Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Conferência sobre jornalismo de dados na sede da BBC, em Londres
Conferência sobre jornalismo de dados na sede da BBC, em Londres

Na última sexta-feira, 21, participei da BBC Data Conference, em Londres. Além da oportunidade de conhecer os bastidores de grandes reportagens, a primeira coisa que me chamou a atenção foi o evento em si: uma empresa jornalística convidando academia e profissionais para discutir jornalismo de dados. Normalmente, as universidades é que requisitam repórteres para palestras. Abrir as portas de uma das maiores redações do mundo, com a presença de repórteres de veículos concorrentes, inclusive, já foi um primeiro ponto positivo. Mas houve muitos outros.

A BBC possui uma editoria específica para checagem de fatos. Anthony Reuben explicou que a equipe de Reality Check é composta por editor, redator e segundo redator, que trabalham em conjunto com o time de análise e pesquisa (analysis & research) e com a unidade de pesquisa política (political research). Eles contam também com a ajuda de correspondentes especializados. Esta é uma área em crescimento no jornalismo e dentro da BBC, contou Reuben.

Para explicar o trabalho de sua editoria, ele exibiu uma entrevista do então prefeito de Londres Boris Johnson ao The Andrew Marr Show, programa da BBC TV. Cinco minutos de entrevista renderam 10 checagens e revelaram que algumas informações eram falsas. Uma dica, segundo Reuben, é listar as informações passíveis de verificação logo após o fato. Ele fez esse exercício com os participantes do evento, o que resultou em várias sugestões.

Além da relevância, é interessante observar o formato da página de Reality Check no site da BBC (veja abaixo): um live blog que separa as verificações por data, tem já no título a pergunta que será respondida, destaca a declaração checada com aspas, e em seguida apresenta o contraponto de forma sucinta e com utilização de recursos multimídia. No final de cada verificação, há uma opção de compartilhamento no Facebook ou Twitter.

Formato de fact-checking no site da BBC
Formato de fact-checking no site da BBC

Reportagens com dados fornecidos pela audiência

Crowdsourcing, em linhas gerais, é a obtenção de informações ou ideias a partir de contribuições de um grupo de pessoas, especialmente de uma comunidade online. Na BBC, a equipe de jornalismo de dados mostrou um trabalho surpreendente e muito inspirador com a aplicação prática desse conceito. Os exemplos dados por Linnea Heppling mostram que é possível utilizar números para contar histórias de interesse público.

De acordo com Heppling, tudo começa com a pergunta: o que queremos saber e mostrar, a partir do convite à participação da audiência? A reportagem que mapeou as conexões de internet na Suécia é um ótimo exemplo de resposta a essa questão. A BBC produziu um formulário convidando os suecos a fornecerem informações sobre a qualidade dos serviços de banda larga em suas residências. O grande mote para incentivar a participação era o que a BBC daria em troca: um panorama sobre o funcionamento da banda larga no país e a cobrança por melhorias. “Você precisa dar algo e não somente perguntar à audiência”, explicou Heppling. Cerca de 60 mil pessoas responderam ao formulário, o que foi considerado um sucesso pela equipe.

Para além do engajamento, o que em si já é surpreendente, o que mais me chamou a atenção foi o que a BBC fez com as respostas.

  • Uma visualização interativa em mapa que mostra a qualidade da banda larga nas diversas regiões do país, por CEP e por operadora;
  • Uma longa explicação sobre como foi feito o cálculo até chegar aos índices de qualidade.
  • Veiculação de mais de 150 reportagens a partir do panorama encontrado. Uma delas contou a história do senhor Markus, de 82 anos, que precisava subir no telhado para conseguir enviar uma mensagem de seu celular. Heepling contou que hoje a situação de Markus foi resolvida e ele não se arrisca mais para usar a internet. Vale assistir ao vídeo, que mostra como a BBC conseguiu humanizar uma planilha de dados gigantesca com uma história sensível e relevante.
  • Produção de dados originais e inéditos. Aliás, esse foi um ponto bastante discutido em todo o evento: a importância da criação de informações novas, para não ficar só na dependência de dados oficiais.
Mapa com visualização interativa sobre a qualidade da banda larga na Suécia
Mapa com visualização interativa sobre a qualidade da banda larga na Suécia

Heepling destacou a importância da convergência com a BBC TV, que convidou as pessoas a responderem o formulário. Os resultados de cada cidade foram enviados também para as TVs locais, que fizeram matérias e continuaram repercutindo o assunto. Outro ponto enfatizado pela jornalista foi a forma como a conclusão da pesquisa foi noticiada. “Nós não podemos generalizar e afirmar que essa é a situação da banda larga na Suécia. Afirmamos que esse é o panorama entre as pessoas que responderam ao nosso questionário. Temos que ser corretos com as estatísticas”, disse.

O outro exemplo de crowdsourcing utilizando jornalismo de dados é o favorito de Linnea Heepling (e se tornou o meu também): #syrien200. Ela explicou que foi uma espécie de crowdsourcing fechado, pois eles é que entraram em contato com as pessoas por meio das redes sociais, com o objetivo de contar histórias de refugiados sírios na Suécia. Neste exemplo, o que me chamou atenção foi o método:

  • Após o primeiro contato, foi criado um grupo secreto no Facebook para compartilhar as histórias e promover interação constante;
  • Em seguida, houve um encontro face a face, no qual os participantes responderam a 45 perguntas, que ajudaram a criar um roteiro padrão para cada história.
  • A última etapa foi a tradução de todo o material, que está disponível em sueco, inglês e árabe.
  • O resultado é tão simples quanto impressionante: 200 histórias muito sensíveis, contadas em vídeo, texto e com a utilização de mapas interativos e fotos. A de Fadi é uma delas, que fez marejar os olhos de quem estava no evento da BBC.
Reportagem #syrien200 contou histórias de refugiados sírios na Suécia
Reportagem #syrien200 contou histórias de refugiados sírios na Suécia

“Tire os números e ponha pessoas no lugar deles”

Bate-papo com os jornalistas
Bate-papo com os jornalistas

Após a palestra de Heepling, houve um bate-papo com Hollie Lubbock, designer de experiência do usuário que presta serviços para a BBC; Helena Bengtsson, editora de Projetos Digitais do jornal The Guardian; Laura Ellis, diretora de Novas Mídias (BBC English Regions); e Anthony Reuben, da equipe de Reality Check da BBC.

Respondendo às perguntas da plateia, os jornalistas fizeram importantes considerações:

  • Hollie Lubbock falou sobre a importância de interfaces amigáveis para o usuário em projetos jornalísticos. “Pensamos em tudo o que envolve as necessidades do usuário. Para nós, eles são o produto”.
  • Laura Ellis destacou que o processo faz parte de uma mudança de cultura para o jornalista. “Mas temos que entender que lidar com dados é ganhar tempo”.
  • De acordo com Anthony Reuben, a BBC e o jornalismo continuam excessivamente brancos, classe média, antigos. E os dados reais ajudam a mudar essa visão.
  • Para Helena Bengtsson, é importante que as pessoas sentem juntas, que trabalhem de forma integrada. Sobre como apresentar os números em diferentes mídias (na TV, por exemplo, é bem mais difícil fazer com que eles sejam atraentes), ela respondeu: “Tire os números e ponha pessoas no lugar deles. Use-os na web. Estamos sempre falando de pessoas”.

Ao final do evento, foi especialmente gratificante conhecer os oito andares da redação da BBC, que inclui rádio, TV, online e uma área só para live broadcasting. Senti de forma muito prática que o jornalismo vive, e que há pessoas que estão se preocupando com questões que realmente importam. Aliás, essa foi uma das falas de Helena Bengtsson: “Nós queremos fazer diferença”.