Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora da UFF e pesquisadora do objETHOS

A recente decisão de três proeminentes professores de negar entrevistas a jornais e emissoras de TV provocou reações antagônicas entre jornalistas e acadêmicos críticos ao trabalho da imprensa. Alguns apoiaram o que consideraram ser uma forma de protesto contra o oligopólio da mídia e sua atuação coordenada para derrubar um governo democraticamente eleito pela via de um pedido de impeachment sem fundamentação adequada e conduzido por um deputado já declarado réu pelo Supremo Tribunal Federal, o que é só uma das centenárias ironias que marcam a história do país das capitanias hereditárias. Outros lamentaram a perda da possibilidade de se oferecer um contraponto ao rolo compressor empurrado por essa mídia adepta do golpe.

Recusar convites para entrevistas não é algo novo: há muitos anos, ainda à época da campanha que opôs Lula e Collor na primeira eleição direta do país após a longa ditadura, Herbert de Souza, o Betinho, declarou que não daria mais declarações à Veja – e isso foi em 1989, quando a revista já era essa excrescência que continua a ser até hoje, e sua mais recente edição, sobre o suposto plano de Lula de pedir asilo à Itália, prontamente desmentido pela embaixada italiana, é só mais um indício de que os crimes de imprensa, por estas plagas, são plenamente tolerados. Então, sempre fez sentido negar a colaboração com uma imprensa que deturpa as falas e os fatos, quando não os inventa. A questão é: vale o mesmo quando a participação é num programa ao vivo?

Foi isso que suscitou o debate nas mídias sociais. Reginaldo Nasser, professor de relações internacionais da PUC-SP, até então fonte recorrente em programas da GloboNews, anunciou publicamente a rejeição ao convite, feito pelo whatsapp, para comentar os atentados terroristas em Bruxelas: “Não dou entrevista para um canal que além de não fazer jornalismo incita a população ao ódio num grave momento como esse”. O professor João Feres Jr. também recusou a colaboração com o portal G1, que lhe pediu dados sobre a pesquisa que coordena no Grupo de Estudos Multidisciplinares da Ação Afirmativa (Gemaa), na Uerj. “Não colaboramos mais com nenhuma mídia do grupo Globo. Vcs (sic) querem dar um golpe na democracia brasileira e não contarão com a nossa colaboração”. A resposta foi divulgada em seu mural no Facebook. Da mesma forma, o professor de História da USP Rafael Marquese rejeitou uma entrevista à Folha de S.Paulo: “Poderia falar com todo prazer, mas não para a Folha de SP (sic): ver meu nome impresso nela, nesse golpismo desenfreado, no chance.”

Recordemos que no início do mês o escritor Fernando Morais anunciou que não daria mais declarações a veículos do Grupo Globo, por ter ficado indignado com “a sordidez do noticiário do Jornal Nacional” contra o discurso do ex-presidente Lula na festa do PT no Rio de Janeiro: “o que uma pessoa como eu, que não tem nenhuma arma na mão, nem real nem metafórica, pode fazer para protestar contra essa gente sem vergonha, além desses choramingos aqui no foicebook? quase nada. faço o que posso. a partir de hoje, estendo aos marinho o solitário protesto que venho mantendo com a revista veja: não dou mais declarações para veículos das organizações globo. ninguém vai perceber isso, eu sei, mas dormirei mais tranquilo”. E assim cancelou o depoimento que daria para a GloboNews na semana seguinte, para um especial sobre Fidel Castro.

É claro que há uma diferença entre servir de fonte para uma publicação ou programa que ainda vai ser editado e participar de uma entrevista ao vivo. Afinal, o que seria se advogados como André Perecmanis ou Thiago Bottino tivessem se recusado a comentar a condução da Operação Lava Jato, confrontando a interpretação que a GloboNews, pela boca de seus âncoras e comentaristas, pretendia impor? O que seria se a advogada constitucionalista Margarida Lacombe e o juiz aposentado Walter Maierovitch – este, muito crítico ao governo – tivessem rejeitado falar sobre a liminar que contestava a posse de Lula na Casa Civil e sobre a “parcialidade muito grande” do ministro Gilmar Mendes no prejulgamento do ex-presidente em sessão do STF?

(Nem vamos falar de um episódio mais antigo, que não tem nada a ver com esse contexto tão tenso da vida nacional, mas que mostra bem o que pode fazer uma convidada improvável para confrontar uma pauta: a já famosa atuação da professora Gilberta Acselrad ao ser entrevistada por Leilane Neubarth sobre o uso de drogas entre adolescentes, disponível aqui para quem quiser se divertir e sair um pouco da atmosfera pesada em que vivemos).

Ex-produtora da GloboNews, a jornalista Rosa Maria Mattos escreveu no seu Facebook:

“Querido professor de esquerda,

negar um pedido de entrevista feito por uma produtora de reportagem da TV Globo é fácil; dar um print da negativa, fundamentada com sua posição ideológica, e compartilhar com seus amigos é interessante e provocador; aceitar o convite para a entrevista e expor suas colocações e críticas à cobertura no ar, para milhares de telespectadores, é heroico!”

Logo depois, em resposta a quem defendia a rejeição dos professores: “lamento, já que tudo o que cabe aos jornalistas pensantes e resistentes da TV é convidar os professores de esquerda para estar nos estúdios ao vivo, provocando as ideias e trazendo novas perspectivas… mas entendo o protesto! Só queria um protesto MAIOR!”

O professor Wilson Gomes, da UFBA, reagiu com a sua proverbial ironia:

“Devo andar meio confuso, mas se você é um um sujeito safo, que manja dos paranauês, qual é exatamente o ganho moral e ideológico de se recusar a dar entrevista à Globo e à Folha, como parece ser a nova modinha entre a reserva altamente pensante da academia? O ganho físico e o prazer, eu até entendo, porque o jornalismo nunca te remunera, explora o seu trabalho ‘de grátis’ e, frequente, é muito folgado (‘o Sr. poderia deixar tudo o que está fazendo, pegar duas horas de trânsito e vir aqui para que um repórter cansado e sem muita noção lhe faça umas duas perguntas amadoras e impertinentes sobre o assunto X?’). Mas o ganho intelectual e ideológico, como estão querendo argumentar os que recusam a entrevista e mostram o print, me parece meio bobinho, não?”

Provocou alguns comentários: “no momento em que estamos não é permitido fugir do debate”. Ou: “Um protesto silencioso numa espiral do silêncio? São monges se imolando com fogo sob um bombardeio de napalm. Quase ninguém verá. É tolice superestimar a audiência da blogosfera e subestimar a das TVs. É suicídio”. Isso porque alguns defendiam a atitude de recusa como forma de “matar de inanição” a Globo, como se a empresa não se alimentasse de seus habituais colaboradores à direita.

Entrevistado pela Rede Brasil Atual, Reginaldo Nasser disse que sua fala já fora editada num programa de debates – o Painel, comandado por William Waack e hoje um óbvio palanque do PSDB – e que não queria compactuar com a imagem de diversidade que essa rede de televisão pretenderia apresentar: “O canal fica fez horas mostrando algo distorcido, aí me chamam, eu falo por dez minutos e minha fala vai aparecer como justificativa que eles são plurais”.

Entre contestar essa falsa imagem e tentar agir para interferir, ainda que minimamente, para que o público possa ter acesso a pontos de vista alternativos aos dominantes, o que é melhor? Não seria mais adequado tentar ocupar espaços nessa mídia?

João Feres Jr. acha que não. Considera que “não há espaço para o contraditório na grande mídia nacional, e quando há ele é diminuto e soterrado por uma avalanche de comentários e comentadores alinhados com o golpe”. Contribuir com esses meios seria “referendar esse papel ideológico, a falsidade de um debate público que não há na mídia”. Como declarou quando apresentou, no programa Espaço Público, da TV Brasil, os resultados do “Manchetômetro”, o trabalho comparativo da cobertura dos grandes jornais na época da campanha eleitoral de 2014, continua a entender que são as grandes corporações de mídia que definem as pautas discutidas por quem frequenta as mídias sociais, de modo que “a internet não resolve o problema” de uma informação à contracorrente. Apesar disso, argumenta que “é a única arma que temos por enquanto”.

Não parece, portanto, que essa atitude de protesto possa ter a devida repercussão, nem compensar o papel que a intervenção desses intelectuais poderia ter caso aparecessem ao vivo na programação de uma TV, embora com audiência infinitamente menor do que a de um canal aberto.

Mas a mesma questão poderia ser colocada para a cineasta Anna Muylaert, que esta semana recebeu o prêmio “Faz da Diferença”, do Grupo Globo, por “Que horas ela volta?”, e fez um discurso enaltecendo o ex-presidente Lula e a presidente Dilma na sustentação de políticas de inclusão social que se refletem em seu filme. O que aconteceria se ela repetisse o gesto de Marlon Brando, que em 1973 recusou o Oscar por sua atuação em O poderoso chefão e enviou uma índia apache para o discurso de contestação à premiação?

São questões a considerar: cada contexto dirá da eficácia do protesto. O dos intelectuais que recusam interferir nos breves espaços disponíveis pela mídia dominante – por mais que seja constrangedor falarmos em “brechas” num tempo em que a democracia deveria garantir equilíbrio para pontos de vista divergentes – não parecem ter uma alternativa à altura.

LEIA AINDA: o professor Rogério Christofoletti critica o boicote  e o professor João Feres Jr. defende o não à grande mídia.

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