(publicado originalmente em Afasta Este Cale-se)

Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora da UFF e pesquisadora do objETHOS

O compromisso do jornalismo é com a verdade dos fatos. A verdade, entretanto, às vezes não corresponde às nossas expectativas. Daí a atualidade da famosa frase ao final de O homem que matou o facínora, clássico de John Ford de 1962: “quando a lenda se torna verdade, publique-se a lenda”.

No dia 25 de maio começou a circular intensamente nas mídias sociais a informação de que uma adolescente de 16 anos havia sido estuprada por mais de 30 homens. Que estaria em estado de coma num hospital, talvez até já estivesse morta. E que o crime ocorrera em Santa Cruz, na Zona Oeste do Rio.

Depois se verificou que a moça estava viva e que o fato havia acontecido numa favela de Jacarepaguá, também na Zona Oeste.

Em poucas horas, mais de 800 denúncias chegaram ao Ministério Público do estado. Logo as autoridades policiais do Rio convocaram uma coletiva. O secretário de Segurança e o ministro interino da Justiça também reuniram a imprensa.

O caso repercutiu internacionalmente. No Brasil, os protestos de rua se multiplicaram. No domingo, dia 29, a “Marcha das Flores – 30 contra todas”, em Brasília, foi reprimida ao levar rosas para serem depositadas na estátua da Justiça, em frente à sede do STF, e gritou palavras de ordem contra “Gilmar (Mendes), protetor de estuprador”, em alusão ao papel do ministro no caso do médico Roger Abdelmassih. A indignação contra o crime se misturava à onda de contestação ao golpe jurídico-midiático-parlamentar que afastou, pelo menos provisoriamente, a presidente Dilma Rousseff do governo.

Cresciam também os protestos contra a condução do caso pela polícia carioca. O delegado responsável estaria constrangendo a vítima ao lhe perguntar detalhes sobre sua vida íntima. Detalhes que pouco deveriam importar para a investigação, pois o que está em causa é uma denúncia de estupro, essa violência inominável que precisa ser punida na forma da lei. Finalmente o caso passou para a delegacia especializada em crimes contra crianças e adolescentes e vai ser conduzido por uma mulher.

Que houve estupro não há dúvida, como a própria delegada afirmou e a Folha de S.Paulo já havia esclarecido: “no vídeo divulgado em redes sociais, um grupo de homens, em meio a risadas, toca nas partes íntimas da garota inconsciente”. Só isso, independentemente do depoimento dela ou do exame de corpo de delito, já caracteriza o crime, tendo em vista que, desde 2009, com a alteração da lei 12.015, também os atos libidinosos, e não apenas a conjunção carnal, são definidos como estupro. Houve ainda, comprovadamente, outro crime: a filmagem e divulgação do vídeo pornográfico na internet, conforme o artigo 241 do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Deveria ser o bastante para causar repulsa e revolta. Mas havia esse ingrediente a mais: um estupro coletivo, praticado por 33 homens.

Trinta e três? Será verdade?

No trecho do vídeo da entrevista que o repórter Roberto Cabrini, do SBT, fez com a jovem, ela diz: “quando eu acordei a luz tava acesa e um montão de gente em cima de mim. Tipo assim, 33 homens. Eu contei”. Em outro trecho da entrevista, reproduzida no site do Globo, ela diz: “meu amigo chegou na casa e saiu batendo nos garotos, ‘solta ela, solta ela’, e me pegou, catou as minhas roupas e falou, ‘se veste, se veste’. Aí eu fui e saí”.

Já na entrevista a Vinícius Dônola, que foi ao ar no Domingo Espetacular, da Record, a menina diz que contou “uns 28, por aí”, mas alguém disse 33, depois 36, 38.

Em primeiro lugar, caberia discutir a validade desse tipo de entrevista, embora saibamos os motivos que levam os jornalistas a fazê-la, ainda mais na televisão: explorar um caso desses dá audiência, excita o voyeurismo. Mas faz sentido expor uma jovem, mais do que já foi exposta? Que coerência se pode esperar de uma pessoa – pior, uma adolescente – que vive esse turbilhão de emoções diante dessa súbita e indesejada notoriedade?

Entretanto, são essas entrevistas que permitem questionar: uma pessoa atordoada e intimidada diante de tamanha violência, além de dopada, teria serenidade e discernimento para contar o número de agressores? Um único homem teria condição de enfrentar outros 33, alguns deles armados, e libertá-la?

A referência ao número de estupradores aparece no vídeo que circulou na internet: alguém diz “mais de 30 engravidou”. Seria, como afirma o advogado de um dos identificados pela polícia, referência a um funk popular na favela.

Mais: uma pessoa submetida a tamanha brutalidade teria sobrevivido, ou pelo menos não estaria com muitas sequelas físicas?

Por que a imprensa não levantou, logo de saída, essas dúvidas? Talvez porque isso retiraria a força do impacto que, inicialmente, a história causou. Talvez porque não queira contrariar o clamor público que, desta vez, começou nas redes virtuais, e não como resposta a uma notícia bombástica produzida pela mídia tradicional.

Agora, talvez, as coisas transcorram de outra maneira, com a notícia de que a delegada que assumiu o caso irá investigar a extensão do abuso: “se foram cinco, dez ou 30”. Resta saber quais serão as consequências de uma possível reversão de expectativas.

Ninguém deveria poder roubar do jornalismo o direito – de fato, a obrigação – de fazer perguntas. Entretanto, o clima de comoção que se criou inviabiliza a possibilidade da dúvida: qualquer questionamento é visto como uma tentativa de culpar a vítima, mesmo que as perguntas não tenham nada a ver com a sua vida íntima e sim com a tentativa de esclarecer o que de fato ocorreu. Não se aceita nada que não corrobore a convicção estabelecida desde o primeiro instante.

Da mesma forma, o clima de comoção vem despertando, como de hábito, aquilo que um famoso deputado classificou, certa vez, de “instintos mais primitivos”: mesmo entre gente bem formada se multiplica o desejo de que os 33 monstros recebam na cadeia o mesmo tratamento que deram à jovem – isso, claro, quando não se pede abertamente que sejam executados. Se os 33 não aparecerem, não será porque não existam, mas porque a polícia não realizou adequadamente o seu trabalho.

Houve também quem, diante de um questionamento feito privadamente, dissesse que tanto fazia se eram três ou 33, a gravidade era a mesma. Será?

Na mesma semana circulou a notícia de um estupro coletivo em Bom Jesus, no sul do Piauí. Uma adolescente havia sido atacada por quatro jovens, três deles também menores de idade. O caso teve pouca repercussão. A gravidade não é a mesma?

Com certeza é, mas então por que não nos indignamos da mesma forma? Por que precisaríamos de um número impressionante para nos escandalizarmos? Um estupro individual, ou mesmo coletivo, mas com poucos participantes, e a humilhação pública de uma mulher num vídeo já se tornaram fatos banais?

A facilidade com que se formou o consenso em relação ao número de estupradores, inclusive entre jornalistas de renome, deveria dizer algo sobre a adesão automática a uma notícia chocante: é como se o espanto anulasse a capacidade crítica, em vez de despertá-la.

Enquanto isso, um dos identificados como participante do crime logo se apresentou à polícia e garantiu que é inocente. Inicialmente, foi liberado. Agora, está preso. Se de fato não tiver nada a ver com a história, quem lhe retirará a pecha de estuprador?

Talvez isso não importe, tendo em vista que se começa a disseminar o argumento de que todo homem é um estuprador em potencial. A intenção declarada é alertar as mulheres para a sua vulnerabilidade e ajudá-las a reagir. Mas, em nome de uma causa essencial – essa do combate à cultura do estupro –, talvez não se perceba a que linha ideológica esse pensamento se filia, nem as consequências que ele pode ter para o convívio social.