A partir desta semana, o Observatório da Ética Jornalística passa a publicar uma série de entrevistas sobre jornalismo e ética com pesquisadores do campo. As conversas também tratam dos temas de estudo dos entrevistados: regulação da comunicação, jornalismo e gênero, ensino nas universidades, ética hacker, qualidade do jornalismo e o papel dos públicos.

O primeiro entrevistado é Danilo Rothberg, professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), da Unesp, em Bauru. Rothberg é autor de “Jornalismo Público: informação, cidadania e televisão” (Unesp, 2011), além de ter organizado diversas outras obras.

dsc_0151

Recentemente, o professor participou da mesa “Jornalismo hoje: potências, silêncios, censuras” no 14º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo (SBPJor), na Unisul, em Palhoça (SC). Junto com Rothberg, estavam também Rogério Christofoletti (UFSC), pesquisador do objETHOS, e Josenildo Guerra (UFS), que atuou como mediador.

Um dos temas de interesse de Rothberg é a comunicação pública. Na entrevista a seguir, o professor comenta o estado atual das discussões sobre a regulamentação dos veículos no Brasil, o grau de independência do jornalismo e os dilemas éticos que perpassam a profissão.

objETHOS: Como o senhor avalia a discussão contemporânea sobre a regulação dos meios de comunicação? Pode-se dizer que ela perdeu força devido à nova geração de jornalistas que criam seus próprios veículos nos meios digitais?

Danilo Rothberg: Não considero que a pauta perdeu importância justamente porque apesar da possibilidade técnica de publicar em vários lugares, os meios submetidos à regulação, principalmente os de radiodifusão, ainda são aqueles que têm as maiores audiências. Nesse sentido, a regulação continua sendo tão vital quanto antes. O que efetivamente atingiu a necessidade de regulação foi a digitalização das transmissões, porque o espectro digital não possui a limitação do VHF, de cinco emissoras. Ainda assim, a regulação é necessária. Com a digitalização aumentam as possibilidades de canais, mas de forma finita, limitada. A disponibilidade de mais canais implica maior concorrência, além da necessidade de atrair e sustentar interesse. Veja que aí seria muito tentador recorrer a formas de banalização, como o infoentretenimento e a adoção de parâmetros mais apelativos de notícias sensacionais. Um órgão regulador que mantenha padrões de seriedade na notícia é fundamental.

objETHOS: Mais recentemente, podemos observar a proliferação de novas formas de organizações jornalísticas, algumas de cunho comercial e outras sem fins lucrativos. A respeito desse último caso, em que medida podemos considerar que esses veículos são independentes?

Rothberg: Na prática, os critérios que podem ser utilizados para avaliar a independência seriam os mesmos tanto para mídias de exploração comercial quanto para as que não têm essa meta. Eles apontam para a existência de contextualização, pluralidade e perspectivas que importam para a caracterização de um fato ou acontecimento. Ainda assim, as pesquisas têm indicado que veículos que não estão sujeitos à exploração comercial possuem maior margem de manobra ou liberdade para investir em qualidade. Essa é uma questão bem complexa. Vamos dar um exemplo rápido: o jornalismo brasileiro sujeito à exploração comercial impôs na TV a adoção de reportagens que vão de 30 segundos a um minuto e meio. Esse é um padrão que se considera possível, e acaba sendo usado também por emissoras públicas. A BBC (British Broadcast Corporation, emissora pública de rádio e televisão do Reino Unido), enquanto isso, possui um telejornal com matérias também entre um e dois minutos, e outro, no mesmo dia, com reportagens de cinco a dez. Nesse sentido, o jornalismo público teria mais independência para adotar padrões bem diferentes daqueles submetidos à exploração comercial. Mas esses padrões permanecem ocultos caso a experiência de consumo de informação e entretenimento pelos meios de comunicação em um dado país não seja enriquecida pelos casos internacionais. É como se o brasileiro acreditasse que “telejornalismo” é igual a matérias de um minuto.

objETHOS: Qual é o grande conflito ou dilema ético que o jornalismo enfrenta na contemporaneidade?

Rothberg: Provavelmente, o dilema de reconhecer que existe uma diversidade de perspectivas a serem abrangidas em uma dada pauta e, ao mesmo tempo, reconhecer que não há tempo ou recursos disponíveis para desenvolver as abordagens que envolvam essa diversidade de perspectivas importantes para a matéria. Considerando que tempo, recurso financeiro e recurso material dependem, é claro, do potencial de investimento de um comando editorial, que às vezes não se realiza não só por falta de dinheiro para pagar as estratégias necessárias, mas também por falta de interesse.

objETHOS: Como a pesquisa em jornalismo pode ajudar a repensar esse dilema?

Rothberg: A pesquisa em jornalismo pode contribuir justamente desnudando e trazendo à tona episódios de coberturas relevantes que não apresentaram equilíbrio, pluralidade ou contexto necessário. Ao mesmo tempo, tem a possibilidade de indicar formas de aperfeiçoamento que poderiam gerar a abrangência adequada para cumprir aqueles buracos ou insuficiências.

objETHOS: O senhor acha que as redações, tal como as concebíamos no início do século, estão preparadas para esses desafios?

Rothberg: Do ponto de vista da disponibilidade de recursos, ou seja, da sua própria existência bruta, sim. Talvez o principal aspecto não seja necessariamente o preparo, mas a possibilidade de efetivamente lançar a cobertura plural, como se o princípio editorial da pluralidade fosse o ideal máximo a ser seguido. Não é talvez tanto a falta de preparo, mas de orientação editorial para a pluralidade. Como exemplo nós poderíamos mencionar a diversidade de códigos de ética. Alguns são mais específicos sobre a pluralidade, outros não. Redações em países com código de ética que não proporcionem tanta ênfase em diversidade e contextualização provavelmente não terão necessariamente aqueles valores editoriais como metas – ou terão como metas menores, digamos. Já redações em outros países e contextos culturais que enfatizem pluralidade e contexto como metas principais serão redações que terão desempenho mais coerente com esses valores máximos do jornalismo.