Sylvia Debossan Moretzsohn
Professora de jornalismo da UFF e pesquisadora do objETHOS

A última edição da revista Veja é dessas que merecem ficar na história, pelas questões que levanta sobre as responsabilidades do jornalismo e de todos os que se envolvem numa campanha eleitoral. Sobretudo quando os envolvidos são de esquerda, conhecem como a mídia atua e sabem, por experiência própria, o estrago que a manipulação pode produzir.

Numa decisão editorial incomum, Veja circulou com duas capas, uma delas exclusiva para distribuição no estado do Rio de Janeiro. O objetivo desta foi dar o máximo destaque possível a uma grave denúncia contra o senador Marcelo Crivella, do PRB, que até recentemente liderava com folga as pesquisas de intenção de voto para a prefeitura do Rio mas na semana passada tivera essa vantagem reduzida em relação a seu concorrente, Marcelo Freixo, do PSOL.

A revista só chegaria às bancas no sábado, mas já na sexta-feira (21/10) a capa da edição destinada ao Rio era disseminada na internet e produzia seus efeitos: trazia um Crivella jovem, fichado pela polícia em 1990, nas típicas fotos de frente e perfil de tempos idos, e uma manchete que criava suspense sobre o que teria motivado aquela cena. As redes sociais se agitaram, especulando sobre a denúncia. No fim daquela noite o jornal O Globo publicaria matéria sobre a reportagem e a explicação de Crivella, que seria “bem menos emocionante” do que se esperava: como engenheiro, ele teria sido chamado “para fazer a inspeção da estrutura de um muro que tinha o risco de cair e machucar as pessoas”, num terreno “que era da Igreja Universal mas estava invadido”. Como os ocupantes não o deixaram entrar, “deu uma confusão danada, foi todo mundo para a delegacia. Lá, o delegado resolveu identificar a todos”. Dizia ainda que nunca havia sido preso e que “a única investigação aberta foi para investigar o abuso de poder do delegado”.

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O senador mentia, como se verá.

A reportagem de Veja afirma algo bem diferente. Relata que Crivella, então pastor iniciante da Igreja Universal em São Paulo, estava de passagem pelo Rio e apelou para os piores métodos na tentativa de agilizar a reintegração de posse de um terreno comprado alguns anos antes pela sua igreja para a construção de um templo: foi até lá com um pé de cabra e mais dez capangas armados para intimidar o vigia que havia se instalado ali com a família e se recusava a sair. Mesmo o relato de Crivella aos repórteres, ao recordar o que se passara naquela semana de janeiro de 1990, não tem nada a ver com o tal muro que poderia “machucar as pessoas” e com o que ele chamou, simplesmente, de “confusão” em seu sereno “esclarecimento” público: “Estava revoltado. Acordei de manhã, peguei os caminhões que a gente tinha e fui para lá. Arrebentei aquela cerca. Entrei lá dentro. Comecei a tirar as coisas dos caras e botei em cima do caminhão. Mas não toquei nas pessoas”, disse. “Tinha uns dez homens comigo”.

Diante da versão distorcida que o senador antecipou, para tentar reduzir o dano que aquela reportagem causaria, a revista voltou à carga em seu site, em 24/10, com um desmentido cabal: apresentou mais trechos da entrevista, com os respectivos áudios, comprovando que Crivella mentia ao dizer que não havia sido preso: foi autuado em flagrante e foi o único a ser levado à delegacia. Lá, “por incrível que pareça, fiquei preso um dia. Carceragem da 9ª DP lotaaaada de gente. E o delegado pra me constranger, malandro, ele mandou fazer essa foto”. Saiu no dia seguinte, sob fiança.

Uma denúncia grave e oportuna

No texto publicado originalmente, os repórteres consideram, entretanto, que “o caso, em si, é de menor gravidade”, pois o principal seria o sumiço do inquérito e da ficha policial do atual senador e candidato a prefeito, que “só voltou aos arquivos oficiais há seis meses, na forma de uma discreta anotação em um cadastro estadual de acesso restrito”. Informam que o próprio Crivella recebeu o inquérito do delegado, depois de arquivado, junto com os negativos das fotos, recortados do filme usado no dia. Esse “agrado” teria sido uma forma de o delegado se desculpar pela conduta arbitrária e evitar ser processado pela igreja. “Repassar os negativos seria a garantia de que as fotos comprometedoras — e o próprio inquérito — nunca mais veriam a luz do dia”, argumentam. “O plano deu certo até Veja ter acesso a cópia das fotos”. Ao mostrá-la ao senador, ele deu sua versão sobre o caso e lhes entregou o material.

“Compreende-se que Crivella não se empenhe em divulgar as fotos de sua prisão, mas mantê-las em sua casa, subtraídas dos arquivos e do escrutínio público, não é uma postura republicana e, caso seja investigado, pode vir a ser enquadrado em crime de subtração de documentos”, diz a revista. Ao tratar do caso, o site The Intercept informa que, segundo o artigo 305 do Código Penal, esconder documentos públicos é crime, mas este já estaria prescrito, pois já se passaram mais de 20 anos do ocorrido.

Não resta dúvida sobre a relevância e oportunidade da reportagem, que contrasta com a imagem de bom-moço acolhedor, tolerante e de fala mansa cultivada pelo candidato que repete a promessa de “cuidar das pessoas”. O problema é a exploração daquelas fotos, que extrapola de longe as consequências imediatas para a campanha de Crivella.

Em primeiro lugar, esta forma de identificar detidos, desde a Constituição de 1988, só seria permitida se as pessoas não tivessem documento de identidade ou se apresentassem documento falso, conforme explicou reportagem de O Globo que ouviu especialistas na área. Portanto, salvo a remota hipótese de Crivella estar sem documentos quando foi conduzido à delegacia, o que ocorreu foi um abuso policial. Além disso, a exibição desse tipo de imagem reitera a maneira pela qual um certo jornalismo trata os casos criminais: sempre aliado das autoridades policiais, sempre desdenhando do direito dos que são capturados, tenham culpa ou não.

Os fins e os meios

É evidente que, para os objetivos da revista, a foto de capa não poderia ser outra. Não só porque foi a partir da obtenção daquelas imagens que a reportagem pôde ser feita, e revelá-las seria uma forma de dar o troco a quem as escondeu por todos esses anos e pretendeu apagar o passado de forma tão suspeita, mas porque a exposição de uma cena que remete a um tempo antigo, envolvendo um personagem – e a palavra, aqui, não poderia ser mais precisa – que não se imaginaria naquela situação, provoca a surpresa e o impacto necessários para a repercussão pretendida. Sobretudo se pensarmos que o que se fixa na memória das pessoas é muito mais a imagem do que o texto. Junte-se a isso o fato de que a maioria nem sequer lê o que se publica e teremos o resultado perfeito: a imagem do sujeito “fichado” é poderosa e se aplica a qualquer tipo de crime. Daí em diante, qualquer história pode ser contada.

Assim, como deveria ser claro, hoje é o Crivella. Mas ontem foi o Lula, e amanhã continuará a ser. E já foram o MST, os “vândalos” que reivindicam direitos e ocupam escolas. Pode ser qualquer um, de acordo com os humores e interesses dos editores. É assim que deve ser?

Desde o início de sua candidatura circularam vídeos nas mídias sociais com trechos de discursos e pregações do senador-pastor que não deixavam dúvidas sobre o caráter retrógrado e preconceituoso de seu ideário. Até então, Crivella mantinha uma postura serena e parecia inabalável. Com os debates do segundo turno, com a queda nas pesquisas, o tom da campanha mudou e passou a apelar para as mais sórdidas e delirantes acusações a seu adversário, o que fez recordar o estilo de Collor na sua investida contra Lula, em 1989: certamente o pior momento de nossa política. Reportagens publicadas em O Globo na semana passada ajudaram a expor a face retrógrada do candidato, ao reproduzirem trechos de livros que ele escreveu ou organizou – neste caso, sobre os pensamentos do bispo Edir Macedo, líder da Igreja Universal, de quem Crivella tenta manter distância em sua campanha: a mulher deve ser submissa ao homem, o homossexualismo é um “terrível mal”, as religiões africanas abrigam “espíritos imundos”. A reportagem de Veja, agora, vai além, mostrando uma face desconhecida do passado do candidato. Entretanto, ultrapassa os limites com aquela capa.

Derrotar Crivella e tudo o que ele representa de retrocesso, obscurantismo e violência é essencial para a preservação de algum espaço democrático no país que vive sob um golpe de Estado. Revelar o que Crivella quer ocultar é essencial para sacudir indecisos, céticos e niilistas, sobretudo num contexto de ampla adesão ao voto nulo ou à abstenção. Mas não pode ser a qualquer preço.

Por isso foi estranho o comportamento de muitos dos militantes e apoiadores da campanha de Marcelo Freixo, tradicionais defensores dos direitos humanos, em suas redes sociais. Raros foram os que criticaram a capa da Veja e pensaram nas suas consequências para além da campanha. Muitos ignoraram deliberadamente os sentidos despertados por aquela imagem. Outros a aplaudiram porque servia a seus interesses imediatos. Entre esses, houve quem argumentasse que uma campanha eleitoral é uma guerra. Ora, nem mesmo uma guerra é um vale-tudo, pelo menos em termos legais: há condutas inaceitáveis, há armas que não podem ser usadas. E não seria demais lembrar que quem mandou às favas os escrúpulos de consciência foram os que editaram o AI-5.

A reportagem sobre o passado oculto de Crivella é louvável. A capa que a apresenta é abominável. Mas põe, mais uma vez, a discussão ética sobre os meios e os fins, que não pode ser ignorada por ninguém que defenda a democracia.