Edição e texto: Dairan Paul
Crédito das imagens: IHU/Youtube

O professor Josenildo Guerra, da Universidade Federal de Sergipe (UFS), é o quarto entrevistado do objETHOS em uma série de conversas com pesquisadores. Anteriormente, Danilo Rothberg (Unesp), Leonardo Foletto (UFRGS) e Gisele Reginato (UFRGS) discutiram questões éticas no jornalismo. Todas as entrevistas foram realizadas durante a 14ª SBPJor, na Unisul (Palhoça/SC), em novembro.

Guerra é autor do livro O percurso interpretativo na produção da notícia: verdade e relevância como parâmetros de qualidade jornalística (Editora UFS), além de ser um dos pesquisadores da RENOI (Rede Nacional de Observatórios de Imprensa). Suas pesquisas mais recentes têm como tema a qualidade no jornalismo, buscando sistematizar metodologias para avaliar jornais.

Na conversa a seguir, Guerra fala sobre a falta de pluralidade no jornalismo, a cobrança que a sociedade deve fazer em relação à qualidade dos jornais e o papel da pesquisa em definir critérios para aferir as boas práticas jornalísticas:

objETHOS: Em trabalhos anteriores, você apresenta um sistema de gestão de qualidade no jornalismo. Quais foram os avanços obtidos a partir do uso dessa metodologia?

Josenildo Guerra: Nós trabalhamos com dois focos de análise, o produto e os processos de gestão editorial. A gente tem avaliado os produtos jornalísticos a partir de quatro requisitos de qualidade: relevância do conteúdo, pluralidade da cobertura, confiabilidade e diversidade. Em alguns casos, o desempenho dos jornais é satisfatório; em outros, percebemos patamares diferentes e mais complicados. Por exemplo: nós fizemos uma análise de pluralidade da cobertura do programa Mais Médicos. Avaliamos que ela alcançou um bom grau em relação a sua discussão. Havia o governo apresentando o programa, bem como críticas da oposição e de setores mais diversos. Nesse sentido, percebemos certa equivalência, dentro da metodologia que testamos, tanto de quem apresentava a proposta do Mais Médicos como dos seus críticos. Entretanto, quando comparamos as discussões, houve uma discrepância brutal. O programa Mais Médicos teve muito mais ocorrência do que qualquer outra contraproposta que sequer chegou a ser identificada. Claro que temos que levar em conta o contexto no qual essa cobertura se deu, a proposição da medida provisória, que localizou o debate. De qualquer forma, é um alerta sobre como a agenda jornalística fica muito dependente da agenda governamental. Em consequência disso, nós constatamos uma baixa pluralidade do jornalismo para acolher propostas diferentes que não a do governo, por exemplo.

objETHOS: Como podemos fazer com que as pesquisas sobre qualidade jornalística cheguem às redações?

Guerra: Eu acho que passa muito fortemente pela pressão que a sociedade vai fazer sobre o jornal. Os veículos têm uma condição muito confortável: eles não são cobrados, têm a sua audiência e vendem seu produto com base nelas, têm a publicidade – embora ela esteja caindo por outro fatores que não são necessariamente a baixa qualidade dos jornais –, não são e nem querem ser avaliados. Enquanto a comunidade não fizer um movimento de cobrar qualidade dos produtos jornalísticos, isso vai continuar assim. Enquanto nós não desenvolvermos instrumentos que pressionem os jornais a melhorar o seu desempenho, isso também vai continuar assim. Nas pesquisas que a gente tem feito dentro da RENOI (Rede Nacional de Observatórios de Imprensa), tentamos criar instrumentos de avaliação que mostrem o cenário de baixo comprometimento dos jornais com a qualidade editorial, de modo que a sociedade possa cobrar uma elevação desses padrões e que os veículos, inclusive, se sintam constrangidos pelos resultados alcançados. Na avaliação que eu faço com alunos dentro de uma disciplina que leciono, aplicando critérios do programa permanente de autorregulação da ANJ (Associação Nacional de Jornais), o desempenho é muito ruim. Então, nos próprios critérios que a ANJ recomenda que seus associados incorporem como boas práticas editoriais, nós temos maus resultados. E se nós conseguirmos uma divulgação adequada, a gente vai mostrar como eles estão longe daquilo que eles mesmos defendem o que deveriam ser.

objETHOS: Qual é o grande conflito ou dilema ético que o jornalismo enfrenta na contemporaneidade?

Guerra: Devido ao contexto atual do Brasil, acho que o nosso desafio, hoje, é a pluralidade na cobertura jornalística. Nenhum jornal ou produto jornalístico que eu tenho acompanhado consegue dar um panorama amplo e justo, a meu ver, das questões atuais que têm lugar na política brasileira. Então, nesse contexto, acho que a capacidade dos jornais de se abrirem efetivamente para uma cobertura plural é o nosso grande problema.

objETHOS: Como a pesquisa em jornalismo pode ajudar a repensar esse dilema?

Guerra: Acredito que criando mecanismos de avaliação dos jornais, com metodologias e critérios claros, e uma aplicação que vá gerar resultados para avaliarmos o desempenho dos veículos. No meu trabalho, eu faço isso no âmbito da qualidade editorial, mas há pesquisas que partem de outras perspectivas, como a transparência. Nós precisamos criar instrumentos de avaliação para esses jornais, conseguindo estabelecer parâmetros de distinção do que são boas práticas. A Folha de S. Paulo, por exemplo, produz o ranking Folha de universidades. A Veja faz uma avaliação dos parlamentares. Os veículos estão acostumados com isso, então eles não se sentirão incomodados se fizermos um ranking deles.

objETHOS: Você acha que as redações, tal como as concebíamos no início do século, estão preparadas para esses desafios?

Guerra: Tenho muita dificuldade de perceber as redações motivadas para isso. Pelo que constato nas nossas pesquisas mais recentes, acho que há uma posição muito refratária dos jornalistas em serem avaliados. E acho que as empresas que não se propuserem a se autoavaliar, ou serem avaliadas, talvez não tenham sustentabilidade no futuro, porque a questão da qualidade vai entrar na agenda dos jornais – até mesmo para a sua própria sobrevivência, já que a concorrência fica cada vez maior. Cada hora surge um novo veículo ou site. Em algum momento, vamos ter que encontrar um elemento distintivo para a produção jornalística em relação a quem faz o que consideramos bom jornalismo. E aí, essa cultura de evitar a avaliação terá que mudar. Os jornais fazem isso muito pouco, e quando fazem, não são de forma sistemática. Basta ver que no Brasil nós temos dois ombudsman. Os veículos têm que ser capazes de demonstrar que eles cumprem aquilo que prometem. É uma cobertura plural? Mostre que é plural. Não é difícil de fazer. É questão dos jornais se prepararem para isso.

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