Luis Alberto Fernández Silva
Doutorando no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Não é segredo que a imprensa cubana precisa de uma renovação de seu modelo de gestão e das formas como aborda a realidade de uma ilha com mais de onze milhões de cidadãos e que adiciona mil pessoas a cada hora. As transformações econômicas e sociais que estão experimentando cubanas e cubanos há mais de uma década, visando desbloquear as forças produtivas do país e livrar a sociedade de uma série de proibições e procedimentos burocráticos, colocam o sistema de meios oficiais contra a parede ante a insuficiência e precariedade da sua cobertura informativa, enquanto as relações sociais e as subjetividades derivadas destes processos reformulam conceitos como liberdade, participação e inclusão.

Embora seja verdade que, com o colapso do bloco socialista no leste europeu  (1989-1991), além da economia, a imprensa cubana foi um dos setores mais afetados[1], hoje o fosso entre as transformações que ocorrem na realidade cubana e nos meios de comunicação é diametralmente oposto. A imprensa cubana foi congelada no tempo, agarrada às suas funções de mobilização e consenso criativo da opinião pública em favor das ações governamentais – reafirmadas durante os anos 90 do século passado -, enquanto uma realidade, mais complexa e diversa, qualifica a cotidianidade de cubanas e cubanos que exigem novas maneiras de ser abordada e refletida pelos meios de comunicação.

As razões e urgências de dar ao jornalismo cubano valores que refletem efetivamente os sucessos e decepções da realidade da ilha foram apresentadas em vários cenários até pelos próprios jornalistas locais[2]. Após vários anos de uma política de informação ineficiente caraterizada por práticas nocivas, tais como a construção da realidade do binarismo “inferno internacional & paraíso nacional”, o uso excessivo da linguagem triunfalista, a ausência de debate público, o excesso de números como argumento dos eventos, entre outras, tudo isso levou a uma perda da credibilidade dos produtos jornalísticos e, assim, ao surgimento e consolidação de novas vias de informação dentro da dinâmica social de Cuba. Não levá-las em conta como uma medida da falta de informações que têm os moradores da ilha e como sintoma do colapso da imprensa nacional poderia agravar as taxas de apatia que existem sobre ela.

A diversidade de referências midiáticas

Um dos aspetos que marca a diferença é a diversidade do espectro midiático. A polarização política acentuada dos conteúdos noticiosos e a assimetria no tratamento de questões de grande impacto social levaram os cubanos a procurar novas vias de informação e entretenimento. Tanto Paquete[3], a expansão do acesso à internet, como o sinal de canais de televisão estrangeiros que fornecem as Antenas[4] são canais de informação que neutralizam a primazia dos meios oficiais. Como parte do conteúdo gerado por estas vias alternativas – a maioria delas são ilegais para o Estado Cubano – contam cada vez mais com meios jornalísticos de âmbito nacional que têm um discurso informativo que permite que moradores da ilha tenham diferentes narrativas sobre os eventos que ocorrem, ou que contem o que a mídia oficial silencia. A sua presença impõe desafios diários para os responsáveis pela definição da agenda de imprensa oficial de Cuba.

Consolidação de meios alternativos de imprensa

Enquanto alguns falam de sua aparição na década de 80, a verdade é que nos últimos anos com o advento da internet para a ilha se experimentou uma consolidação da imprensa alternativa ou independente que teve impacto no ambiente social cubano. Com uma agenda da mídia que se caracteriza pela diversidade de abordagens, subjetividades, etilos e discursos, eles conseguiram ganhar a atenção de vários jornalistas das mais recentes gerações. Sites como OnCuba Magazines, El Estornudo, Cibercuba, a revista semana Progresso Semanal, Periodismo de Barrio, entre outros, são divulgados no espectro de mídia da ilha com produtos jornalísticos totalmente longe das fórmulas ortodoxas do jornalismo oficial.

Apesar de ter limitado o acesso a estatísticas e fontes do governo – limites até mesmo dos meios oficiais -, a sua principal contribuição é exibir no espaço público por meio de uma narrativa crítica os conflitos, situações e eventos do cotidiano dos cubanos e cubanas. Seu discurso contrasta com a monotonia da imprensa oficial que lhe permite ganhar mais público. Um sinal disso é o acentuado interesse de colaboração que muitos recém-formados em jornalismo têm com estes meios alternativos.

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Jovens jornalistas, novas abordagens

Uma nova geração de profissionais invade a mídia oficial do país, e eles querem mostrar a realidade cubana desde seus conflitos, diferenças e contradições o que excede as dinâmicas produtivas e editoriais desses. Os jovens procuram fazer um jornalismo que se assemelhe à sua realidade e mostrar Cuba como um país que não tem um só pensamento, mas sim uma ilha-mosaico composta por mais de onze milhões de perspectivas.

No ano passado, a proibição da colaboração de jovens jornalistas que trabalham para meios de comunicação estatais com a mídia alternativa foi uma das medidas radicais com a qual o governo tentou contrariar o marcado interesse despertado neles pelas novas formas de fazer jornalismo. Dada a ineficácia da medida, que só provocou uma explosão de pseudônimos, o governo cubano optou por uma abordagem mais dialógica com as novas gerações de jornalistas. Buscando maior consenso e entendimento estão sendo feitos os Encontros Nacionais dos Jovens Jornalistas, onde tem se refletido o descontentamento com as dinâmicas produtivas e editoriais da mídia oficial. Na última das duas edições foi proposto, na sua declaração final, acelerar as mudanças estruturais nos meios de comunicação, premiar e promover o trabalho dos jovens jornalistas que se destacam por seu exercício, tornar mais claro o estatuto de cada meio em Cuba e discutir as políticas de colaboração com a mídia nacional e estrangeira[5].

Sem qualquer dúvida, esta força supõe uma das maiores pressões para o sistema da mídia na ilha, e como novas maneiras de fazer contrastam com dinâmicas informativas muito polarizadas. Os novos jornalistas não procuram fazer um jornalismo contrário aos princípios do sistema social cubano, nem com o estilo de Yoani Sanchez. Eles tentam fazer uma prática muito mais democrática, participativa e inclusiva.

Desregulamentação legal e profissional da mídia

Outra particularidade que ameaça o jornalismo é a ausência de uma base legal para apoiar juridicamente o seu exercício na ilha. Embora há anos se vem estudando a ideia da aprovação de uma lei de comunicação, isso não se materializa. Sua ausência contribui para que os padrões de qualidade do jornalismo permaneçam nas mãos de gestores que na sua maioria têm muito pouco conhecimento sobre gerenciamento de mídias e só respondem automaticamente às orientações das agências governamentais. Em contrapartida, uma lei como essa poderia facilitar o desempenho jornalístico para reivindicar a informação como um direito público, permitiria uma relação mais equilibrada com as fontes de notícias, ajudaria a compensar a maior parte do sigilo que prolifera nas instituições do Estado e daria uma maior assimetria de tratamento de temas que hoje não têm uma cobertura jornalística em sua precisa medida.

A ausência de mecanismos de monitoramento de imprensa é outro ponto fraco em Cuba. A presencia de um Observatório de Imprensa seria uma ferramenta valiosa para ajudar os meios de comunicação a se impor através de seu exercício, depois de tantas décadas de práticas que têm sido prejudiciais para a sua credibilidade. A crítica oportuna, tanto à mídia como aos profissionais que praticam o jornalismo, ajudaria a estabelecer padrões de qualidade que levariam a imprensa a tomar seu lugar de direito na sociedade e facilitar a reduzir o fosso entre a realidade e a cobertura que se faz dela.

Em conclusão

É evidente que a prática do jornalismo em Cuba passa por um desses momentos em que é chamado a reconsiderar suas práticas e encaminhá-las para conseguir narrativas que mais se aproximem da realidade vivida pelos cidadãos cubanos. Se não fizer-lo, estará dando seu próprio xeque-mate.

Os cubanos já começaram a procura de novas vias de informação que lhes fornecem uma noção da complexidade dos eventos que os afetam, enquanto os níveis de apatia e falta de credibilidade tornam-se mais acentuados para a mídia oficial. Referências de novas mídias, a diversificação dos meios de comunicação independentes ou alternativos, novas gerações de jornalistas e uma forte desregulamentação legal e profissional do exercício são algumas das características de uma realidade que exige que o jornalismo cubano seja muito mais abrangente na sua cobertura de notícias, que possua uma maior diversidade editorial e uma narrativa que mostra a complexidade dos processos que ocorrem em uma ilha que deixou de ficar bloqueada midiaticamente faz muitos anos.

As novas configurações sociais que se encontram num processo de restruturação requerem das mídias um discurso mais plural. Ter consciência de que os seus produtos de informação não são os únicos dentro do espectro de mídia da ilha e que uma nova geração de jornalistas traz novos recursos estéticos, questões e visões da realidade são a base para uma nova transformação para garantir a sua supervivência como profissão.

Cuba precisa cada vez mais de um jornalismo crítico, argumentativo e oportuno, que permita que ele seja o zelador de um processo social que está comprometido com a construção de uma sociedade melhor, onde se faça fiel homenagem à fórmula do amor triunfante de José Martí: “Com todos e para o bem de todos”.

Bibliografia

GARCÍA Luis, Julio. Revolución, Socialismo, Periodismo: La prensa y los periodistas cubanos ante el siglo XXI. La Habana: Pablo de la Torriente, 2013.

EL OBSERVADOR. El Nuevo periodismo crítico cubano. El Observador, Uruguay, 23 de marzo de 2016. Disponible en: http://www.elobservador.com.uy/elnuevoperiodismocriticocubanon886092 (Consultado: 28 febrero de 2017).

CUBADEBATE. Siete tesis sobre la prensa cubana. Cubadebate, La Habana, julio de 2013. Disponible en: http://www.cubadebate.cu/opinion/2013/07/14/sietetesissobrelaprensacubana. (Consultado: 27 febrero de 2017).

LABACENA Moreno, Yuniel. Mirada joven al periodismo cubano. CUBAHORA. La Habana, 10 de febrero de 2017.. Disponible en: http://www.cubahora.cu/sociedad/mirada-joven-al-periodismo-cubano (Consultado: 3 de marzo de 2017).

FAJARDO, José. Ser periodista en la nueva Cuba. El Mundo, España, 25 agosto de 2016. Disponible en: http://www.elmundo.es/papel/historias/2016/05/04/5721e788268e3ef7568b4632.html. (Consultado el 26 de febrero de 2017).

[1] Em Cuba, o processo da Glásnost foi considerado como uma das causas fundamentais do colapso da URSS, razão pela qual a imprensa cubana em 1991 sofreu uma maior centralização e regulação pelas instituições governamentais da ilha. Cf. GARCIA LUIS, Julio. Revolución, Socialismo, Periodismo: la prensa y los periodistas cubanos ante el siglo XXI: Pablo de la Torriente, La Habana, 2013. p.141

[2] Consulte o discurso introdutório para o debate no Congresso da União de Jornalista de Cuba (UPEC) em: http://www.cubadebate.cu/opinion/2013/07/14/sietetesissobrelaprensacubana/

[3] Conjunto de material digital que circula semanalmente e clandestinamente em Cuba como uma substituição de internet de banda larga. Seu conteúdo, que atinge 1 terabyte, inclui séries, filmes, reality shows, aplicações piratas para telefones celulares, revistas, etc.

[4] Serviço de sinal de televisão estrangeira pirateado de sinais de satélites para hotéis e instituições com este serviço. Este fenômeno é mais caraterístico na capital cubana.

[5] LABACENA Moreno, Yuniel. Mirada joven al periodismo cubano en: http://www.cubahora.cu/sociedad/mirada-joven-al-periodismo-cubano

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