Dairan Mathias Paul
Mestrando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

Foi com certa surpresa que os ouvintes do Pretinho Básico – programa de entretenimento veiculado na Rádio Atlântida (RBS) e líder de audiência no Rio Grande do Sul – testemunharam um discurso enfático proferido pelo apresentador Alexandre Fetter na última sexta-feira (26). Ora com voz embargada, ora bradando firmemente, Fetter reiterou o velho argumento de que “bandido bom é bandido morto”. A novidade na sua fala, e que causou espanto, foi uma singela sugestão: a de que jornalistas fossem as próximas vítimas dos assassinatos crescentes em Porto Alegre. O motivo seria o comportamento excessivamente crítico dos profissionais em relação à polícia militar gaúcha, a Brigada Militar.

A leitura da “carta aberta contra a violência”, ou “editorialzinho do programa”, como tratou o radialista, chamou atenção para o aumento do número de mortes na capital gaúcha. Fetter cita dois casos recentes: o latrocínio de uma médica, vítima de bala perdida, e o assassinato de uma vendedora que buscava seu filho na escola. “Só os bons estão morrendo”, afirmou o apresentador.

De fato, o contexto em que o discurso de Fetter situa-se é o de uma Porto Alegre com índices de criminalidade crescentes. Na quinta-feira (25), o secretário Wantuir Jacini pediu exoneração do seu cargo – ele comandava a Secretaria de Segurança Pública (SSP). Como resposta à pressão da população, o governador Ivo Sartori solicitou auxílio, no fim de semana, para a Força Nacional, a fim de reforçar o patrulhamento da Brigada Militar. Os agentes circulam pelas ruas da capital desde terça-feira (30).

Dada a complexa situação da segurança pública porto-alegrense, não surpreende que narrativas tentem reduzi-la à mera simplificação de bem versus mal. É precisamente a partir desse ponto que Fetter abre sua carta aos ouvintes: “numa guerra, morre gente dos dois lados. Nós não estamos em guerra – a gente não pode se iludir. Nós somos vítimas de um massacre, porque só os bons estão morrendo”.  A seguir, o apresentador elogia a atuação da Brigada Militar, “apesar de toda a dificuldade, apesar de todo o desmonte, do descaso, do desrespeito, da depreciação técnica e da desvalorização humana”.  E, ainda, ataca políticos que “defendem bandidos” e estão “advogando por miseráveis e ignorantes, que são maioria nesse país, e que neles vão seguir votando”.

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Créditos: André Dahmer

O cerne de seu discurso ocorre em seguida. Transcreverei toda a fala de Fetter para que não se perca o contexto de suas frases, visto que após a repercussão negativa do editorial, o apresentador se disse “covardemente atacado” por pessoas que descontextualizaram sua carta:

“Não é possível que jornalistas e formadores de opinião sigam em seus espacinhos públicos batendo na Brigada Militar e na Polícia, em suas práticas de defesa da sociedade, denegrindo (sic) e manchando a imagem da instituição e de seus efetivos. Eu tenho mais do que vergonha dessas pessoas. Eu tenho nojo dessas pessoas, de gente que eu adoraria citar o nome aqui. Colegas de profissão que trabalham ali no morro do lado, que trabalham aqui em cima, um pouquinho acima. (…) Pra mim, que gente assim sejam as próximas vítimas, que sejam eles a sangrar e a deixar suas famílias enterradas. Enquanto a gente não atualizar a leitura das leis, enquanto a gente não construir presídios que recuperem o criminoso e o reinsiram na sociedade de forma digna, e não que pós-graduem o criminoso, enquanto tivermos entranhadas nas faculdades de Direito e Jornalismo, nos Poderes – especialmente Legislativo e Judiciário – ideais marxistas ultrapassados e comprovadamente falidos, enquanto não permitirem que a polícia mate, assim como permitem que bandidos matem civis e policiais, a gente vai continuar perdendo Grazielas, Cristines, Eduardos, Robertos, pais, mães e filhos.

Se tudo continuar assim, e parece que vai continuar assim, eu quero então poder indicar as próximas vítimas. Eu quero que sejam amigos, parentes e familiares destes que aí estão patrocinando e promovendo um massacre urbano, lá de dentro dos seus gabinetes, com segurança particular na porta, carro blindado, e todo o aparato e segurança que eles precisam. Então que sejam eles as próximas vítimas, seus parentes, seus filhos, seus pais, suas mães, porque vocês merecem isso”.

Não é preciso muito mais do que o bom senso para perceber o absurdo no discurso de Fetter. Da suposta doutrinação marxista nos cursos de Direito e Jornalismo, remontando aos argumentos que fundamentam o projeto Escola Sem Partido (a esse respeito, leia textos de pesquisadores do objETHOS aqui e aqui), à inacreditável provocação direcionada aos jornalistas, Fetter não mede palavras e coloca em xeque o tão flexível argumento da liberdade de expressão. Vale notar que um de seus colegas de bancada, o radialista Porã, ainda tentou discutir com o apresentador para demonstrar o óbvio – direitos humanos são assim chamados porque valem para todos, inclusive os chamados bandidos.

A repercussão do caso

As reações à carta de Fetter não demoraram para aparecer. Uma das postagens que teve maior repercussão nas redes sociais foi a de André Machado, jornalista que já trabalhou na RBS e atualmente está na Rádio Bandeirantes. Sua resposta figurou num texto do blog RS Urgente, de Marco Weissheimer, e que foi republicado no jornal online Sul21.

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Créditos: reprodução/Facebook

Note-se que Machado dá nome aos bois: os jornalistas do “morro ao lado” que Fetter menciona fariam referência aos profissionais do bairro Santo Antônio, onde está localizada a sucursal da Band gaúcha. Da mesma forma, o comunicador da Rádio Atlântida também teria citado colegas da Rede Record como os que trabalham “um pouquinho acima” (tanto a Rádio Atlântida como a Record ficam no morro Santa Tereza).

Além de criticar o simplório argumento de “cidadãos do bem contra bandidos”, Machado também destaca o estranho desejo de Fetter para que jornalistas sejam as próximas vítimas da violência na capital gaúcha: “passa seriamente pela sua cabeça que quando alguém questiona um excesso da Brigada Militar está defendendo bandidos ou denegrindo (sic) a corporação?”.

Curiosamente, no dia seguinte à edição do Pretinho Básico, o jornalista Paulo Germano escreveu em sua coluna de Zero Hora (jornal que pertence à RBS, mesma empresa da Rádio Atlântida) um texto favorável aos direitos humanos. Embora não cite a polêmica carta de Fetter, o colunista ataca argumentos típicos do senso comum que sustentam a máxima “direitos humanos para humanos direitos”.

Outra manifestação aconteceu nessa terça (30), quando professores de Jornalismo da Unisinos assinaram uma carta de repúdio. Vinte e seis docentes se posicionaram contra o editorial-desabafo do apresentador: “preocupa-nos sobremaneira que este tipo de manifestação possa ser entendida como Liberdade de Expressão, princípio inalienável da função jornalística e comunicativa. Há que se distinguir que nenhum direito, como o de opinar, pode ser superior ao direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal (Artigo III da Declaração Universal de Direitos Humanos). Direito este aviltado pelo comunicador, que mostrou desejar destruir seletivamente pessoas e pensamentos divergentes dos seus. É fundamental que se diga que a incitação à violência é crime previsto no Código Penal (Art.286)”.

O texto ainda ressalta um ponto fundamental – a responsabilidade de Fetter: “ficamos atemorizados com o fato de um comunicador que tem o microfone à disposição numa das rádios de maior audiência neste Estado possa estar usando esse espaço para ir contra os princípios que norteiam a profissão jornalística que, em qualquer situação, devem balizar-se por conduta ética”.

O artigo 286 do Código Penal, que se refere à incitação pública de violência, também foi mencionado pelo Sindicato de Jornalistas do Rio Grande do Sul.  A manifestação do Sindjors cobra uma postura do grupo RBS e lembra que o discurso de Fetter ocorre em uma emissora de rádio oriunda de concessão pública.

Anteriormente, o Sindicato postou que não conseguiria tomar providências legais para avaliar a postura de Fetter, uma vez que o profissional não é graduado em jornalismo – logo, não teria como transgredir o Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros. A esse respeito, o jornalista e ex-presidente da FENAJ Celso Augusto Schröder comentou em sua conta pessoal no Facebook: “Fetter, que se autodenomina ‘comunicador’, ou seja, qualquer coisa que não se enquadra nas profissões de jornalista ou de radialista, infelizmente está se tornando a regra num ambiente de exceções. Mas apologia à violência e ao ódio estão previstos na legislação da radiodifusão e na cível e penal. Alexandre Fetter é muito mais do que simplesmente um ‘comunicador’ irresponsável e anti-ético, assim como a empresa que o amparou”.

No entanto, a repercussão negativa não se restringiu apenas aos jornalistas: boa parte dos ouvintes do programa também se sentiu ofendido pelo discurso de ódio do apresentador. Os comentários críticos foram feitos em uma postagem do Pretinho Básico no Facebook, onde o programa costuma ser transmitido em vídeo ao vivo. As reações, porém, estão perdidas, uma vez que o post foi excluído. Não somente ele: todos os registros que envolvem a edição do dia 26 estão apagados. Um dos casos é o post no blog do programa: é possível ver apenas a chamada no Facebook – “Fetter lê carta aberta e Pretinhos choram e desabafam sobre violência em Porto Alegre” –, mas o link está quebrado. Curiosamente, essa postagem, ao contrário da que foi apagada, possui mais comentários favoráveis ao apresentador. Outro registro excluído foi o podcast, que normalmente é colocado em uma conta no Soundcloud do Pretinho Básico. A edição das 13h do dia 26 não está lá.

Por enquanto, estão disponíveis dois vídeos no YouTube: um deles é apenas áudio; outro, postado abaixo, contém filmagens da transmissão ao vivo no Facebook. Desse modo, são materiais que correm o risco de serem excluídos a qualquer momento. Além disso, os dois trechos mostram apenas a fala inicial de Fetter, excluindo a breve contraposição feita pelo companheiro de bancada Porã contra o argumento de “direitos humanos para humanos direitos”.

Por fim, nessa segunda-feira (29), Alexandre Fetter abriu a edição das 13h do Pretinho Básico com um pedido de desculpas às avessas – ao contrário do outro programa, o áudio deste está disponível no Soundcloud. Fetter menciona que pode ter sido “mal interpretado” e que muitos o apedrejaram, descontextualizando sua fala. O apresentador deixa claro que não tinha a intenção de desejar a morte ou o “mal de alguém”, muito embora tenha dito o contrário em sua carta aberta.

Essa não é a primeira retratação do apresentador. No começo do ano, Fetter sugeriu que seus ouvintes cuspissem no ex-presidente Lula. Após uma resposta do deputado federal Paulo Pimenta (PT), o comunicador pediu desculpas e citou que não desejava afrontar os valores do código de ética do Grupo RBS.

O avesso do avesso do jornalismo

A respeito das pessoas que apoiaram Fetter, podemos encontrar muitas manifestações do tipo em um post do Sindicato dos Jornalistas do Rio Grande do Sul – um dos mais curtidos foi escrito por um jornalista, que acusa a entidade de proteger bandidos. Os demais enalteciam o discurso de ódio do comunicador, pregando violência e rejeitando o repúdio do Sindicato, por entenderem que se trata de um cerceamento à liberdade de expressão.

É difícil mensurarmos o efeito que o discurso de Fetter pode provocar nos ouvintes do Pretinho Básico. Pode-se argumentar, inclusive, que a carta aberta não teria tanto poder a ponto de “induzir” a população a cometer algum crime. Mas o problema não reside aí.

Cabe lembrar que a mídia, ou, mais especificamente, o jornalismo, é um dos construtores da realidade social. Um, dentre vários outros atores. Isso significa que a influência de Fetter não é diretamente causal, mas permeada por outras forças que compõe a sociedade – forças políticas, históricas, e assim por diante.

O discurso midiático, por sua vez, não funciona sozinho, como pura invenção subjetiva. Ele recorta e seleciona algo de uma “realidade primária” – uma realidade objetiva – e reconstrói o acontecimento. Nesse processo, acrescenta sua dose de subjetividade, que surge como condição necessária para dar sentido ao fenômeno.

Fetter não está mentindo quando fala de uma realidade violenta que paira em Porto Alegre. Há, de fato, números que comprovam o aumento da criminalidade não somente na capital gaúcha, mas em todo o estado. Por outro lado, a causa desse processo, bem como sua possível solução, são meras especulações do locutor. É aqui que reina o problema: Fetter não reproduz nada além do senso comum – o velho e batido argumento de que bandido morto é bandido morto, uma estratégia discursiva que ganha forças precisamente por sua repetida reiteração.

Ora, o jornalismo opera na lógica do senso comum, como diz Adelmo Genro Filho: utiliza sua linguagem, parte da realidade comum a todos. Mas o discurso jornalístico deve elevar-se para além dessa condição – deve pensar contra os fatos, escreve Sylvia Moretzsohn, no sentido de superar o senso comum e esclarecer os cidadãos. No contexto político atual, não causa estranheza que o discurso de Fetter seja assimilado por boa parte dos ouvintes do programa. Ele casa, afinal, com o que outros políticos da “bancada da bala” já dizem há tempos – políticos que estão num crescendo de popularidade.

Mas Fetter não estaria apenas expressando sua opinião? Não estaríamos cerceando sua liberdade caso o puníssemos de alguma forma? Naturalmente, não. Fetter leu o que chamou de um “editorial”, uma “carta aberta” – o que nos permite entender que ele falou por toda a redação do programa. Depois, disse que estava desabafando. Se fosse o caso, e realmente foi, seu desabafo deveria ter sido feito em âmbito privado. A rádio Atlântida é uma concessão pública, como lembraram os críticos da carta aberta, o que implica responsabilidades específicas que vão além do mero exercício da liberdade de expressão. Fetter pode não ser jornalista formado, mas utiliza um local privilegiado para opinar, discursar e, eventualmente, influenciar. Estamos falando de poder: o comunicador possui alcance de fala, seu programa é líder de audiência e quaisquer opiniões emitidas que transgridam algum código de ética (inclusive de sua empresa) podem ser contestadas. É por isso que Fetter não pode “apenas” desabafar, como “qualquer pessoa”, como um “representante da sociedade gaúcha”, tal qual atestavam os comentários favoráveis ao apresentador.

Para além dessa restrição, se focarmos no conteúdo do que foi dito, veremos que não se apresenta um argumento bem fundamentado, mas apenas apelos emocionais. Nesse ponto, Fetter se junta a uma série de colegas que cometem violações diárias no jornalismo brasileiro, especialmente o televisivo e o de rádio, com ênfase em temáticas policialescas. Uma pesquisa da ONG ANDI, por exemplo, monitorou 28 programas durante um mês, em dez capitais brasileiras. Cerca de 4500 violações de direitos foram identificadas no período, além de 15.761 infrações a leis brasileiras e multilaterais. A incidência maior acontece em programas de TV. Aqui no objETHOS, você pode ler análises detalhadas feitas pelo professor João Somma Neto sobre os casos televisivos no Paraná – veja aqui e aqui.

Grosso modo, portanto, não estamos falando de nada muito novo dentro do quadro midiático brasileiro, recheado de programas policiais com apresentadores que esbravejam contra a “bandidagem”. Porém, o caso de Fetter vai além disso e defende o “avesso do avesso”: um jornalismo que seja refém dos discursos oficiais da Brigada Militar. Criticar seu comportamento seria cair no outro lado, a favor da bandidagem.

Ora, o apresentador não precisaria de muita pesquisa para saber que as Brigadas Militares, no Rio Grande do Sul, não são passíveis de uma defesa cega. Nove em cada dez denúncias de corrupção envolvem policiais gaúchos, conforme levantamento do Departamento Estadual de Gestão do Conhecimento para a Prevenção da Corrupção. Protestos contra a violência de brigadianos também não ocorrem à toa. Segundo dados do Mapa da Segurança Pública e Direitos Humanos em Porto Alegre, o número de denúncias recebidas contra a Brigada Militar aumentou 147,7% entre 2012 e 2013 – de 65 para 161. Por outro lado, as exonerações de policiais diminuíram de 33 para 14. Dados sobre a aplicação de punições não são informados, o que revela a parca transparência da instituição.

Sem qualquer constrangimento, Fetter atenta contra colegas de profissão que exercem a postura mais clássica do jornalismo: a que costumeiramente se chama de “fiscalizador dos poderes”. Em que pese sabermos que se trata mais de um mito idealizador – afinal, o jornalismo também está permeado por suas próprias relações de poder e muitas vezes entra em contradição com aquilo que deveria fiscalizar –, não deixa de ser curioso que alguém contrarie abertamente uma das premissas mais básicas da profissão.

Ao criticar colegas de profissão que não se deixam levar pelas versões da Brigada Militar (em uma posição semelhante à de Felipe Daroit, companheiro de empresa na Rádio Gaúcha), Fetter contraria uma postura básica: a de desafiar autoridades e discursos oficiais. Cabe pensar aqui: o que Fetter entende por jornalismo? E por que ele recebeu apoios tão efusivos de alguns jornalistas?

Posturas como essa merecem discussões entre profissionais e estudantes, não apenas para refletirmos sobre a espantosa atitude de Fetter. Para além do papel normativo que o caso nos traz, no fim das contas, o apresentador nos ajuda a pensar o que é o próprio jornalismo – uma profissão que se orienta muitas vezes por intuição e “faro jornalístico”, mas que desvela constrangimentos, ideologias, rotinas organizacionais e, claro, condutas éticas.

Referências

GENRO FILHO, Adelmo. O segredo da pirâmide: para uma teoria marxista do jornalismo. Série Jornalismo a Rigor. V. 6. Florianópolis: Insular, 2012

MORETZSOHN, Sylvia. Pensando contra os fatos. Jornalismo e cotidiano: do senso comum ao senso crítico. Rio de Janeiro: Revan, 2007.

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