de informações que deveriam ser sigilosas ou pelo menos dignas de exaustiva apuração. Delações que viram manchete sem imposição de dúvida, desmentidos que ocupam espaços irrisórios diante das barrigas. Estamos assistindo, desde outubro de 2014, a um Spotlight às avessas.

Das tantas análises que podem ser feitas sobre a cobertura jornalística da condução coercitiva do ex-presidente Lula e seus desdobramentos, elencamos algumas, na tentativa de jogar luz a um cenário obscuro e repleto de desinformação.

  1. A versão contada pela grande imprensa não será a única a ficar registrada na história

Apesar das comparações com 1954 e 1964, desta vez temos nas redes sociais digitais um conjunto de contra-discursos que problematizam o relato jornalístico em tempo real. Além das críticas de pessoas comuns, muitas delas feitas nas páginas dos próprios veículos jornalísticos, intelectuais e autoridades adicionaram perguntas essenciais diante do espetáculo que se desenhava.

Tal fato ficou nítido durante a transmissão ao vivo, pela GloboNews, da coletiva da PF, MPF e Receita Federal em Curitiba. Enquanto os repórteres perguntavam se Lula seria o chefe da quadrilha, a grande questão permanecia encoberta: por que a condução coercitiva de alguém que colabora com as investigações? Nenhum jornalista questionou a frágil alegação do delegado de que o procedimento foi para proteger Lula e evitar manifestações. Ninguém falou sobre o fracasso dessa duvidosa estratégia de proteção, já que, àquela altura, o país já estava acordado e atônito.

Se na coletiva o ambiente era de adesão às declarações das autoridades, nas redes sociais o clima era outro. O professor da UnB Luis Felipe Miguel disse que “o país assiste ao escárnio das garantias constitucionais”. De acordo com o ex-ministro Bresser-Pereira, “a operação Lava Jato está indo longe demais. Está violentando os direitos civis dos cidadãos – de políticos e empresários – ao promover o vazamento de meras suspeitas que são transformadas em denúncias, e ao realizar prisões preventivas sem que haja necessidade – apenas para forçar delações”. A jornalista Hildegard Angel, em seu blog, afirmou que “é chegado o momento, mais do que nunca, de tomar posição. Vergonha dos companheiros da imprensa – não mais os chamarei de companheiros – que ajudaram a fazer ferver esse caldeirão para desestabilizar o Brasil e promover o caos, disseminando meias verdades, verdades transversas, dados manipulados, insinuações cínicas”.

Mais do que a perda da hegemonia no relato do presente, há um crescente questionamento do que a grande imprensa não noticia, das escolhas que escondem interesses e privilégios tão conhecidos. Merece registro a aparição de um cidadão durante a fala da repórter da GloboNews, com um cartaz que tinha a hashtag ‘#mansão dos Marinho Paraty’, em referência às irregularidades numa propriedade dos donos da Globo convenientemente silenciadas. Desnecessário dizer que tal imagem viralizou nas redes sociais.

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Portanto, daqui a alguns anos, além de recorrer aos acervos dos veículos jornalísticos, quem quiser entender o que aconteceu no dia 4 de março deve também fazer buscas por hashtags no Twitter e no Facebook. Com milhares de manifestações contra e a favor do ex-presidente, trata-se de um documento histórico valioso diante de uma grande imprensa a serviço do poder.

  1. A revolução das fontes está em franca ascensão

Durante toda a sexta-feira, a página de Lula publicou posts questionando a ação da Polícia Federal e do juiz Moro. A coletiva do ex-presidente foi transmitida ao vivo pela TV dos Trabalhadores na internet. O pronunciamento de Dilma utilizou o recurso de ‘evento ao vivo’ do Facebook. Nesses três casos, as fontes estabeleceram canais diretos com o público que não passam pela mediação da imprensa (embora a coletiva de Lula também tenha sido transmitida pela Globo).

No domingo, dia 6, o Instituto Lula inclusive publicou post denunciando o que eles chamaram de fraude da nota de resposta pelo Jornal Nacional. Além de explicar os motivos da denúncia, incluíram uma cópia do email trocado entre a produção do JN e o Instituto Lula. O que antes era uma comunicação restrita entre jornalista e fonte agora pode se tornar público a qualquer momento. Até a tarde do domingo, o post tinha mais de 11 mil curtidas e 3.500 compartilhamentos.

Não se trata de algo novo, mas essa revolução das fontes tende a acirrar a disputa por discursos e a competir com a narrativa estabelecida pela grande imprensa. Embora ainda seja considerada uma mídia segmentada (pouco mais de metade da população brasileira tem acesso à internet), não é preciso ser profeta para saber que esse número está aumentando de forma muito rápida. Não há mais espaço para minimizar a importância da mídia digital em nossos tempos.

  1. A democratização das comunicações volta à pauta – novamente

Outro assunto que não estará nas manchetes dos jornais é a questão da democratização dos meios de comunicação, tema que volta a ser discutido nas redes sociais. Parte da esquerda, inclusive, afirma que Lula está pagando o preço pelo tom conciliatório que adotou durante seu governo. Regular a mídia, como acontece em outros países democráticos, ainda é um tabu no Brasil.

De acordo com o professor Luiz Carlos Oliveira, “a esquerda que surgir do caos provocado pela degeneração do PT tem que fazer da quebra do monopólio da mídia uma de suas bandeiras centrais. Tamanho poder não pode ser mais tolerado. Caso contrário, os interesses nacionais, populares e democráticos continuarão marginalizados”.

Mais do que apontar certezas, queremos destacar a importância da volta dessa discussão, embora ainda de forma tímida. Mas, nesse momento de luta pelos direitos constitucionais, é imprescindível que se questione aberrações como concessões públicas de rádio e TV nas mãos de políticos e o monopólio das comunicações no Brasil, que está nas mãos de poucas e ricas famílias.

Como tentamos refletir, o terremoto político da última sexta-feira expôs uma cobertura jornalística tendenciosa, que encontrou na internet uma contra-narrativa crítica. O cenário político está aberto, com fontes se comunicando com o público sem intermediários, intensa discussão nas redes sociais e questionamentos aos privilégios de uma imprensa que flerta com o golpe sem pudores éticos.

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