Jeana Laura da Cunha Santos
Pós-doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Na semana que passou, acontecimentos impactantes na política brasileira apimentaram o jornalismo de opinião praticado pelos veículos de comunicação. Charges, editoriais, artigos, comentários e até notícias e reportagens que se diziam isentas apontaram suas angulagens tendenciosas para apenas um lado da história. A história do presente reedita o passado. O golpe do passado se reinscreve no presente.

Este comentário confronta as duas linhas temporais da história através da análise das capas e dos editoriais publicados pelo jornal O Globo no dia seguinte às destituições dos respectivos presidentes da República: João Goulart em 1964 e Dilma Rousseff em 2016. Estandarte do modelo neoliberal e porta-voz das elites econômicas e políticas do país, O Globo revela através de tais páginas históricas que a sua face opressiva e reacionária não é matéria nova.

 O Globo e o golpe militar de 64

Começos de abril de 1964. Um dia após o golpe que depôs o presidente João Goulart, a primeira página de O Globo do dia 2 de abril desfralda a bandeira golpista professando no “olho” da manchete que “a democracia está sendo restabelecida”. No pomposo título do editorial, uma promessa de que dias melhores se seguirão: “Ressurge a democracia”. No primeiro parágrafo, uma saudação entusiasta “ao heroísmo das Forças Armadas, que obedientes a seus chefes demonstraram a falta de visão dos que tentavam destruir a hierarquia e a disciplina, o Brasil livrou-se do Governo irresponsável, que insistia em arrastá-lo para rumos contrários à sua vocação e tradições”. E faz um alerta aos incautos que porventura ainda não tivessem se convencido da necessidade de tal medida: “Se os banidos, para intrigarem os brasileiros com seus líderes e com os chefes militares, afirmarem o contrário, estarão mentindo, estarão, como sempre, procurando engodar as massas trabalhadoras, que não lhes devem dar ouvidos. (…) Mais uma vez, o povo brasileiro foi socorrido pela Providência Divina, que lhe permitiu superar a grave crise, sem maiores sofrimentos e luto. Sejamos dignos de tão grande favor”.

press-o-globo-2-de-abril-de-1964

Sabe-se, pelo retrospecto do tempo que passa e que nos permite olhar para trás, que o que se seguiu depois foi uma ditadura de 21 anos que baniu os direitos humanos, perseguiu, torturou, assassinou e censurou opositores, instaurando um clima de terror sem precedentes na história do Brasil e no qual o Grupo Globo esteve envolvido até a medula, estreitando seus laços com os governos militares que se seguiriam.

Este conluio foi investigado e trazido à luz pelo jornalista Daniel Herz no livro “A história secreta da Rede Globo”, de 1987, um clássico para entender os interesses da mídia também no golpe de 2016. Amparado em documentos oficiais, em depoimentos e na própria imprensa, procurou desvendar as relações do Grupo com os interesses políticos e econômicos vigentes nos vintes anos do regime militar. O autor desvela o quanto o papel político deste conglomerado complementa seu papel econômico, numa parceria entre as forças que lideraram o golpe, os interesses da burguesia industrial e financeira e o capital transnacional. Para tanto, a Globo aliou-se às correntes que prepararam minuciosamente a derrubada do governo Goulart e a ocupação do Estado.

Mais de meio século depois da derrubada de Jango do poder, a informação continua travestida de propaganda em favor da deposição de um presidente. Desta vez, de uma presidenta. Mais de meio século depois da derrubada de Jango, as organizações Globo festejam o golpe. Desta vez, não só pelo jornal, mas pela TV e pela Internet. Mudam-se os meios, repetem-se as mensagens.

O Globo e o golpe midiático de 2016

01 de setembro de 2016. O Globo estampa na primeira página manchete informando que “Dilma sofre impeachment”. A seguir, com a pergunta “E agora Temer?”, cobra do presidente empossado o cumprimento de “compromissos”. Como um dos grandes articuladores do golpe, elenca uma série de medidas que Michel Temer deverá cumprir daqui para frente: aprovar o ajuste fiscal e as reformas trabalhista e previdenciária, atrair investimentos, destravar concessões, enfrentar oposição anunciada por Dilma, entre outras.

capa globo, 1-9-16

Não é a toa que o jornal se sinta à vontade para ditar a agenda liberal de Temer. Desde o resultado das urnas em 2014, com a vitória de Dilma Rousseff – inesperada para grande parte da mídia e que fez murchar abruptamente rostos antes confiantes em sua derrota (como grande parte dos colunistas do Grupo Globo) – o inconformismo generalizou-se na mídia, no empresariado nacional e em parlamentares pouco afeitos ao processo democrático. A partir daquele momento, iniciou-se um processo para evitar qualquer vestígio de governabilidade, com campanhas sistemáticas de difamação contra o governo eleito, de desmerecimento de programas sociais e de projetos bem sucedidos da presidenta reeleita. Tal processo midiático teve retaguarda no Judiciário, sempre se destacando os feitos dos derrotados e desqualificando os atos e projetos dos eleitos. Iniciou-se um “golpe branco”, expressão cunhada desde pelo menos a Segunda Guerra mundial e cujo significado vem da ideia de que, sem precisar de armas e militares, orienta-se a opinião pública, forjam-se dados e fatos e angula-se a partir de uma lógica de aniquilamento do governo para justificar que não há mais condições de governar, seja por meio da criação de “ilegalidades” cometidas, seja por meio da invenção da falta de apoio popular ou da falta de governabilidade. O apoio se dá por meio de campanhas de propaganda, travestidas de jornalismo, na mídia; de conluio com parte do Judiciário; de apoio do empresariado que pensa sempre em aumentar suas riquezas; e, finalmente, de parlamentares de discurso e votação cínicos, travestidos de defesa dos interesses da Nação quando, na verdade, pensam em seus cargos, em seus novos cargos e em seus benefícios futuros.

Se o editorial do dia 2 de abril de 1964 bradava que os brasileiros deveriam agradecer aos “bravos militares” por terem sido salvos da “comunização”, o do último dia 01 de setembro decreta como vilão o “lulopetismo”. E assim como o editorial pós-golpe de 64 faz alerta à população para que não se deixe iludir pelas vozes dos “banidos”, o editorial de agora desaconselha “de vez projetos bolivarianos como o do lulopetismo”, alertando que isso “serve de aviso geral à nação”.

O oitavo parágrafo do editorial de 1964 diz que, “atendendo aos anseios nacionais, de paz, tranqüilidade e progresso, impossibilitados, nos últimos tempos, pela ação subversiva orientada pelo Palácio do Planalto, as Forças Armadas chamaram a si a tarefa de restaurar a Nação na integridade de seus direitos, livrando-os do amargo fim que lhe estava reservado pelos vermelhos que haviam envolvido o Executivo Federal”. Não é preciso ir tão longe para atualizar o sentido do tempo que se repete como farsa. Basta trocarmos “Forças Armadas” por “Grupo Globo” e colocaríamos o editorial de ontem nas linhas do atual. Mais de 50 anos depois do golpe de 64, entre a primeira sentença (nos dois sentidos que a palavra comporta) e a sua versão atualizada, mudam-se os sujeitos, permanecem os predicados.

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