Carlos Marciano
Doutorando em Jornalismo no POSJOR/UFSC e pesquisador do objETHOS

Ah, as redes sociais… um antro que dissemina a misoginia na maior parte do ano, mas em um dia (ok, vamos relativizar para a semana toda) é ocupado pelos posts floridos, vomitando hipocrisia. Então ouço algo do tipo “mas rapaz, que coisa feia, você está generalizando, pois não vi nada disso no meu feed”. Bom, será que é só na minha timeline que existe isso? Será que então estou precisando rever minhas amizades virtuais? Correndo o risco de ser generalizante, acredito que valha a pena tratar sobre o assunto, afinal, os tristes e assustadores números potencializam a necessidade do debate.

Há cinco dias foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, 8 de março, uma data bem conhecida, mas infelizmente pouco compreendida. Boa parte das publicações ressaltavam o valor doméstico da mulher, sua qualidade como mãe admirável, a exaltação do estigma da bela, recatada e do lar. O dia que tem como propósito valorizar e incentivar a luta feminina por direito e igualdade, mas todo ano acaba por ser ofuscado pelo machismo e as promoções de roupas, eletrodomésticos e cosméticos.

Nessa época, homens que passam o ano todo defendendo os baixos salários das mulheres devido a TPM, possibilidade de gravidez e falta de força física, pensam que se redimem postando fotos onde aparecem lavando a louça e arrumando a casa. Aliás, desculpe, meu chapa, mas me recuso a concordar com sua ignorância no primeiro argumento e te alerto que ajudar nos afazeres domésticos não é um favor, mas uma obrigação sua.

Devemos nossa vida a elas, devemos viver para elas, ou melhor, devemos deixá-las viver como bem entenderem, sem preconceito, com as mesmas igualdades e direitos. É preciso reforçar a luta feminista não só um dia, mas a toda hora, e as tristes estatísticas só reforçam essa necessidade.

De acordo com uma pesquisa feita pelo Datafolha e encomendada pelo Fórum Brasileiro de Segurança, 503 mulheres sofreram agressões físicas por hora em 2016. Em se tratando de ofensas verbais foram ao todo 12 milhões. E o machismo que machuca também reprime: 52% das mulheres que sofreram violência se calaram, enquanto apenas 11% procuraram uma delegacia da mulher e 13% preferiram o auxílio da família.

É meu caro, se você fez aqueles comentários desrespeitosos quando viu uma mulher passar na rua ano passado, você é um dos culpados pelas 20,4 milhões de mulheres que sofreram esse tipo de assédio (sim, essa é a palavra certa, e não elogio). Isso sem falar nas “encoxadas” nos ônibus ou beijos forçados, como podem conferir na ilustração a seguir.

Os números são alarmantes, mas o que o nome maior de nosso governo disse sobre isso no discurso de 8 de março? Nada. Ou melhor, provavelmente acometido por uma amnésia política que o fez esquecer a antiga dona do cargo antes do golpe impeachment, referiu-se ao dia que marca a luta feminista exaltando a mulher boa mãe e conhecedora da economia do supermercado.

Teria eu feito uma interpretação errônea do discurso? Talvez, e me perdoem por isso, porém penso que, se era essa a real intenção, ele poderia ter melhorado um pouco o texto para fazer jus ao real objetivo dessa significativa data, como fez Justin Trudeau, primeiro-ministro do Canadá.

Ao contrário do que pensa nosso governante, o lugar das mulheres vai muito além da casa. Uma sociedade só cresce promissora quando existe igualdade, quando é semeado o respeito e a tolerância. Se existem homens que tiveram boas ideias, assim também existem mulheres pioneiras e que conquistaram grandes feitos para a humanidade, como por exemplo as 48 que receberam o Prêmio Nobel.

Valorizar as conquistas é importante, porém mais que isso é preciso incentivar e valorizar as batalhas. Mulheres sofrem todos os dias com comentários, pensamentos e ações. Sofrem no trabalho, na rua, em casa e até quando só querem buscar o lazer. Precisam superar violências físicas, sentimentais e psicológicas. Anseiam pela propriedade e bom uso de seu útero, sua mente, suas roupas.

O maior erro que podemos cometer é sermos omissos quando debatemos esse tema, fechar os olhos para essa desigualdade de gênero, ter conhecimento dessas tristes estatísticas e não ligar para o 180 quando presenciamos maus tratos contra alguma mulher. Informar é o primeiro passo para vencer a ignorância, perceber que feminismo não é o oposto de machismo, mas sim algo necessário para uma sociedade mais justa para todos.

Por fim, volto não cinco dias, mas quatro anos, relembrando um texto publicado por mim em 8 de março de 2013 nessa mesma rede social cujas postagens recentes aprimoraram meu sensor de hipocrisia. Minha mensagem para saudar a vocês, guerreiras mulheres, fora da data sim, afinal, a exaltação de vossa luta não deve se prender ao calendário:

“Desejo a vocês parabéns, não apenas porque hoje é o dia internacional criado para vocês, mas por este dia representar vossa conquista.

Conquista que não se resume em um dia, mas em uma constante batalha pela valorização neste mundo onde os princípios parecem cada vez mais sucumbirem-se no pretérito, na busca de dias melhores em um futuro mais que imperfeito.

Não desejo que neste dia recebam muitos presentes, dinheiro ou status. Não porque vocês não mereçam, creio que mereçam até mais que muitos homens, mas porque uma mulher é mais que isto e não deve ostentar um estereótipo que mais denigre do que exalta vosso valor.

Joias caras, roupas de grifes, jantares chiques. Outros maravilhosos mimos poderão receber neste dia e, sem que percebam, estes esfumaçarão antes que as 24 horas findem. Claro que, além do material, pode ficar a magia do momento com a pessoa querida, mas você, mulher, merece mais do que a lembrança da magia capitalista pode oferecer; merece amor incondicional, reconhecimento profissional, paz espiritual e respeito essencial.

Não se deixem levar pela imagem do sexo frágil, da mulher que deve sempre ser linda, rica e submissa. Que deve buscar seu espaço desde que este não interfira no do sexo oposto. Se você não quiser não precisa se casar, ter filhos, viver com outro homem. Tão pouco precisa comprar compulsivamente na ilusão de que quanto mais bonita estiver melhor será vista: aos olhos de quem quer vê-la mal roupas caras não evitarão seu escárnio.

Desejo que cada vez mais tenham força para lutarem por seus direitos, coragem para denunciar e enfrentar quem as opor, discernimento para saberem o que realmente é bom para vocês perante a enorme gama de lixo que jogam a fim de persuadi-las.

Desejo meus parabéns a você, mulher batalhadora. Que vive e que sonha; que deseja e busca; que sorri e que chora; que jamais desiste. Parabéns as solteiras que tem o animal de estimação como filho e não tem medo de assumir o desejo do não compromisso. As que convivem com o companheiro (a), trabalham, criam os descendentes e são felizes em conjunto. As ricas e as pobres, bonitas e feias, gordas e magras, solitárias por opção, felizes por convicção.

Os gregos veneravam sua origem na imagem de Gaia; em verdade vocês representam o início de tudo, a semente da vida. Vivam intensamente cada instante; mais em prol de vocês mesmas, menos na tentativa de agradar aos outros que muitos não as conhecem. Homem que não reconhece seu valor não merece seu respeito.

Parabéns a você, mulher. Com qualidades e defeitos, calmaria e TPM, garra e ganância, autoestima viva e uma pitada de luxúria. Mesmo que digam o contrário tenha certeza que és linda como Pandora; no físico, inteligência, astúcia e sagacidade. E se a caixa que leva seu nome for aberta por acidente; espalhando os infortúnios por seu caminho; tenha ciência que no fundo da arca resta sua arma mais preciosa e forte: a esperança para recomeçar e vencer a batalha.

Parabéns a você, mulher, e palavras me faltam para expressar a importância que tens neste mundo. Valorize-se e goze daquilo que te satisfaz em primeiro lugar, na falta em quem confiar confie na sua capacidade de seguir até o sucesso.

Parabéns a você, mulher. Independente de sua etnia, orientação sexual, crença ou profissão. Parabéns por trazer mais sentido a nossa vida. Seja guerreira da maledicência que lhes persegue, oportunista aos seus escopos, não deixem de lutar por seus direitos e preferências. Não permitam que imponham em vossas cabeças ideologias e dogmas; se assim desejam, lutem sem medo pelo feminismo e pelas suas convicções. Viva intensamente, viva feliz, hoje e sempre.

Gratos somos pela sua existência, pois, independente de sua origem e de quem és, tem um sentido em sua presença neste mundo. Busque-o, anseies, lute por seus ideais.

Parabéns a você, mulher. Pobre ou rica, solteira ou casada, homo ou hétero. Filha, mãe, tia, avó, bisavó, tataravó… Do lar ou magistrada; que trabalha, é sustentada ou desempregada.

E no meio de tantos opostos desejo que apenas os bons sentimentos perseverem a seu lado: seja mais feliz e menos triste; que não haja, mas se houver ofensa que tenha mais perdão. Que as trevas rendam-se a teu brilho; que você propague a união perante as discórdias; desfrute de mais verdades e menos erros; elimine o ódio recebendo e disseminando o amor.

Parabéns a você, mulher. Que você continue esta heroína de cada dia, com poderes e responsabilidades, que luta por quem te venera e muitas vezes pelos inimigos. Desejo que tenhas força para continuar esta batalha na luta pelo bem comum. Desejo que você seja o contrário de muitos heróis, zelosos primeiramente pelo mundo.

Desejo, acima de tudo, que tenha força para lutar por aquilo que te torna especial no mundo: lute, a priori, por você, mulher”.

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