João Somma Neto
Professor de Jornalismo da UFPR e pesquisador associado do objETHOS

Ao lado de um novo modismo televisivo brasileiro em que os programas pretensamente gastronômicos ganham espaço, muitas vezes em cópias mal feitas de atrações internacionais, os noticiários da TV enveredam por uma seara (sem trocadilho) que monta um panorama sombrio envolvendo a ficção previdenciária com o ímpeto de generosidade governamental visando “premiar” o trabalhador com as migalhas restantes nas contas inativas de seu FGTS, e a operação carne fraca a evidenciar o total descaso com a qualidade de produtos colocados todos os dias em nossas mesas.

O tacho fervente da programação apresenta uma mistura de ingredientes que inclui desde competições entre aspirantes a chefe de cozinha, ou entre mães de famosos que se arriscam no fogão, até demonstrações quase didáticas de preparo de pratos os mais variados quer sejam feitas por celebridades ou proprietários de restaurantes famosos, os quais se dispõem desde ensinar como se pode fazer um simples sanduíche, passando pelo churrasco por demais apreciado, até doces, bolos, sobremesas, ou as comidas mais sofisticadas ou exóticas.

Em alguns desses programas o telespectador depara com chefes antipáticos, grosseiros, sabichões, quase nunca amáveis, verdadeiros atores canastrões, a interpretar personagens que avaliam e julgam o desempenho de sonhadores, num espetáculo simplesmente grotesco sob o patrocínio de empresas do ramo alimentício, algumas flagradas agora em graves delitos sanitários.

Apesar de seus conteúdos paupérrimos, continuam sendo exibidos certamente em função de obterem alguns pontos nos índices de audiência, que afinal de contas é o que acaba valendo para as emissoras no que diz respeito à manutenção ou não de suas grades de programação. Ou seja, enquanto uma parcela do público não enjoar com o cardápio servido ele continua mantendo determinados pratos, sejam servidos quentes ou frios, para deleite daqueles que têm estômago para degustá-los.

Enquanto essa moda decalcada da televisão estrangeira, principalmente dos canais de sinal fechado, ainda resta ao público pouca coisa a escolher em termos do que se pode esperar quanto a produtos televisivos de real qualidade. Parece que se repete aqui o mesmo desrespeito ao consumidor com que agem os patrocinadores desses shows. Uns colocam no balcão produtos vencidos onde foi adicionado certo tipo de ácido para camuflar a decomposição, carne misturada com papelão, embutidos fabricados com tipos proibidos de proteína animal, etc. Outros servem de bandeja o ultraje como forma de diversão a uma parte do público que busca pelo menos entretenimento fácil e aparentemente de graça a atenuar os percalços do cotidiano, nem que seja pelo conhecimento e contato com pratos muitos dos quais nem possa adquirir os componentes necessários a seu preparo.

Mas nem tudo são reminiscências da cozinha no mundo encantado da televisão brasileira, também o telejornalismo aparenta estar um tanto contaminado com os conceitos definidos e defendidos com unhas e dentes pelas instâncias de poder, sobretudo pelos áulicos do governo federal, por um parlamento omisso e reverente, bem como por um judiciário na maior parte das vezes inoperante em que pesem as ações decisivas desse poder no combate à corrupção na política e na administração pública.

Um exemplo disso é o problemático, para dizer o mínimo, projeto de reforma da previdência social. A maioria dos telejornais tem tratado essa proposta sob a ótica do governo Temer, na perspectiva do ministro Henrique Meirelles e de outros membros da cúpula diretiva nacional, encampando a ideia de que a previdência social é deficitária, ou se ainda não é integralmente, apresentará um rombo muito mais profundo em futuro próximo.

Em geral as reportagens e entrevistas têm ido por esse caminho, como se o objetivo maior fosse convencer a população quanto à necessidade das mudanças do jeito que está sendo proposto, e o pior é que não se vê os jornalistas questionando de forma adequada os interlocutores que defendem o projeto do governo, ou seria dos grupos econômico-financeiros interessados em explorar a fatia de mercado que se abrirá com a reforma previdenciária em busca de lucros astronômicos?

Entre as exceções pode-se citar o Jornal da Record News comandado por Heródoto Barbeiro, cujo formato permite debater com um pouco mais de aprofundamento por meio de entrevistas com convidados defensores de pontos de vista diferentes.

Contudo os noticiários padrão têm se mostrado um canal altamente favorável à divulgação daquilo que o governo tem usado como justificativa para sua proposta indecente. O que temos oportunidade de assistir são repórteres sem iniciativa alguma para inquirir com mais vigor as fontes oficiais, a fim de obter informações mais precisas e por consequência mais confiáveis.

Em nenhum momento há preocupação de se indagar se já foi feita uma auditoria completa na previdência. Diversas perguntas deveriam ser formuladas para os proponentes da reforma, se fossem empregados procedimentos balizadores de um jornalismo de qualidade. Bucci, na obra Sobre Ética e Imprensa, afirma que jornalismo é conflito e nesse sentido os profissionais, sobretudo na televisão, parecem estar perdendo a capacidade de mediar ou de atuar de acordo com o interesse público nesse “conflito”.

As autoridades do setor e os especialistas defensores da reforma deveriam obrigatoriamente responder questões simples, entre outras, tais como: Qual o valor total da arrecadação da previdência e a origem de cada tipo de recurso que entra em seu caixa? Qual o valor total das despesas da previdência, e o que corresponde ao pagamento de benefícios e o que corresponde ao custeio do sistema? Qual a média salarial dos servidores da previdência, e quantos profissionais compõem seu quadro funcional, e também quantos são os comissionados e em quais cargos atuam, e ainda, em complemento, qual o percentual dos salários dos comissionados nas despesas do setor? O número total de comissionados é necessário? Qual o valor do patrimônio imobiliário da previdência, e qual a quantidade de imóveis que poderiam ser vendidos, e os recursos aplicados em prol daqueles que com seus descontos salariais junto com os recursos patronais financiam o sistema? Quais são os grandes devedores da previdência e qual o montante desta dívida, e ainda, o que está sendo feito para realizar a cobrança do que é devido? Há necessidade efetiva de o País possuir e manter um ministério da previdência, ou poderia se implantar outro tipo de estrutura mais ágil e eficiente?

Esses são apenas alguns dos questionamentos possíveis de se fazer, observando as técnicas de produção jornalística, os quais também poderiam ser o ponto de partida para uma apuração de informações com maior qualidade que contribuiria para esclarecer melhor a população ao mesmo tempo em que se desmistificariam muitos sofismas plantados nos meios de comunicação sobre tão relevante assunto em seu aspecto de grande interesse público e social.

Infelizmente esse não tem sido o comportamento comum da chamada grande imprensa embarcada na canoa do governo mesmo tendo todas as condições de apontar que nesse tema os mandatários nacionais estão navegando em uma rota equivocada. O que está prevalecendo é a montagem de um cenário conforme os critérios indicados pelas esferas de poder.

Para não ficar apenas batendo na tecla da tão “imprescindível” reforma da previdência nos moldes impingidos pelos seus idealizadores, providencialmente surge outro tema a que a imprensa atribuiu excessiva importância, a benevolente atitude da liberação de saques de valores depositados em contas inativas do FGTS dos trabalhadores.

Impressiona a quantidade de material jornalístico produzido e veiculado nos telejornais sobre esse assunto. Durante mais de uma semana, pelo menos até onde pudemos acompanhar, todos os dias o tema se fez presente na pauta dos noticiários nacionais e locais de TV.

As “orientações” sobre quem teria direito aos saques, a forma de verificar a existência de saldo em contas inativas, os procedimentos para poder retirar o dinheiro, quais os limites para receber diretamente nos caixas eletrônicos ou transferências bancárias, todas as informações operacionais foram repetidas à exaustão em reportagens, notas, entrevistas e esclarecimentos do banco oficial responsável pelos recursos.

Tudo para que o cidadão comum não perdesse a oportunidade de contar com um dinheiro a mais em seu orçamento, ou melhor, para que esses valores não continuassem parados nas contas e fossem utilizados não importa de que forma, se em gastos que resultem na melhoria nas condições de vida do beneficiado ou meramente empregado em algo supérfluo, como são tantos produtos anunciados com glamour pelas emissoras de TV.

Da feijoada tipicamente brasileira, passando pelo menu intragável previamente definido da aposentadoria do futuro, ao suave molho da liberação do FGTS, esse é o retrato por um dos ângulos menos atraentes da televisão no Brasil.

Se for possível, bom apetite!

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