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Samuel Lima e Gislene Silva (Foto: Dairan Paul)

Crítica de mídia, ética na cobertura jornalística e o direito à defesa foram os temas de destaque do evento que celebrou os sete anos do objETHOS, grupo de estudos formado por pesquisadores em jornalismo, na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e coordenado pelo professor Rogério Christofoletti. O evento, realizado com apoio da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) e o Instituto de Defesa do Direito de Defesa (IDDD), reuniu estudantes e profissionais da área. “Apesar do aniversário, não foi um evento auto-celebrativo. Viemos para discutir crítica de mídia”, destacou o professor. A proposta foi debater temas centrais para o grupo, que atua como um observatório de mídia, com atenção à ética jornalística.

Na mesa de abertura, a professora Gislene da Silva, do Programa de Pós-Graduação em Jornalismo (PósJor), trouxe dados da recém-concluída pesquisa de pós-doutorado, na Universidade de Complutense (Madrid). Ela selecionou mais de 700 artigos para, após uma filtragem, analisar 21 que criticavam a cobertura jornalística. Seu interesse foi identificar de que forma a crítica se apresentava. “Os objetivos e as hipóteses nem sempre são críticos. A criticidade se dá nas escolhas dos temas”, pontuou. A professora, que também vai analisar revistas acadêmicas no Brasil, está interessada em debater a crítica de mídia “como um campo de investigações e um modo de ensinar o jornalismo”.

O professor Carlos Camponez, da Universidade de Coimbra, levou dados sobre regulação e deontologia do jornalismo em Portugal. Ele lembrou que os jornalistas portugueses se preparam para a realização do congresso nacional, cuja última edição ocorreu em 1997, e que estas devem ser questões centrais para o debate. Segundo ele, a desregulamentação e as privatizações dos últimos anos impactaram nas discussões sobre crítica e ética dos meios. “Os jornalistas estão a perder o controle dos seus mecanismos de auto-regulação”, pontuou.

O professor Samuel Lima, pesquisador do objETHOS, fez um balanço da atuação do grupo, com um resgate da origem e trajetória do observatório. Além disso, lembrou que o jornalismo atua na produção do conhecimento, mas que erros e deslizes éticos levam à “insegurança informativa”. O professor destacou a importância de se fazer crítica de mídia, considerando um cenário em que apenas dois jornais brasileiros utilizam o recurso do ombudsman. “O poder midiático é o único sem contra-poder”, disse, lembrando um texto de Ignácio Ramonet.

Direito à defesa

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Boabaid, Träsel e Dall’Acqua (Foto: Dairan Paul)

A Abraji e o Instituto de Defesa do Direito à Defesa (IDDD) também participaram do evento, com discussões sobre ética na cobertura jornalística e sobre questões que relacionam o jornalismo à justiça. O advogado Rodrigo Dall’Acqua (IDDD) apontou os conflitos que podem surgir dessa relação, cujos interesses são distintos, mas assegurou que um é importante para o funcionamento do outro. Ao usar como exemplo coberturas consagradas, como a do Mensalão e da operação Lavo-Jato, mostrou como a imprensa pode atuar de forma a não prejudicar o direito à defesa, informar com base no interesse público e não influenciar nos júris. Ele também reforçou que os jornais têm um importante papel de fiscalização a cumprir. “É preciso ter coragem para denunciar o judiciário”, comentou.

Marcelo Träsel, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e representante da Abraji, falou sobre a importância do jornalismo investigativo nesse cenário, mas o distinguiu do “jornalismo sobre investigações”, que costuma incorrer em falhas éticas. “Os jornalistas estão sempre no fio da navalha quando cobrem grandes casos e crimes. Há bons trabalhos, mas também muitos abusos”, disse. Para ele, as soluções podem ser compartilhadas. “Se um promotor divulga um nome, por exemplo, os jornalistas podem escolher não divulgá-lo”, disse, ao advertir que a presunção da inocência também está no Código de Ética dos jornalistas brasileiros.

O advogado Renato Boabaid, representante da Associação dos Advogados Criminalistas do Estado de Santa Catarina (AACRIMESC) e do Instituto Brasileiro de Ciências Criminais (IBCCRIM), encerrou o debate afirmando que “acontecimentos midiáticos podem mostrar desrespeito ao processo legal e ao contraditório”. Ele construiu sua argumentação para destacar a importância de os jornalistas serem críticos, mas sem comprometer o direito à defesa, fundamental em qualquer processo. “A ação sensacionalista da imprensa pode, em alguns casos, influenciar juris populares”, advertiu.

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