Francisco José Castilhos Karam
Professor da UFSC e pesquisador no objETHOS

O egípcio Islam El Shehaby negou-se a cumprimentar, após derrota no judô (peso pesado acima de 100 kg) nas Olimpíadas do Rio de Janeiro, em 12 de agosto, o israelense Or Sasson. O gesto ofende a ética do judô e o “espírito olímpico”. Tal atitude repercutiu negativamente na imprensa nacional e estrangeira, sobretudo na ocidental.

Que bom seria se o “espírito olímpico” prevalecesse e até mesmo os dois atletas saíssem abraçados, como exemplo de confraternização entre os povos e acima das disputas políticas entre Israel e muçulmanos, entre Israel e palestinos, entre Israel e maioria do mundo árabe. Que bom se prevalecesse por sobre as disputas políticas que dizimam milhares ou milhões de crianças, homens e mulheres, velhos e moribundos, inocentes em todas as guerras… Muitas vezes bombardeados, unilateralmente, em hospitais, em suas casas, em asilos, ou seja, em zonas onde a “ética da guerra” deve preservar e respeitar.

Que bom se o “espírito olímpico” pudesse, acima das disputas, homenagear, na abertura das Olimpíadas, o verdadeiro articulador de sua vinda para o Brasil, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em evento antes criticado e agora elogiado por significativa parte da mídia hegemônica. Que bom se o “espírito olímpico”, por sobre as disputas políticas, pudesse homenagear quem muito se empenhou para que as Olimpíadas 2016 se realizassem, a presidente golpeada Dilma Rousseff.

Que bom se fosse assim, mas não é assim que funciona. A Política e a Ideologia estão por toda a parte e se sobrepõem, infelizmente – mas às vezes com razão – ao “espírito olímpico”, traindo os ideais das disputas gregas milenares, que diziam que, em tais disputas olímpicas, as diferenças e as guerras deveriam ser deixadas de lado para ali prevalecer, exatamente, o “espírito olímpico”.

Se o atleta egípcio errou ao não ceder ao “espírito olímpico” – e até mesmo talvez nem conhecesse as posições políticas de seu adversário –  não foi o primeiro. Em muitas solenidades olímpicas está presente, de forma aberta ou subliminar, o espírito não olímpico, ou seja, as intenções ideológicas e políticas privatizadas por grande parte de autoridades e do jornalismo majoritário, seja na minimização do papel do Estado – e do governo Lula e Dilma – na formação de atletas que ganharam o ouro como Rafaela Silva, seja na enorme quantidade de atletas brasileiros que compete e tem financiamento do Estado. A falta de “espírito olímpico” está até mesmo na ausência de referências ao momento em que as Olimpíadas foram conquistadas para o Brasil, quando Lula estava cercado de personalidades mundiais, e até mesmo pelo prefeito, Eduardo Paes, do Rio de Janeiro, cidade-sede do evento.

Cristiano Ronaldo e a questão palestina

A criação de Israel em território palestino – tornando refugiados em seu próprio território centenas de milhares de palestinos; os constantes descumprimentos das resoluções da Organização das Nações Unidas desde a criação do Estado de Israel em 1948 em cima de territórios que não eram seus; a negativa em reconhecer um Estado palestino; o desvio das águas do Rio Jordão; a apropriação do golfo de Akaba e do Estreito de Tiran; a invasão da Cisjordânia; o expansionismo que tenta se apropriar de Jerusalém e de vários lugares no Oriente Médio; a discriminação aos próprios judeus orientais em Israel; o massacre de civis; a manutenção de campos de refugiados; o desdém da mídia hegemônica internacional – especialmente a ocidental… Tudo isso contribui para que a questão política – e político-ideológica – esteja presente e à “flor da pele”, inclusive de atletas em Olimpíadas. É claro que o tom de rivalidade deveria ser apenas esportivo, se esportiva apenas fosse a cobertura jornalística das Olimpíadas. Mas a cobertura tem sido também política e ideológica, bastante longe do estrito “espírito olímpico”, até mesmo na ausência de tratamento e de esclarecimentos ou na minimização de determinados fatos.

Manifestações como a do atleta egípcio não são novas. Ao final de um jogo entre Portugal e Israel, Cristiano Ronaldo já havia negado troca de camisa com um atleta israelense. O próprio “CR7” já havia doado uma de suas chuteiras de ouro para leilão/venda a favor dos palestinos. “Ao final da partida entre Portugal e Israel pelas Eliminatórias da Copa do Mundo de 2014, em 25 de março — por quê será que a imprensa daqui não deu a devida importância ao fato? –, o jogador português Cristiano Ronaldo recusou-se a trocar sua camisa com a de um jogador de Israel.” E segue: “O jogo terminou empatado em três gols. Ronaldo poderia estar irritado com o empate em 3 x 3, mas há uma bela atitude pregressa do português: em novembro de 2012, entidades de educação palestinas e vítimas de bombardeios israelenses receberam os recursos da venda da Chuteira de Ouro do atleta português. A chuteira, prêmio recebido em 2011 ao ser eleito o melhor jogador da temporada, é estimada em 1,4 milhão de euros.”

Tais gestos, políticos como devem partir de um cidadão que não é pela metade – mas integralmente um cidadão – esportivo, político, cultural, ideológico – é abafado por grande parte da mídia ocidental, que prefere factoides a fatos e seus significados mais profundos. E os escamoteia. Prefere pobres narrativas a narrativas complexas e esclarecedoras.

O atleta egípcio pode ter errado em um momento em que poderia haver uma simbolização positiva do gesto de abraço. Mas talvez tenha evitado o cinismo, que não impediria a continuidade de guerras e massacres de israelenses contra palestinos, por exemplo, e, portanto, o símbolo talvez seja outro. Que não há espírito olímpico sem confraternização entre povos. E que não há confraternização entre os povos sem justiça social, sem respeito aos povos como o palestino. Não é uma questão menor e que não pode ser tratada em Olimpíada. Uma Olimpíada sem contexto histórico e político, tão comum na cobertura que exalta a superação mas não a história para chegar a ela, é apenas um hiato que em nada ajuda os povos na sua confraternização. Os comentários a que se seguiram em redes sociais dos próprios veículos majoritários de comunicação – como portal Globo, UOL ou Terra – atestam o grau de desinformação sobre a questão palestina e sobre o mínimo do que vem a ser democracia e o tão propalado “espírito olímpico”.

As Olimpíadas – e sua cobertura – poderiam ajudar a entender melhor as diferenças. As coberturas – com raríssimas exceções – excluem as questões políticas, ideológicas, culturais e sociais. E o “espírito olímpico”, como conceito, precisaria de uma contextualização maior e mais esclarecedora do profundo sentido.  Parece estarmos muito longe disso. E o gesto do egípcio, neste aspecto, contribuiu para certa reflexão. Não a das vaias ao egípcio por parte da torcida brasileira, a mesma que tem vaiado – às vezes grosseiramente – adversários de atletas brasileiros e sem nenhum “espírito olímpico”, sob o olhar apático e comentários mais apáticos ainda de jornalistas locais. Assim, o ufanismo, o “patriotismo”, a ideologia, a política, a religião e a cultura se sobrepõem, ainda que nas vaias, ao “espírito olímpico”.

Pobre do “espírito olímpico”… E pobre da mídia que não consegue esclarecer minimamente o que se passa…

Se a guerra é o caminho da paz por outros meios, a paz é o caminho da guerra por outros meios, conforme Alexis de Tocqueville em “A democracia na América”. A paz das Olimpíadas está cheia de mensagens políticas. Entender o que se passa é uma proposta do jornalismo para o presente imediato. Neste aspecto, as Olimpíadas não deixam legados de narrativas esclarecedoras, a não ser o discurso da “superação”, do “heroísmo individual”, das vitórias épicas, sem esclarecer o complexo percurso que levou um atleta à vitória individual e menos ainda para problematizar a trama de relações políticas, ideológicas e comerciais presentes nelas.

Às vezes, a não realização de um gesto protocolar revela muitos outros gestos ocultos. Às vezes, não estender a mão é mesmo sinal de falta de “espírito olímpico” ou descortesia. Outras vezes, porém, “a mão que afaga é a mesma que apedreja” (Augusto dos Anjos).

Algumas referências bibliográficas

CATTAN, Henry. El problema palestino en pocas palabras. Madrid: Fundamentos, 1978.

COLÓQUIO de juristas árabes sobre Palestina. Los palestinos y sus derechos. Madrid: Fundamentos, 1978.

KAPELIOUK, Amnon. O Massacre de Sabra e Chatila. Belo Horizonte: Vega, 1983.

LACAZE, Marie-Thérese. O amor mais forte que a morte: sionismo e resistência palestina. Belo Horizonte: Vega, 1983.

SALEM. Helena. O que é questão palestina. São Paulo: Brasiliense, 1982 (coleção Primeiros Passos).

Tocqueville, Alexis de. A democracia na América. Belo Horizonte: Itatiaia, 1977.

WOLFF, Fausto. Os palestinos: judeus da 3ª guerra mundial. São Paulo: Alfa-Omega, 1986.

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