Evandro de Assis
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Passou quase em brancas nuvens uma correção incomum publicada pelo jornal Folha de S. Paulo na quinta-feira, 7 de abril. Sob o título “Trecho de entrevista sobre crise da água foi plagiado”, o texto reconhece que a edição do dia 26 de março entregara aos leitores conteúdo copiado de uma edição do concorrente O Estado de S. Paulo publicada em 2014. Mais grave ainda, a confusa reportagem-correção informa que a secretária do Programa Hidrológico Internacional, Blanca Jiménez, desmentiu declarações publicadas como sendo suas na mesma entrevista. E que o governo paulista, alvo das críticas que Jiménez nega ter feito, acusou o jornal de publicar falsidades.
Embora louvável a decisão de informar os erros com destaque, no alto da página B6 do caderno Cotidiano, a Folha deixa lacunas em torno do caso que denotam tentativa de esquivar-se de responsabilidade sobre o problema. Trata-se de erro grave, e que merece discussão do ponto de vista ético, mas o jornal parece não querer participar dela.

Plágio ou deturpação?
Ao longo de 13 parágrafos, a correção publicada pela Folha reproduz versões contraditórias sobre o ocorrido fornecidas pelas partes envolvidas: o jornalista Robson Rodrigues, que assina a entrevista, Blanca Jiménez e o governo paulista. Na edição do dia 26, a entrevista ocupa página inteira do Cotidiano e tem chamada na capa. Tanto o título interno quanto o destaque na primeira página sublinham crítica de Jiménez à gestão hídrica do governo estadual de São Paulo: “Crise da água só terá fim se houver gestão correta”. É exatamente esta a afirmação questionada pela fonte.
Conforme a Folha, Rodrigues redigiu “frases reformuladas ou tiradas de contexto”. O jornalista teria admitido ao jornal que mesclara declarações atuais de Jiménez com entrevistas concedidas pela especialista em setembro de 2015 – detalhe importante: a fonte também descarta ter citado São Paulo naquela oportunidade. Por fim, o jornal informa que Robson Rodrigues nega ter inventado ou plagiado conteúdo.
Embora dê voz a Jiménez e ao governo paulista, o texto da Folha não endossa a acusação de que publicara o que a entrevistada não disse. Chama a entrevista de “deturpada”, mas deixa que as reclamações dos envolvidos colidam com a versão do jornalista sem informar claramente que as afirmações publicadas são falsas. Uma meia correção, pois.
Quanto ao plágio, ele só é detalhado no penúltimo parágrafo, embora esteja no título. Desta vez, o jornal checou a acusação e portanto a confirma. Duas perguntas e respostas publicadas são “exatamente iguais” às do Estadão de 2014, atesta a Folha. Dois erros, duas posturas diferentes.

O jornal errou?
Robson Rodrigues admite, conforme a correção da Folha, que agiu mal ao juntar conteúdos de duas entrevistas concedidas em datas e contextos diferentes. Apesar da confusão gerada pelo choque de versões, é possível concluir que o jornalista truncou declarações, as descontextualizou e, ao que tudo indica, usou parte de material velho publicado por outro jornal. Rodrigues montou uma entrevista inexistente, diferente daquela que de fato produziu. Ao fazê-lo sem informar editores e o público, transformou seu trabalho em embuste. Em nenhum aspecto de análise do caso é possível isentar o jornalista de responsabilidade.
O jornal, por sua vez, apresenta-se como parte envolvida indiretamente na confusão. Exceto a menção na coluna Erramos (página A3 de quinta, 7 de abril), a Folha informa aos leitores que um jornalista errou. O fato do erro estar publicado em uma edição sua passa por mera circunstância. Não há explicação sobre os procedimentos internos para se evitar que falsidades cheguem ao leitor, tampouco pedido de desculpas às partes prejudicadas ou ao público. A instituição jornalística, no texto publicado, aparece como intermediária. Ora, quem assina a Folha assina o jornal, e não o jornalista. Se o profissional cometeu erro indefensável, também é verdade que a má conduta driblou todos os filtros do jornal. Ao fingir que o tema não a envolve a Folha gera dúvidas sobre a qualidade de seus controles, critérios técnicos e éticos.
O jornal dá a impressão de agir reativamente, afinal, a correção foi publicada somente 12 dias depois do erro e um dia depois de o governo paulista divulgar nota acusando o jornal de falsidade.

O eufemismo do “colaborador”
Por fim, a postura da Folha passa da displicência à covardia quando salienta aos leitores que o jornalista envolvido não passa de um “colaborador eventual” do jornal. A última frase do texto, com pitada de cinismo, informa que colaborações de Rodrigues não serão mais aceitas depois do episódio.
“Colaborador eventual”, aqui, é eufemismo. Rodrigues é jornalista sem vínculo empregatício estável. Seu perfil no Linkedin o apresenta como “repórter freelancer nas editorias de MPME, Mundo e Mercado” desde maio de 2014. Basta um Google para encontrar reportagens recentes produzidas por ele em editorias diversas. A colaboração era mais do que eventual e combina com prática conhecida no mercado jornalístico de São Paulo: a precarização das relações de trabalho por meio de freelas e PJs – terceirizados.
Óbvio que, freelancer ou não, Rodrigues é responsável por suas decisões eticamente condenáveis. Sendo claro: em nenhum momento este texto relativiza a responsabilidade do jornalista. Questionável, porém, é a postura do jornal quando resolve o caso apenas informando aos leitores que este colaborador eventual não mais colaborará.
Qual o rigor da Folha para contratar jornalistas? Os freelancers e PJs que “colaboram eventualmente” passam pelos mesmos critérios de seleção dos funcionários efetivos? Qual acompanhamento recebe um colaborador eventual por parte de seus editores? Existem mecanismos de controle de qualidade? São questões que a entrevista deturpada e plagiada suscita e que a Folha deveria esclarecer.
À parte a questão trabalhista, que por si só já expõe negativamente a empresa jornalística, o episódio pode ser indício de que os cortes nas redações provocados pela crise estrutural dos jornais trazem consigo impactos que interferem, sim, na qualidade do jornalismo entregue à sociedade, e na credibilidade de marcas importantes como a Folha de S. Paulo.

Transparência
O tratamento dado pelo jornal ao caso gera mais dúvidas do que tranquiliza o leitor, um comportamento inverso ao que o jornalista Matías Molina observa nos títulos que incluiu em seu Os Melhores Jornais do Mundo (Editora Globo, 2007): “Um toque de grandeza de um jornal é a capacidade de ter uma visão crítica a respeito de si mesmo. Reconhecer publicamente os erros envolve um esforço de auto-análise doloroso e difícil. Ao mesmo tempo, revela autoconfiança e respeito pelo leitor”.
A desastrosa entrevista publicada pela Folha poderia, ao menos, transformar-se em oportunidade para que o jornal fosse percebido pelos leitores como instituição transparente. Infelizmente, nem para isso serviu.