Amanda Souza de Miranda
Doutoranda no POSJOR, professora do Bom Jesus/Ielusc e pesquisadora do objETHOS

Em meio à forte repercussão e comoção gerada nas redes sociais por conta da operação Aletheia e do depoimento via mandado coercitivo por parte do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, um post do professor Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma, trouxe à tona um episódio da história que, segundo ele, guardava semelhanças com aquilo que se desenhava diante de nós. O fato relembrava Getúlio, um líder tão emblemático quanto Lula, mas que deu cabo à própria vida ao se sentir acuado e pressionado por suspeitas de encomendar um atentado contra o jornalista e arquirrival Carlos Lacerda.

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Não podemos ser anacrônicos. Obviamente, Lula não é Getúlio e é muito provável que a história os trate de maneira absolutamente distinta. Getúlio deu um golpe de estado e instaurou uma ditadura. Também, em algum momento da sua vida pública, teria se inspirado em ideais próximos ao fascismo. Lula parece um personagem menos ambíguo, ainda que tenha se aliado a inimigos em nome da governabilidade e que tenha sido investigado em pelo menos dois casos de ampla repercussão nacional: o Mensalão e o Petrolão.

Guardadas as diferenças, é inevitável perceber aquilo que eles têm em comum: uma relação de extrema tensão com a imprensa, que ao longo de todos os capítulos da nossa vida republicana agiu de forma muito próxima ao poder, moldando a opinião pública de um leitor que ainda estava em formação e, porque não, influindo diretamente na história.

Se na década de 1930 Vargas teve o apoio da imprensa para construir sua projeção política, principalmente como liderança revolucionária que pôs fim às fraudes eleitoreiras da República Velha, em 1950, cinco anos após sua saída da presidência, o movimento se deu de outra forma. Não havia mais esse apoio irrestrito por parte dos grandes veículos, que estavam cada vez mais fortes diante da possibilidade de reunirem, a um só tempo, impressos, rádios e emissoras de televisão, como ocorria com o império de Assis Chateaubriand.

No dia da posse, por exemplo, o editorial de capa do Diário Carioca estampava o título “Serenos, mas vigilantes”, revelando, já no primeiro parágrafo do seu editorial, que o discurso e entrevistas de Getúlio não davam qualquer indício de como seria o seu Governo. A postura revelava um certo temor e desconfiança com o que estava por vir. Os grandes jornais, de alguma forma, assumiam uma postura bastante liberal. Getúlio não parecia estar disposto a seguir essa linha em seu governo.

Mais de cinquenta anos depois, a posse de Lula em seu primeiro mandato como presidente também mobilizava a vigilância da imprensa, temerosa quanto aos rumos do mercado após dois mandatos sucessivos de um governo neoliberal. Na capa da revista Veja, por exemplo, que passaria todos os anos que se seguiram com uma postura bastante crítica ao ex-presidente, a manchete “Lula de Mel” é seguida de um alerta: “A partir de agora, começa a cobrança”. A semelhança não se restringiu somente a capas e manchetes episódicas, mas ao longo dos três anos de mandato de Getúlio e dos oito anos de Lula.

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Entre a vigilância e a perseguição

Além do professor Renato Janine Ribeiro, que abre este texto, outros intelectuais se posicionaram nas redes sociais logo após a condução coercitiva de Lula ao aeroporto de Congonhas, destacando que havia muito da figura de Getúlio na face do ex-presidente. Para o escritor Fernando Morais, que escreve um livro sobre Lula e é defensor do seu governo, “os interesses e personagens que estão na margem direita desse rio são velhos conhecidos dos brasileiros. São os mesmos que levaram Getúlio ao suicídio”.

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O professor Nilson Lage, uma das grandes referências nos estudos de jornalismo, também comparou:  “Em 1954, a temática era o ‘mar de lama’ e a essência do discurso – conduzido pelos bacharéis da UDN e seus tribunos associados (como Carlos Lacerda), pela cúpula do Partido Comunista (prestista) e pela jovem oficialidade da Aeronáutica, encantada com a revolução tecnológica em sua área – consistia no combate ao ‘velho’ nacionalismo de Getúlio Vargas, visto como obstáculo à inserção do Brasil na modernidade”.

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São duas formas de enxergar a história que não podemos ignorar. De fato, Getúlio se suicidou porque estava vivendo uma pressão sem precedentes em seus anos de liderança. Acusado de mandar atirar em seu arquirrival, o jornalista Carlos Lacerda, ele se acuou e decidiu se afastar por três meses da presidência. Mas nem precisou. Sentindo-se sem apoio diante de seus principais ministros e aliados, acabou com a própria vida, tendo sido tratado como mártir pela mesma imprensa que o alçou ao papel de vilão.

As brigas entre Getúlio e Lacerda, vale-se dizer, ocorriam por meio da imprensa. Enquanto o presidente tinha Samuel Wainer e o Última Hora como grandes aliados, Lacerda usava a Tribuna da Imprensa para escancarar manchetes como “Somos um povo honrado governado por ladrões”. As  motivações políticas e liberais de Lacerda se somaram à preocupação de grupos conservadores com o nacionalismo e a visão trabalhista de Vargas.

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A história, mais uma vez, pode revelar certas coincidências – ou mesmo reincidências – de comportamentos típicos de uma imprensa que se posiciona diante daquilo que considera ameaça. Ao mesmo tempo em que esse posicionamento vinha em forma de protesto diante dos investimentos de Vargas em Última Hora, também se cobria de um ranço, uma espécie de ódio ao modelo de governar de Getúlio, avaliado por seus críticos como populista. Este ódio mobilizou praticamente toda a grande imprensa da época, como lembram Romancini & Lago (2007, p. 108):

A campanha anti-Wainer/Vargas feita por Carlos Lacerda é apoiada por O Globo e Chateaubriand. O jornalista passou a ter bastante acesso à rádio do primeiro grupo e à TV Tupi para atacar seus inimigos. É a primeira vez que a TV atua numa crise política.

O ex-presidente Lula lidou com os mesmos problemas: se na seara dos investimentos em mídia optou por também introjetar recursos nos chamados “blogs de esquerda”, por outro foi sistematicamente construído como um líder populista, preocupado somente em garantir ao seu partido novos mandatos e sucessões presidenciais. Seus atos públicos e privados foram acompanhados com rigor durante e após o seu mandato. Consideramos que esse é um dos papéis que cabem à imprensa em um estado democrático, mas quando acompanhado do ranço e do ódio tão associados ao modelo lacerdista de jornalismo, a dúvida há de existir.

Nas imagens: manchetes e capas de diferentes veículos sobre Lula e as tentativas de respostas em blogs de esquerda.

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Considerações sobre um novo tempo

Este rápido passeio pela história, tendo como pano de fundo comparações que circularam pelas redes sociais nos últimos dias, não pretende ser anacrônico e tampouco martirizar a figura de um ex-presidente que segue vivo e atuante, ocupando espaços de contra-informação e mobilizando sua militância para sufocar qualquer ameaça à democracia. Lula não é Getúlio e a imprensa de hoje não é a de ontem.

Vale destacar que, em 2016, há novos elementos no cenário: a imprensa não atua mais com soberania na fiscalização dos atos políticos. Há uma interessante zona de contra-discurso se formando nas redes sociais e mesmo nos veículos de comunicação alternativos. Quando da crise no governo Vargas, o presidente não teria espaço amplo na TV para se defender das acusações que lhe acuavam. Na sexta-feira, Lula entrou ao vivo, por streamming, e se defendeu das acusações que lhe imputaram. O pronunciamento foi retransmitido por grandes emissoras de TV.

Também é importante notar o papel dos intelectuais na conformação da opinião pública. Se os jornais de antigamente eram espaço de homogenização discursiva, apresentando pouca pluralidade e construindo uma narrativa de apoio ao liberalismo, hoje monta-se um front de resistência, capitaneado por professores, pesquisadores, lideranças de esquerda e escritores, como alguns dos que citamos aqui.

Se já na década de 1950 não se assumia o leitor como um agente passivo no processo comunicacional, hoje isso se tornou certeza. Enquanto parte da opinião pública constrói suas representações a partir do que recebe dos grandes veículos, outra parcela significativa reage e reluta a assumir discursos hegemônicos, mobilizando uma rede de contra-informação que atua de forma significativa nesse novo cenário.

Há de se esperar que os resultados da vigilância (ou seria perseguição?) ao ex-presidente não sejam trágicos como foi a derrocada de Getúlio. Mas é importante estar atento e perceber novas coincidências ou reincidências de uma imprensa que não se reinventou, ainda que tenham se passado mais de 60 anos.

Referência

ROMANCINI, Richard; LAGO, Claudia. História do Jornalismo no Brasil. Florianópolis: Ed. Insular, 2007