Lívia de Souza Vieira
Doutoranda no POSJOR/UFSC e pesquisadora do objETHOS

Imagine um presidente que declara guerra à imprensa de seu país, chegando a afirmar que ela é “parte de um sistema corrupto” e excluindo veículos como CNN, Politico, The Los Angeles Times e The New York Times de uma coletiva com seu porta-voz. Isso tudo num contexto de grave crise financeira no mercado de mídia, que está fazendo até com que pesquisadores como Emily Bell defendam uma significativa “transferência de riqueza” de empresas de tecnologia (como Google e Facebook) para “salvar” o jornalismo. “Gostamos de longas leituras, mas exatamente agora o jornalismo precisa mais é de dinheiro”, afirmou Bell, em recente e polêmico artigo.

É claro que estou me referindo a Donald Trump e à mídia dos Estados Unidos. Não que a situação no Brasil esteja melhor, mas é importante observar como os jornalistas americanos estão lidando com essa ofensiva que, sabemos, não é só à imprensa em si, mas também à própria democracia.

A fim de discutir esse grave problema, a Nieman Foundation for Journalism, da Universidade de Harvard, reuniu jornalistas veteranos no fim de janeiro para um evento sobre “O futuro do jornalismo na era da pós-verdade”. Na ocasião, Brian Stelter, repórter da CNN, destacou que “este é o tempo para o qual os jornalistas sempre viveram. Sabemos que esse é um momento histórico – para o país, mas também para a profissão. O melhor dos tempos e também o mais imprevisível deles”. Ao questionar se as notícias podem sobreviver na era da pós-verdade, do pós-fato, Stelter afirmou que “este é o mundo da pós-verdade somente se todos nós nesse auditório deixarmos – se todos nós, coletivamente, todos nós desistirmos da verdade”.

O tom de crítica a Trump e de resgate aos valores do jornalismo prevaleceu durante todo o evento, que foi transmitido ao vivo pelo Facebook, e teve seu auge no discurso de Lolly Bowean, ex-aluna de Harvard e atual repórter do Chicago Tribune. Ao invés de focar na questão política, ela contou sobre uma reportagem que mudou a vida de uma mulher pobre numa comunidade de Chicago e lembrou que “o bom jornalismo pode também encontrar pessoas comuns e descobrir algo extraordinário no que elas fazem. O jornalismo tem o poder de empoderar as pessoas”.

A credibilidade dos veículos tradicionais e a “mentira contada em forma de notícia”

Gay Talese, um dos mais renomados jornalistas do mundo, afirmou certa vez que “no prédio de qualquer redação de um jornal respeitável, a qualquer momento, há menos mentirosos por metro quadrado do que em qualquer outro prédio”.

E é nesse sentido que a mídia americana tem se unido, tentando provar que jornais e jornalistas são dignos de confiança e buscam a verdade dos fatos. Do ponto de vista dos leitores, parece que realmente existe essa procura pelos veículos tradicionais, apesar da grande quantidade de informação que circula nas redes sociais. Reagindo às afirmações de Trump de que sua audiência está desaparecendo, o The New York Times anunciou a maior alta em novas assinaturas digitais – 276 mil, especialmente após a eleição nos Estados Unidos.

Da mesma forma, Kaleida, a recém-criada ferramenta que mapeia o fluxo de informação pelo mundo, há semanas mostra que “Donald Trump” é o assunto mais compartilhado por minuto, a partir do monitoramento nos sites de diversos veículos jornalísticos.

Screen da página inicial do site Kaleida no dia 27 de fevereiro de 2017
Print screen da página inicial do site Kaleida no dia 27 de fevereiro de 2017

Assim, por mais que Donald Trump acuse a imprensa de produzir “fake news” (notícias falsas), existe um movimento interessante por parte dos leitores em saber o que a imprensa tradicional está contando. Aliás, sobre o próprio conceito de “fake news”, o pesquisador brasileiro Carlos Franciscato disse, em sua página no Facebook, que “notícia falsa não existe”. O argumento do professor é muito relevante, pois ele afirma que o uso do termo expressa um apego ao não-conceito, já que é uma contradição em si mesmo. “Qualquer ideia sensata sobre o que é notícia rejeita, por princípio, essa possibilidade de haver um derivativo ‘falsa’”. Ele prossegue:

“Sabemos que a notícia circula em torno da ideia de ‘verdade’. Não a verdade concreta, ‘pura’, inalcançável nas situações e rotinas conturbadas da profissão, mas sua versão imperfeita, inacabada, contaminada por paixões e interesses. A verdade sendo, mesmo assim, o horizonte que dá sentido e direção à atividade jornalística. A verdade como o próprio ar que dá vida ao jornalismo. A mentira sempre será a negação da notícia, sua asfixia. E não precisamos muito esforço para saber diferenciar o erro involuntário que o jornalista às vezes comete do ato de mentir, deliberadamente falsear, que nega a atividade jornalística”

Franciscato conclui, de forma muito assertiva, que na verdade o termo se refere a uma “mentira contada em forma de notícia”, que extrai artificialmente da notícia seu formato para produzir um texto que se mascara com alguns princípios do jornalismo.

Como as notícias e os bons jornalistas são

Também com o objetivo de refletir sobre o que são as “fake news”, o sociólogo Michael Schudson faz o caminho contrário: ele se propõe a enumerar elementos que mostram o que as notícias realmente são. “Quando queremos saber o que está acontecendo no mundo, não ligamos para o 911. Nós buscamos apuradores profissionais de notícias que conquistaram reputação por sua confiabilidade”, afirmou, em artigo publicado na Columbia Journalism Review. Em momentos arenosos como esse, parece uma tentativa muito pertinente.

Schudson lista algumas marcas que identificam o jornalismo de qualidade:

  • Disposição para retratar-se, corrigir e implícita ou explicitamente pedir desculpas por erros em tempo hábil.
  • A confiança na ética profissional, incluindo precisão, interesse em evidências contrárias (reporte contra suas próprias convicções), e persistência na investigação independentemente de sua implicação política (se você é um repórter e não um propagandista, você deve seguir a história mesmo se ela prejudicar a carreira de um candidato ou partido que você pessoalmente gosta ou que seu jornal é a favor).
  • Jornalistas confiáveis podem ser identificados por algumas características: são calmos e não se impressionam facilmente, apresentam múltiplos pontos de vista se o assunto é controverso, identificam suas fontes sempre que possível, utilizam dados e bases de dados aceitáveis e autoridades confiáveis, e perseguem evidências e pistas que vão contra seus palpites, paixões e preferências.

É claro que podemos ponderar se a imprensa americana tem seguido esses preceitos, mas é inegável que eles são basilares para o que convencionamos chamar de bom jornalismo ao longo dos anos. E dar-se conta disso pode ser o primeiro passo para lutar contra Trumps e fake news.

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