Leonel Camasão
Mestrando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Eles usam a internet como plataforma principal, buscam auto-financiamento a partir de assinaturas e doações e optaram por produzir algo que convencionamos chamar de “jornalismo independente”. Juntos, os portais Desacato, Catarinas e Farol Reportagem somaram mais de 70 mil acessos no mês de setembro de 2016. Ainda é pouco, se comparado a veículos tradicionais como Diário Catarinense (2,1 milhões) e Notícias do Dia (934 mil). Mas pelo menos duas dessas iniciativas não possuem nem seis meses de vida, e já ganharam um espaço no ecossistema de notícias da capital.

O ano de 2016 tem sido repleto de acontecimentos de grande interesse jornalístico, desde o impedimento da presidenta da república até as Olimpíadas no Rio de Janeiro. Mas outro evento também concentra muita atenção das organizações jornalísticas neste ano: as eleições municipais. A pergunta que fica, portanto, é: como estes três veículos cobriram (ou deixaram de cobrir) as eleições em Florianópolis?

Partiremos da premissa que estes veículos, em comparação aos tradicionais, estão em ampla desvantagem estrutural: são menos recursos, equipes enxutas, menos tempo de existência na cidade, desconhecimento de que existem pela maioria massiva da população, entre vários outros problemas. Ainda assim, é interessante observar qual a contribuição que trouxeram para o cenário midiático da capital na cobertura de um evento tão importante quanto as eleições municipais.

Catarinas

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O Catarinas objetiva ser um portal de notícias especializado em feminismo e gênero. É formado por um time de três jornalistas e uma consultora de projetos. No ar desde 28 de julho deste ano, foi viabilizado a partir de crowdfunding, onde arrecadaram quase R$ 17 mil. Em sua página, consta uma lista de apoiadores, entre eles, pessoas comuns, sindicatos, federações, bares, entidades culturais, entre outros.

Ao buscar o termo “Eleições 2016” no portal, poucos artigos sobre o tema são indexados. Pelo menos dois destacam protestos pelo “Fora Temer” em Criciúma e Florianópolis. Entrevistas com especialistas e pesquisadoras sobre gênero e artigos de opinião sobre a participação das mulheres na política também aparecem, mas com pouco apelo local. Efetivamente, poucas matérias estão diretamente ligada às eleições numa perspectiva mais factual: uma entrevista com a candidata Angela Albino (PCdoB) e uma análise sobre o baixo número de cadeiras obtidas por mulheres nas eleições em Santa Catarina. O Catarinas também publicou uma entrevista com a pesquisadora Simone Lolatto, da UFSC, sobre seu trabalho de doutorado que investiga a trajetória das (poucas) vereadoras já eleitas e Florianópolis.

Buscando por outros termos, o leitor descobre que o Catarinas dedicou mais reportagens às eleições 2016. Além de Angela Albino, os candidatos Elson Pereira (PSOL), Gean Loureiro (PMDB) e Murilo Flores (PSB) deram entrevista ao portal sobre sua plataforma para as mulheres. O veículo também explica como essa entrevistas foram feitas, e que foi dada o espaço para as sete candidaturas majoritárias, mas três delas optaram por não responder. Ironicamente, duas das três das candidatas mulheres à Prefeitura de Florianópolis (Angela Amin, do PP, e Gabriela Santetti, do PSTU), se negaram a dar entrevista para o único portal de jornalismo especializado em gênero da cidade.

O Catarinas ainda publicou matéria sobre a condenação de Angela Amin (PP) no Supremo Tribunal de Justiça, que suspendeu seus direitos políticos por cinco anos. Posteriormente, o STJ reviu a decisão, mas o Catarinas não produziu material próprio sobre o assunto.

Farol Reportagem

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O Farol Reportagem busca produzir jornalismo com “informação de qualidade, relevante e de forte mobilização social”. Idealizado pelo jornalista Lúcio Lambranho, o foco do portal são matérias investigativas, em geral baseadas em investigações, documentos públicos obtidos por meio da Lei de Acesso à Informação, entre outros.

Durante as eleições, o Farol abordou três temas principais. Participação feminina na disputa eleitoral, a evolução patrimonial dos vereadores candidatos à reeleição e ainda as pendências judiciais dos dois candidatos que passaram ao segundo turno: Gean Loureiro (PMDB) e Angela Amin (PP).

Em parceria com o Curso de Jornalismo da UFSC, o material sobre a participação feminina dá materialidade um problema já conhecido da sociedade brasileira: a baixa participação das mulheres na política e a prática recorrente de “candidatas laranjas” para cumprir o mínimo exigido em lei: cada gênero só pode ocupar no mínimo 30 e no máximo 70% das vagas em chapas proporcionais. A cobertura obtém pérolas interessantes, como uma candidata que publicamente fazia campanha para outro candidato homem, e o fato do Partido da Mulher Brasileira (PMB) não ter indicado nenhuma mulher para concorrer. Em outro texto, o Farol faz um histórico sobre as mulheres que ocuparam o parlamento da cidade.

Em “Patrimônio de vereadores que buscam reeleição cresceu até seis vezes”, o site reúne informações públicas sobre a evolução patrimonial de boa parte dos parlamentares e abre espaço para que todos eles comentem, prestando um serviço de transparência e orientação do leitor sobre o legislativo não visto nos veículos tradicionais. As reportagens também foram produzidas em parceria com o Curso de Jornalismo da UFSC.

Talvez a maior contribuição deste veículo foi a reportagem exclusiva sobre a participação de Gean Loureiro no esquema conhecido como “Ave de Rapina”, que foi solenemente ignorada pela imprensa tradicional. A partir de documentos da Polícia Federal, o Farol divulga uma planilha de anúncios em placas e similares para Gean, então candidato a prefeito em 2012, no valor de R$ 246.499,00. Gean declarou apenas R$ 39.721,00.

Desacato

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Portal mais antigo entre os analisados, com nove anos de história, o Desacato é também o site de maior audiência, se comparado ao Catarinas e ao Farol Reportagem. Segundo sua página, “é desenvolvido com o propósito de informar, educar, formar e contribuir na transformação da sociedade”. Apesar destes atributos, é o veículo que apresentou a cobertura mais “pobre” das eleições na capital.

Logo de cara, o portal mostra que essa ausência se dá por uma opção política, ao considerar as eleições municipais ilegítimas devido ao golpe parlamentar ocorrido no país. Há uma espécie de manifesto político elencando as razões pelas quais o Desacato não cobrirá as eleições municipais.  Ainda assim, encontramos duas matérias sobre as eleições no portal. Uma delas é a republicação na íntegra de uma matéria da EBC sobre a suspensão dos direitos políticos de Angela Amin (PP). Muito pouco factual e muito mais argumentativo/opinativo é o texto “Futuro Político da Esquerda é selado hoje até o meio dia”, que tenta analisar as consequências de uma desunião das “esquerdas” em Florianópolis, a partir de uma reunião ocorrida na UFSC com dirigentes e lideranças do PSOL, PT e PCdoB.

Pouca cobertura, mas diferenciada

Considerando que as eleições deste ano ocorreram em 45 dias, nota-se que os três veículos publicaram poucas matérias sobre o assunto, muito provavelmente, pelas dificuldades estruturais já apontadas no início. Ainda assim, a contribuição tanto do Farol Reportagem quanto do Catarinas trouxeram enfoques diferenciados sobre o tema para a sociedade, com olhares que minimamente, pluralizaram o debate público na capital. Se levarmos em conta ainda que estas duas organizações não possuem nem seis meses de vida, podemos esperar contribuições mais profundas e consistentes para o futuro.

No caso do Farol Reportagem, a ausência de equipe foi suprida a partir de uma parceria interessante com o curso de jornalismo da UFSC, onde estudantes tiveram a oportunidade de produzir material de qualidade sob a coordenação de um dos jornalistas mais experientes da capital catarinense. Em princípio, parece ter sido o veículo que fez uma cobertura mais aprofundada e factual dos acontecimentos, com um grau de qualidade elevado.

Já o Catarinas manteve-se num ar mais generalista, de análise e opinativo, mas abriu palavra aos candidatos para que eles expressassem suas posições sobre políticas públicas para mulheres, que afinal, é o tema principal daquele portal. Neste sentido, dá visibilidade a temas locais a partir de uma temática que tem se consolidado nos últimos anos como uma das principais entre os jovens.

O Desacato, por sua vez, ao optar em não cobrir as eleições, deixa órfão seus mais de 40 mil leitores mensais sobre um outro olhar sobre o cenário local. Dos três veículos analisados, é o que mais carrega no discurso político-opinativo e em textos mais analíticos do que factuais.

Esta breve análise mostra que há espaço para portais de jornalismo independente produzirem conteúdo de qualidade sobre temas de grande relevância social, mesmo com pequenas estruturas e poucos recursos disponíveis. Este ainda é um cenário modesto em Florianópolis e em Santa Catarina, mas com possibilidades de crescimento, a partir da articulação entre jornalistas e entidades da sociedade civil.