Ariele Cardoso (texto e fotos)
Jornalista – especial para objETHOS, direto de Havana

Era perto de 9 horas do dia 26 quando tive a notícia. O casal que me alugou seu apartamento anunciou: “se murió Fidel” (morreu Fidel). Assistiam TV. Estavam zapeando entre os canais estatais nacionais e os americanos, ao qual têm acesso de forma clandestina, por um pacote adquirido no mercado paralelo. Na TV local, a programação foi destinada completamente à cobertura do falecimento do ex-presidente. Seu perfil, discursos, feitos históricos e suas atividades de lazer eram expostas com o pesar da perda. Na TV americana, imagens exibiam carreatas e panelaços dos cubanos residentes em Miami, comemorando a morte do “ditador”.

Depois de quase uma hora assistindo aos noticiários com eles e conversando sobre o ocorrido, saí às ruas e pude observar o que, para mim, foi o maior impacto: diferentemente do dia anterior, quando as pessoas conversavam alto, desta vez se calavam. Exibiam semblantes tristes como quem está de luto pela morte de um familiar. Os carretilleros, como são chamados os quitandeiros que vendem frutas e vegetais pelas ruas, já não gritavam anunciando suas vendas. Caminhavam quietos e esperavam os consumidores virem ao seu encontro. Fui andando até a Calle Obispo, onde há maior concentração de turistas, e outro fenômeno se apresentou: nem mesmo os estrangeiros se atreviam a quebrar o silêncio. Os jornais impressos tardaram a sair. Diários, geralmente produzidos na noite anterior, desta vez tiveram que mudar sua pauta durante a manhã. Escreveram, às pressas, suas homenagens ao “Comandante”.

Juventud Rebelde e Granma, dois dos principais jornais de La Habana, acordaram de fazer uma só capa. Exibiram a mesma foto e o mesmo conteúdo textual. O título, “¡Hasta siempre, Fidel!”, antecedia uma caixa com o pronunciamento do presidente Raul Castro. Abaixo, a nota do Conselho de Estado da República de Cuba anunciava os nove dias de luto oficial e, ao final da página, a nota de imprensa da Comissão Organizadora dos atos fúnebres. Em seu interior, páginas com distintas matérias, mas uma mesma mensagem: homenagens a Fidel com destaque ao “conceito de revolução” criado por ele.

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Ao contrário do que ocorre no Brasil, aqui a imprensa é estatal. Granma é o jornal oficial do Comitê Central do Partido Comunista de Cuba (nacional), Tribuna de La Habana pertence ao Comitê Provincial do Partido (estadual) e o Juventud Rebelde é o “diário da juventude cubana”, também comunista. A Tribuna, porém, é dominical. Sua edição, em parte, repetiu as publicações do dia anterior, o primeiro após a morte de Fidel. Como o Granma e o Juventude Rebelde, rendeu homenagens, exibiu seu perfil e destacou o conceito de revolução. A edição também trouxe a nota de imprensa, o decreto de luto e o discurso de Raul Castro. O que o distinguia era os depoimentos de alguns cubanos e a manutenção de algumas colunas, como “dezembro na história”, com os principais acontecimentos já registrados no mês, e “do idioma”, uma seção gramatical.

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Também no domingo, Juventud Rebelde trouxe a biografia de Fidel Castro já em suas duas primeiras páginas. O Granma detalhava em um mapa como se organizariam as filas para a população render homenagens ao ex-presidente.

O jornal também trazia fotos dos estudantes que se reuniram na Universidad de La Habana, onde Fidel se formou advogado.

2016-11-29-foto-melissa-doisFoi ali que conversei com Melissa Cepero Lantigua (foto), 18, estudante de direito. Com os olhos marejados, o rosto pintado com o nome “Fidel” e uma faixa preta presa no braço, ela enfatizou: “defeitos tinha, erros cometeu, mas amávamos esta pessoa”.

Ivonne González, 57, tradutora, vive há 20 anos na Alemanha e não conteve as lágrimas ao afirmar: “É comovedor pois, para a história de Cuba, Cuba é Fidel Castro, depois de 59 pra cá. Estamos aqui nessa Universidade onde Fidel estudou e desceu não sei quantas vezes esta escada enfrentando a tirania. Fidel é… Fidel é Cuba”. Miguel Hayes, 21, estudante de economia, também foi à universidade manifestar seu luto. Em frente a uma espécie de altar, montado com um cartaz e flores, exclamou: “Fidel faleceu ontem. Ontem foi meu aniversário”. E enquanto lhe diziam que tinha má sorte pela coincidência, ele respondia: “é um sinal. Um sinal de que temos que lutar agora mais do que nunca”. Este sentimento é compartilhado por Beatriz Ubieta, 20, também estudante de economia: “Agora temos que fazer o que ele sempre disse. Temos o peso de continuar fazendo o que foi feito”, disse emocionada.

Entre os cubanos, o governo castrista não é unanimidade. Há os que discordem de suas políticas e questionam o fato de estarem há tantos anos no poder. Ainda assim, não questionam a importância do ex-presidente. Em off, um taxista reconhece: “é uma figura, um personagem histórico. Esperamos que, agora sem ele, as coisas melhorem, que Cuba evolua, mas não podemos deixar de nos entristecer porque faleceu o comandante, o líder da revolução, o grande responsável pela independência de Cuba”. Assim, apesar de suas contradições, o “comadante-chefe Presidente Fidel Castro Ruiz”, como o chamam, recebe homenagens. Milhares de pessoas se aglomeram na Praça da Revolução e, em fila, aguardam o momento em que estarão perto dele pela última vez. Passam rapidamente pelo altar onde está exposta uma caixa com suas cinzas, frente a um cartaz com sua foto e o conceito de revolução. Alguns, com celulares e câmeras em mãos, transitam registrando o momento em vídeo. Outros, curiosamente, nem sequer olham o altar. Viver o momento lhes basta.

Cuba, hoje, está de luto, e permanecerá assim por mais quatro dias quando, depois de percorrer o país e ficar à disposição da população em Santiago de Cuba, as cinzas de Fidel serão depositadas, como desejou, no mesmo mausoléu em que descansam os restos mortais de José Martí. Este, grande intelectual e responsável por planejar a revolução que libertou Cuba do domínio espanhol. Fidel, comandante da revolução que libertou Cuba da ditadura militar. Assim estarão juntos, para sempre, os maiores heróis da população cubana.

[Leia ainda uma análise da cobertura jornalística brasileira sobre a morte de Fidel Castro, assinada pelo pesquisador do objETHOS Samuel Lima]