Edição e texto: Dairan Paul
Fotos: Ricardo Torres

Leonardo Foletto é o segundo entrevistado que o objETHOS traz a partir de uma série de conversas realizadas com pesquisadores de jornalismo e comunicação. As entrevistas aconteceram durante a 14ª SBPJor, realizada na Unisul (Palhoça/SC) em novembro.

Mestre em Jornalismo pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e doutorando na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Foletto também é autor do livro “Efêmero Revisitado: conversas sobre teatro e cultura digital” e editor do site BaixaCultura. Sua pesquisa atual trata das relações entre jornalismo e objetos como celulares, aplicativos e computadores, com o suporte da teoria ator-rede. Em textos anteriores, também trabalhou os diálogos possíveis entre as práticas jornalísticas e a cultura hacker.

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Na entrevista concedida ao objETHOS, Foletto comenta algumas questões que norteiam sua pesquisa, destacando a onipresença dos objetos no cotidiano dos jornalistas, a crescente importância da verificação das informações, e o papel do pesquisador em jornalismo, que deve estar atento ao que acontece nas ruas. Confira:

objETHOS: De que forma você entende a interferência de objetos na prática jornalística?

Leonardo Foletto: Tem alguns estudos dentro do jornalismo que trabalham com essa diferença produzida pelos objetos no antes e depois do e-mail, por exemplo, nos sistemas de publicação e como eles moldam determinada prática jornalística, ou no caso de algum dispositivo que permite criar um novo mundo a partir dele. Na Mídia NINJA, se não existisse o Telegram [aplicativo de mensagens instantâneas], talvez o grupo continuasse fazendo suas ações, mas seria tudo muito mais difícil. Mais do que a influência dos objetos, do que está na superfície – se eles estão fazendo jornalismo, por exemplo –, é necessário cavocar um pouco para perceber que aquilo só está acontecendo porque existe uma internet, um dispositivo, um sistema técnico. Essa ideia de múltiplas narrativas dentro de um acontecimento específico, como em quatro transmissões simultâneas, ao vivo, do mesmo fato, acontece a partir de softwares de transmissão online. Antes disso, não existia essa possibilidade. A partir dela, a gente consegue ver esse “quase ao vivo”, no sentido de uma narrativa que é presente em diversos momentos. A presença dos objetos está em todos os lugares, mas você tem que cavocar um pouco para perceber o quanto ela é influente nos processos.

objETHOS: Como você enxerga a aproximação da cultura hacker com o jornalismo e como ela pode reordenar – se, de fato, reordena – a natureza da profissão?

Foletto: A cultura hacker pode ser entendida como uma cultura de pessoas que programam softwares e que, a partir disso, também têm uma ética específica. Essa influência é mais visível na prática do jornalismo de dados, principalmente no valor da colaboração – a ideia de que não estamos competindo, mas trocando informações para fazer alguma coisa. Isso é muito comum na produção de extração de dados, por exemplo, quando você precisa do input (entrada) de alguém. Outro valor importante é a transparência, não no seu sentido total – o que é impossível e ilusório –, mas maior. Na medida em que você tem acesso a mais dados para conseguir uma matéria, você deixa o processo um pouco mais transparente para quem quiser ver como foi feito. Isso, me parece, é uma influência da cultura hacker, onde essa necessidade existe para que todos possam ter acesso aos códigos-fonte. No jornalismo, isso implica disponibilizar os dados para que se aprimorem as narrativas que já são construídas a partir de dados públicos. Essa influência não ocorre apenas dentro do jornalismo de dados, porque quando falamos de ética hacker, estamos tratando de uma contracultura que desafia o status quo. Há valores anticapitalistas, por exemplo. E isso também interfere em coletivos hacktivistas, que não fazem necessariamente jornalismo, mas trabalham com informações de interesse público e são fundamentais dentro da sociedade, como o Wikileaks.

objETHOS: Qual é o grande conflito ou dilema ético que o jornalismo enfrenta na contemporaneidade?

Foletto: Acho que está relacionado à questão do processo de verificação da realidade. As pessoas estão comprando muita informação sem se dar ao trabalho de checar minimamente essa produção. Talvez a gente precise ensinar as pessoas a verificar aquilo que elas consomem, saber de onde vêm essas informações e entender por que elas estão sendo colocadas ali, qual o seu contexto. Até mesmo o jornalismo tradicional deixa de fazer isso, e as redes sociais, cada vez mais influentes, perpetuam esse modo de não checar as informações. Não é à toa que têm surgido muitos núcleos de verificação e de checagem, porque é isso o que diferencia uma matéria jornalística de outras coisas.

objETHOS: Como a pesquisa em jornalismo pode ajudar a repensar esse dilema?

Foletto: Enquanto pesquisadores de jornalismo, acho que temos que ir às ruas, ver o que está sendo feito, informações que estão sendo produzidas, consumidas – fazer pesquisa empírica. É fundamental não esquecer que trabalhamos com a realidade, e ela nos mostra que o papel do jornalismo, enquanto difusor de informação, está sendo cada vez menor, ou mesmo rivalizado com as redes sociais. Então, mais do que negar que não é jornalismo, temos que entender de que forma isso está sendo feito, sem preconceitos do tipo “não pode ter jornalismo no Facebook”. Existem vestígios mínimos de que a “forma jornalismo” está ali. Mesmo que a gente não goste, mesmo que seja um jornalismo que não é o que estudamos na faculdade, ele está acontecendo.

objETHOS: Você acha que as redações, tal como as concebíamos no início do século, estão preparadas para esses desafios?

Foletto: Não estão. É preciso pensar um pouco a questão do tempo: se existem milhares de informações circulando e o jornalismo quer se diferenciar de alguma forma delas, ele precisa produzir com mais tempo de verificação. A gente precisa menos de jornalistas fazendo breaking news numa redação do que profissionais que coloquem a notícia em diversos contextos. Eu vejo uma redação de checagem como algo possível no futuro, o que já é realidade em alguns lugares, inclusive. Hoje todo mundo produz informações a qualquer momento. O que a gente precisa é verificá-las, contextualizá-las, colocar em diferentes perspectivas e fortalecê-las. Uma redação ideal seria aquela que eu posso confiar de fato. E aí a gente cai na ideia da grande reportagem que, de alguma forma, também sempre foi um processo de verificação mais longo. O que entra, agora, é o fator dos modelos de negócio. Se, na minha visão, o que vai fazer o jornalismo se perpetuar é justamente a verificação das informações, isso, me parece, tem sido cada vez mais raro e trabalhoso de fazer. Quem vai sustentar essa fórmula? Eu não sei, mas existem várias pessoas tentando, e muitas delas, inclusive, não são jornalistas profissionais.