Amanda Miranda
Doutoranda no POSJOR e professora no curso de Jornalismo do Ielusc

Um dia após a votação do impeachment da então presidenta Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados, em 17 de abril, escrevi aqui sobre a narrativa dos grandes jornais ao longo daquela semana, que apresentavam um discurso bastante homogêneo em torno da urgência de um novo governo, ainda que ele não fosse legitimado pelo voto popular.

Coincidentemente, assumo a missão de escrever este texto uma semana após a cassação do mandato do deputado Eduardo Cunha (PMDB), um dos protagonistas no processo de impeachment e um agente público que acumulou controvérsias nos últimos meses. Naquele texto, cheguei a observar o ocultamento do então presidente da Câmara da narrativa do impeachment, pois elevar um réu da Lava Jato à posição de herói seria como deslegitimar o processo.

Entre um dos tantos poderes da imprensa hegemônica, um se destaca e intensifica os debates acerca da participação dos jornais na formação da opinião pública: a formatação de personagens que, mais ou menos estereotipados, pulverizam a imagem de ídolos, mártires, vilões ou qualquer outra categoria da ficção que possa ser transposta para o mundo fático. Cunha também foi relacionado a essas facetas durante a sua trajetória e oscilou entre elas durante os últimos meses, quanto mais ou menos necessário era para a articulação do fim do mandato de Dilma.

Catorze notícias publicadas em jornais online e portais entre fevereiro de 2015 e setembro de 2016, selecionadas a partir do seu gancho jornalístico, ajudam a reconstituir como ocorreu a construção de um personagem cujo poder político e movimentos estratégicos sempre foram reconhecidos pelos seus aliados, adversários e pela própria imprensa.

O que se questiona, aqui, é como essa imagem nasceu positiva, se consolidou e passou a ser desconstruída lentamente após a largada nos processos de impeachment da presidenta deposta Dilma Rousseff. Uma imagem que descreveremos a partir da comparação com três arquétipos: a do líder vencedor, a de um herói e, por último, a de um vilão.

Cunha vencedor

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Fonte: Câmara dos Deputados

A imagem do deputado vencedor começou a ser construída já na primeira derrota que ele impôs ao mandato de Dilma Rousseff, logo que foi eleito presidente da Câmara, quebrando um acordo entre PT e PMDB para se revezarem na função. Eleito em primeiro turno, ele assumiu o compromisso público de se manter em posição de neutralidade, após uma intensa disputa com Arlindo Chinaglia (PT).

À imprensa, destacava que “um congresso independente não significa oposição” e que ter o Congresso e o Executivo sob o comando de um mesmo partido representaria submissão. Sua figura já começava a se projetar como a de uma liderança capaz de levar instabilidades ao governo – e muito embora já se soubesse que sua biografia estava recheada de polêmicas, notícias como a da Revista Exame acabaram por ocultar controvérsias como as suspeitas de corrupção na Telerj, onde atuou na década de 1990.

A narrativa se amparava, aqui, na imagem de um vencedor, que conseguiu impor uma derrota a um governo já fragilizado. Sua eleição representou não só a traição de parte da base aliada ao mandato de Dilma, como também a ascensão ao protagonismo de um novo líder. Seu discurso de “independência” rapidamente cativou a imprensa hegemônica e demorou pouco para começar a incendiar a república, como na entrevista ao O Globo em que disse que o PMDB “fingia” estar no governo. As perguntas, bastante sugestivas, indicam um “bate-bola” entre repórter e o deputado: um dá o passe para o outro marcar o gol. (“O senhor diria que governo está em colapso político e gerencial?”; “Dilma está conseguindo governar?”; “De onde veio a crise?” e “A presidente não soube manter a base política construída por Lula?” são apenas uma sequência dessas perguntas).

Na narrativa em que Cunha era projetado como vencedor, a imprensa não se interessou em detalhar suas denúncias, revelar os bastidores de negociações que comandava e tampouco se permitiu questionar sua legitimidade diante de um fato público tão relevante como é um processo de impeachment. Ao contrário, no meio de tantas polêmicas com relação às pautas-bombas, continuou projetando a imagem de um político independente e vencedor, capaz de impor derrotas vexatórias a um governo prestes a implodir.

Cunha herói

A construção da imagem de Cunha como um herói ocorreu de forma simultânea à projeção de um líder vencedor, independente e capaz de deteriorar o governo de Dilma Rousseff. Seu perfil audacioso, sua característica de líder articulador e o deboche e a arrogância com que se manifestava publicamente sobre o cenário político não levaram à imprensa a uma cobertura mais crítica: ao contrário, sua personificação foi positiva.

A reportagem da revista Época de outubro de 2015 é um dos grandes exemplos desse movimento. Embora tente fazer alguns contrapontos à polêmica trajetória de Cunha, ele é qualificado como “sereno”, como quem “tem frieza” e como quem tem respeito dos aliados (sua “rede de proteção”). As técnicas de elaboração do texto jornalístico também beneficiam Cunha: não é ele quem tem de se defender de um processo, são os aliados que precisam livrá-lo. As técnicas de edição e uso de imagem também mostram a estratégia da revista em personificar Cunha como um homem poderoso e equilibrado (“O senhor do impeachment”) e Dilma como uma figura a ser negada.

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É também nessa época que sua figura começa a ganhar projeção junto a movimentos a favor do impeachment. Essa imagem, que circulou pelas redes sociais sucessivas vezes também como uma contra-narrativa, mostra Cunha rodeado por lideranças do Movimento Brasil Livre (MBL), deputados de extrema-direita como Jair Bolsonaro e lideranças do PSDB, um dos principais partidos de oposição à Dilma. Apesar do seu conteúdo simbólico, a fotografia não circulou junto à imprensa hegemônica, responsável pelo fortalecimento da imagem pública de Cunha.

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Fonte: Ed Ferreira/FolhaPress

Mas o ápice da projeção política do ex-deputado ocorreu mesmo quando ele aceitou um dos pedidos de impeachment contra a presidenta Dilma Rousseff. Antes de acatar a solicitação encaminhada por Miguel Reale Junior e Janaina Pascoal, ele evidenciou, por meio de declarações públicas, seu poder diante do fato. O autoritarismo da expressão utilizada em nota, de que “cabe a ele a decisão sobre o andamento dos processos”, não levantou dúvidas junto à imprensa hegemônica, o que também reforça nossa hipótese de que não era um bom momento para desconstruir Eduardo Cunha.

Quando finalmente aceitou abrir o processo de impeachment, a narrativa elaborada pela imprensa hegemônica sinalizava para um fato público notável. Já na narrativa daqueles que sentenciaram um golpe parlamentar, tratava-se de um caso claro de vingança, que começou quando a bancada do PT anunciou que votaria contra Cunha no seu processo junto ao conselho de ética da Câmara.

Como se não fosse suficientemente controverso um presidente da Câmara investigado junto ao Conselho de Ética da casa ser o responsável por desencadear um processo de impeachment, a relação entre o posicionamento da bancada petista e o início do processo foi tratada com normalidade. Ao que parece, a imprensa hegemônica também preferiu ocultar da sua estória a imagem de um Cunha vingativo e imoral.

Cunha vilão

Quem acompanha os fatos públicos recentes do país dificilmente não verá Eduardo Cunha como um vilão. Investigado por ter contas não declaradas, por receber propinas, responsável por negociatas e acordos políticos duvidosos, um tanto cínico e debochado quando se defende publicamente. Essas facetas de Cunha foram uma a uma apresentadas pela imprensa e começaram a circular socialmente especialmente após o processo de impeachment já ter passado pela Câmara.

Muito embora as investigações contra ele já fossem noticiadas um ano antes, não conseguiram arranhar sua imagem. As denúncias, ainda que em um volume assombroso, não tinham a mesma força que as pedaladas fiscais de Dilma. Ninguém queria de fato tirar Eduardo Cunha do centro das decisões políticas antes de cumprir sua missão.

O Estado de São Paulo, por exemplo, ferrenho opositor do mandato de Dilma, fez um especial categórico e com título bastante direto: A vida no crime de Eduardo Cunha – função pública em benefício privado. A publicação foi ao ar em setembro, às vésperas da cassação do mandato do deputado antes projetado como ídolo por sua atuação no impeachment de Dilma.

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Entre todas as acusações e suspeitas elencadas pelo jornal, uma omissão: não está registrada sua participação como protagonista no impeachment. O que em outro cenário ou com outros personagens poderia significar a deslegitimação de todo o processo, na imprensa hegemônica não é sequer digno de nota.

No mesmo jornal, a ligação de Cunha ao impeachment foi exposta de forma bastante enfática no dia após a cassação, com o sugestivo título de “Câmara cassa mandato de Eduardo Cunha, algoz de Dilma no impeachment”. Na narrativa, nenhuma menção ao fato de o processo ter sido aceito em retaliação ao posicionamento da bancada do PT na comissão de ética. Nenhuma contrariedade com o fato de um deputado investigado (e agora vilão cassado) ter conduzido um processo de consequências históricas para o país.

À sombra da narrativa

A narrativa pressupõe alguém contando algo para outrém. A forma como o narrador escolhe apresentar seus personagens tem a ver com o tom que quer dar à estória e com a forma como quer conduzi-la até seu ápice e até seu desfecho final.

Na estória contada pela imprensa hegemônica, aqui vista como um narrador potente por alicerçar-se em cânones de objetividade, imparcialidade e verdade, Eduardo Cunha foi um vencedor que impôs derrotas à Dilma Rousseff (um algoz, como categorizou o Estado de São Paulo), um herói por eliminá-la das estruturas do poder e um vilão após ser afastado da Câmara – coincidentemente ou não pouco tempo depois de liderar a votação do impeachment.

À sombra da narrativa assumida pela imprensa hegemônica a respeito de Cunha pairam centenas de “não-ditos”, que é aquilo que se omite do discurso jornalístico. Um deles é sobre a legitimidade de um deputado que agora está cassado ter conduzido um processo de impeachment meses antes da sua expulsão, fato que sequer foi questionado nos jornais. O outro é sobre o porquê de o processo não ter ocorrido antes, dado o volume de investigações. O que alguns dirão que foi motivado pelas sucessivas obstruções regimentais de Cunha na Câmara também pode ser lido como falta de apoio da opinião pública – esta tão bem conduzida pela imprensa em fatos públicos recentes.

Por fim, há de se questionar também a intempestiva “canonização” do parlamento que cassou o algoz de Dilma. Ora, Cunha foi eleito presidente por esses mesmos deputados que o cassaram. Também esses mesmos deputados deram aval às pautas bombas e ao processo de impeachment. Seriam eles vencedores, heróis ou vilões? Mas tudo parece dentro da normalidade no ponto final dessa narrativa cheia de sombras e controvérsias. A estória que a imprensa hegemônica escolheu contar tem o desfecho exato que ela queria e previu.