Vanessa Pedro
Jornalista, pesquisadora, professora da Unisul e doutora em Literatura

De forma permanente perguntamos a função da imprensa, dos meios de comunicação, dos jornalistas e da própria notícia. Respondemos que o jornalista é o cronista da realidade, que o jornalismo conta como o mundo é, que as notícias nos dizem o que acontece por aí, local ou global, do buraco de rua aos meandros do poder, e que nada mais antigo do que o jornal de ontem. Muita coisa tem se transformado no universo da notícia, a ponto de discutirmos modelos, formatos, atribuições e o espaço dessa forma de conhecimento e dos profissionais que a constroem. As crises são muitas e também são diversos os esforços para compreendê-las e criar novas formas para o jornalismo. No meio de tanta indefinição, reinvenção, seguindo às vezes até o método da tentativa e erro, o caminho não apenas mais interessante como no qual me posiciono como pesquisadora é o de constantemente analisar escolhas e procedimentos já utilizados e que construíram o jornalismo como ele se apresenta hoje e, ao mesmo tempo, pensar sobre novas formas, possibilidades, resistências e rearticulações.

Começando pela análise do que foi construído e como é reforçado na estrutura da notícia, pensamos com frequência nas aproximações entre o jornalismo e o poder. Seja poder econômico, social e também político-institucional. As últimas décadas têm visto uma consolidação das declarações oficiais como fontes recorrentes e preferenciais das notícias. De um lado é perceptível a tentativa de cooptação da imprensa por parte de políticos à frente de instituições, embora essa lógica valha para outros representantes e outras instituições de poder. Boa relação com a imprensa, e aqui pensamos nas instituições dos meios de comunicação tradicionais, significa empatia por uma determinada fonte que sempre será ouvida, citada, considerada e, em geral, não criticada. Essa aproximação também se deve ao modo de produção que cada vez mais ganhava espaço, que era menos repórteres nas redações e menos repórteres nas ruas. As fontes oficiais representam instituições, suas declarações são consideradas de tanta credibilidade quanto a própria instituição que ela representa e o poder termina por coroar essa percepção e seduzir o narrador e a narrativa. As informações, e as próprias notícias, vêm “prontas” para os jornalistas publicarem. Faltando apenas a chancela da empresa de notícias que, considerando a fonte oficial e sua correspondente declaração um produto de alta credibilidade, apenas as reproduzem. Passa de fonte privilegiada à própria notícia. Os enfrentamentos narrativos das fontes acabam acontecendo em casos particulares, ligados a grandes furos que não podem deixar de ser noticiados, ou de forma seletiva, dependendo de quem seja de fato a fonte oficial. Se a fonte oficial é popular, a credibilidade, a relação próxima e a publicação automática como notícia ganham o tom de outra função do jornalismo, que é questionar o poder. Se não é este o caso, a fonte oficial e a declaração entre aspas têm sido o caminho mais seguro para a notícia.

Distância curta e perigosa

Portanto, relação de sedução e interesse com o poder, alterações no modo de produção e no olhar de quem é ou não fonte da imprensa jogaram o jornalismo no colo das fontes oficiais. Nas páginas dos jornais, nos noticiários de TV e ainda hoje nos sites de notícias, a tecla de aspas é bastante utilizada. Além de poucas histórias serem contadas, e afinal o jornalismo é sobre contar histórias, a seletividade das fontes e o privilégio das fontes oficiais têm empobrecido a narrativa jornalística. Enquanto a historiografia se deu conta de que precisava se pensar como narrativa e construção histórica ela mesma, e a alterar o seu olhar a partir das fontes, o jornalismo tem caminhado a passos largos na direção oposta. Ele nasce da entrevista, das histórias e do cotidiano para caminhar nas últimas décadas, agarrado à tábua salvadora da objetividade e da citação entre aspas, para um afastamento das histórias das pessoas e uma aproximação das declarações. A historiografia passou a falar dos subalternos e das pessoas comuns e o jornalismo, das funções que declaram, tornam-se fontes e ocupam capas de jornais e sites entre aspas.

Nesse processo, o jornalismo fica amigo demais dessas fontes oficiais, se vendo como intocável, privilegiado e sendo ele mesmo um poder. Amigos do poder, considerando declaração como notícia e sendo pouco criativo na produção de temas para as notícias, a não aquelas que caem no colo produzidas pelas mesmas declarações, o jornalismo perde leitores, capacidade narrativa, diversidade de fontes e olhar e lugar como intérprete privilegiado da realidade. Vem mudando também a tecnologia, amplia-se a capacidade dessas mesmas fontes oficiais de chegarem diretamente, e sem o jornalismo, à sociedade ou aos seus públicos específicos e numerosos e a imprensa, que se achava próxima e com lugar cativo, perde tanto a consideração dos leitores, porque perdeu sua capacidade de narrar, quanto não é mais necessária às fontes de poder.

Dois exemplos me fizeram pensar nesse intrincado jogo de tabuleiro onde a ação de um implica na ação do outro e onde passo a avaliar as jogadas das fontes oficiais, das empresas de comunicação, dos jornalistas e dos leitores. Nos Estados Unidos, o presidente norte-americano Donald Trump inicia sua própria guerra e, diferente dos seus sucessores que privilegiavam guerras em outros territórios e contra inimigos estrangeiros, sua primeira batalha tem a imprensa como alvo. O lugar de poder do jornalismo é questionado, produto e processo são acusados de falsos, a narrativa jornalística é considerada ineficiente e os jornalistas indispensáveis como narradores da realidade. O discurso oficial agora fala diretamente ao seu público-alvo e a acusação à imprensa é mais propaganda para sua plateia, que aplaude. O passo seguinte foi proibir o acesso dos maiores jornais norte-americanos, que passavam por crises de redução de leitores como as demais empresas de comunicação no mundo, aos espaços de poder do governo. Inclusive de estar presente em entrevistas coletivas do governo federal. Uma vez amigo do poder, e não apenas desse ou aquele presidente, agora na lista de inimigos.

No Brasil, também se percebe esse excesso de amizade e o desprezo pelo jornalismo quando ele decide questionar o poder e abalar o acordo de amizade. No carnaval de 2017, no Rio de Janeiro, o prefeito recém empossado Marcelo Crivella não participou do calendário oficial do carnaval. Ele sequer entregou a chave da cidade ao Rei Momo, num evento que já é tradicional do maior evento popular do Rio. Ao ser questionado por um jornalista sobre esta decisão e sobre não ter prestigiado os desfiles das escolas de samba, Crivella teve a pronta resposta e declarou que seu calendário não era o calendário da imprensa. Bem que a voz popular avisa que a intimidade é uma m*. De tão próximos, imprensa e poder, declarações oficiais confundidas com notícia e até a validação de certas pautas, discursos e políticas iludiram o jornalismo standard de que seu lugar de poder também estaria garantido. Mas parece que não é bem assim. O jornalismo de declaração empobreceu a cara narrativa jornalística, reduziu suas fontes, fez perder credibilidade e capacidade narrativa, tem olhado menos para o mundo e tornou-se mais burocrático. Agora é alvo também do poder e já ocupa o lugar de inimigo.

Nesse jogo de tabuleiro, vamos observando as transformações e consequências de escolhas, formas de produção, filosofias e práticas de décadas. Do resultado de cada jogada dependem a capacidade da sociedade de compreender a si mesma e seus processos, as possibilidades do jornalismo de narrar a realidade e de se posicionar como referência narrativa e como possibilidade para que a História também seja construída de forma mais justa e diversa. Vamos ver como o jornalismo reagirá a isto. Se repensando sobre quem caminha ao seu lado ou se tornando-se ainda mais próxima do poder, neste caso apenas num ato desesperado na tentativa inútil de ser considerada um igual com poder também. Se querendo ser amigo de quem acha que é o dono da bola, e na verdade é o administrador provisório do campinho, ou se repensará seus atribuições, modos de produção, diversidade e escolha de fontes e histórias que quer contar.

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