Publicado originalmente em Red Ética Segura

Hernán Restrepo
Jornalista e gestor de conteúdos de Ética Segura

Os principais fabricantes e distribuidores de refrigerantes da Colômbia anunciaram na semana passada que chegaram a um acordo histórico. Para proteger a saúde das crianças, deixarão de vendê-los em colégios, além de outras medidas que buscam ajudar a combater a epidemia de obesidade infantil no país.

O anúncio, criticado por vários setores que o viram como um gesto de colocar “panos quentes”, com o qual a indústria de refrigerantes pretende lavar as mãos para evitar assim que sejam aprovados impostos que limitem o consumo das bebidas açucaradas, tem também alguns elementos destacáveis. Por exemplo, demonstrou que empresas que competem mortalmente para conseguir sobreviver em um mundo onde os jovens preferem cada vez mais os produtos que se apresentam como “naturais” e “saudáveis”, podem se colocar de acordo e se autorregular para tender a um mercado mais equilibrado e com regras claras.

De fato, esta é graça da autorregulação: empresas que competem reconhecem o que estão fazendo de mal e se colocam de acordo para ajustar o caminho, evitando que o Estado tenha que intervir.

Fazendo um paralelo com a indústria dos meios de comunicação, são poucos os exemplos de iniciativas bem sucedidas de autorregulação que podem ser encontrados na Ibero-América. Pelo contrário, entre os meios de comunicação, impera a lei do “salve-se quem puder”.

Se uma indústria como a de refrigerantes pode se colocar de acordo e se autorregular, por que custa tanto à mídia tomar medidas para implementar melhores práticas que se convertam em benefício de todos?

Neste ponto, é necessário deixar clara a diferença entre autorregulação e autocensura, pois muitas vezes são confundidas. Como explica o professor Javier Darío Restrepo em uma das suas numerosas respostas sobre a questão no Consultório Ético da FNPI: “a autorregulação compreende o conjunto de atitudes de disciplina profissional que a pessoa se impõe para fazer um trabalho de qualidade. Outra coisa é a autocensura que impõe silêncios por algum interesse pessoal ou por medo”, responde à pergunta de um jornalista peruano.

Enquanto a imprensa em nossa região se afoga em autocensura, falta a ela muita autorregulação. E sem autorregulação, os meios de comunicação são dificilmente sustentáveis. “Na Iberoamérica, atualmente, as pesquisas demonstram que cai a confiança dos meios de comunicação. Por esta razão, não basta aos meios dizerem que são independentes. Agora, precisam dar provas disso”, disse Geraldinho Vieira ao apresentar a Ruta de Autoevaluación, um documento que todo empresário da mídia deveria ler.

A Inglaterra pode ser vista como exemplo a ser seguido quanto a iniciativas de autorregulação que buscam melhorar a qualidade do jornalismo, apesar das diferenças que existam entre editoras distintas. Logo que foi apresentado o célebre Relatório Leveson, que indicou os responsáveis pelo escândalo de interceptações telefônicas por parte dos jornalistas do jornal News Of The World, os diretores dos principais periódicos do país se reuniram para analisar as recomendações e colocá-las em prática.

Então, o que os meios podem aprender com os refrigerantes?… Basta olhar o rótulo com as informações nutricionais: devemos ser claros com o consumidor sobre como é feito nosso produto. A fim de recuperar a confiança de suas audiências, a mídia deveria se colocar de acordo em três assuntos urgentes que poderiam ajudá-la a projetar uma imagem de transparência e autorregulação.

1. Ser clara a respeito do conteúdo patrocinado: padronizar a forma com que os publieditoriais e outras notícias se apresentam, a fim de que não reste dúvida de que alguma empresa pagou ou influiu de alguma maneira para que uma notícia fosse publicada.

2. Separação de informação e opinião: ainda que os jornais separem com clareza as colunas de opinião e o comentário editorial diário do restante da informação, em meios como rádio e televisão esta distinção não é tão clara. São muitos os apresentadores de jornais de rádio que professam editoriais cada vez que têm a oportunidade de fazê-lo, em especial logo que seus entrevistados tenham desligado o telefone. Quanto aos jornais de TV, é pouco claro como escolhem os analistas que convidam sempre para opinar sobre os temas do momento. Antes que saiam do ar, faz falta esclarecer por que este ou aquele analista é convidado com frequência ao programa e qual é a sua orientação política. Ou ao menos publicar infográficos com regularidade onde se evidencie quantas vezes foi convidado a falar um analista em comparação a outros.

3. Transparência sobre quem são os donos: quanto maiores são, os meios de comunicação tendem a pertencer a mais empresários. Para a audiência é importante saber como o conglomerado empresarial que é dono do meio influi nas decisões editoriais, porque sempre influi. Se os donos do meio são também donos de uma cadeia de restaurantes de frango assado, como isso afetará as notícias que envolvem este setor? Se forem também donos de um banco ou de salas de cinema, de que maneira isto influirá nas notícias? Deveria se incluir no site de cada meio um organograma padronizado que mostrasse ao visitante como é composto o grupo empresarial ao qual o meio pertence.

Tradução: Mariana Rosa