Ricardo José Torres
Doutorando em Jornalismo no POSJOR e pesquisador do objETHOS

“Por trás de Winston, a voz da teletela continuava sua lenga-lenga infinita sobre o ferro-gusa e o total cumprimento — com folga — das metas do Nono Plano Trienal. A teletela recebia e transmitia simultaneamente. Todo som produzido por Winston que ultrapassasse o nível de um sussurro muito discreto seria captado por ela; mais: enquanto Winston permanecesse no campo de visão enquadrado pela placa de metal, além de ouvido também poderia ser visto. Claro, não havia como saber se você estava sendo observado num momento específico. Tentar adivinhar o sistema utilizado pela Polícia das Ideias para conectar-se a cada aparelho individual ou a frequência com que o fazia não passava de especulação. Era possível inclusive que ela controlasse todo mundo o tempo todo. Fosse como fosse, uma coisa era certa: tinha meios de conectar-se a seu aparelho sempre que quisesse. Você era obrigado a viver — e vivia, em decorrência do hábito transformado em instinto — acreditando que todo som que fizesse seria ouvido e, se a escuridão não fosse completa, todo movimento examinado meticulosamente” (ORWELL, 2009, p. 10-11).

Em 1949, George Orwell publicou esse trecho, que trata do personagem Winston, no livro “1984”. No limiar entre ficção e realidade e em uma perspectiva distópica, o autor antecipou cenários semelhantes aos que vivenciamos na atualidade. As formas de restrição de liberdade e controle do pensamento vêm se consolidando silenciosamente travestidas pela política do medo e pela naturalização das múltiplas formas de (auto) vigilância presentes no cotidiano dos indivíduos.

A grande contribuição e a atualidade do texto de Orwell traduzem-se nos impactos que a vigilância em massa está provocando na sociedade e, mais especificamente, no jornalismo. A possibilidade de mudança a partir das ações jornalísticas se diluem diante da incapacidade de leitura dos cenários vigiados e das possíveis consequências nocivas destas formas de intrusão. As capacidades de vigilância do Estado e de grandes empresas transnacionais estão sendo subestimadas pelo jornalismo. A opressão e o retrocesso democrático são impulsionados por princípios jornalísticos elásticos e as alardeadas conquistas tecnológicas estão sendo utilizadas como instrumentos de monitoramento da sociedade. Formas de contestação e os espaços de privacidade estão sendo interditados por possibilidades de monitoramento, consequentemente jornalistas e cidadãos estão expostos às ferramentas de vigilância indiscriminada, conforme aponta Spannos:

“Hoje, governos e corporações controlam partes importantes da rede, incluindo mapeamento de domínios, cabos submarinos, softwares e hardwares, códigos de programação e data centers. Isto significa que a rede está agora altamente centralizada, vigiada, estudada, manipulada e sujeita a vazamentos prejudiciais de dados. Muitos estão preocupados com o fato de que, devido à emergente internet das coisas – que inclui “casas inteligentes”, “cidades inteligentes” e vestíveis – haverá em breve uma explosão de dados pessoais coletáveis, do seu leite estragado à sua pressão arterial e muito mais. Isto abriu portas para uma infinidade de problemas éticos” (SPANNOS, p. 2).

O poder de vigilância está minando liberdades e direitos civis; empresas e governos exploram, manipulam e administram modernos sistemas invasivos motivados por interesses financeiros, políticos e ideológicos. Ironicamente, os jornalistas que teriam o papel de vigiar os abusos e negligencias também estão sendo monitorados. Não há dúvidas, investigações e fontes de informação estão expostas, o trabalho jornalístico pode ser/está sendo controlado por grandes empresas e instituições estatais. Poderosas ferramentas de controle social estão sedimentadas em nossos cotidianos e os próprios usuários abastecem as redes, plataformas e aparatos com informações e dados pessoais que fortalecem cada vez mais as possibilidades de dominação e instrumentalização da sociedade.

Rusbridger (2017) afirma que os órgãos estatais querem controlar as ferramentas digitais. Para ele as razões pelas quais o Estado quer penetrar e controlar o universo digital são as mesmas que o tornam um instrumento de liberdade. O que está em jogo são interesses públicos concorrentes e conflitantes, incluindo aqueles representados por corporações, libertários civis, agências de inteligência, advogados, jornalistas e políticos. Convivemos com dilemas que envolvem privacidade, segurança e liberdade de expressão. Grande parte do trabalho jornalístico está ligado à confidencialidade de suas fontes e de suas apurações, de modo que caso diferentes formatos de intrusão possam identificar os registros de telefone, lista de contatos, os e-mails, textos, a localização, metadados e conteúdos produzidos pelos jornalistas, estamos em uma zona de risco sem precedentes.

Jornalismo sob interferências e emergências

Os efeitos da vigilância na prática jornalística contemporânea são velados, podendo estar relacionados com atitudes de repressão, pressões, prisões e até outros riscos para profissionais e fontes. Muitos jornalistas estão cientes desta realidade, entretanto, a maior parte destes profissionais não utiliza medidas básicas de segurança nas suas ações cotidianas. O quadro apresentado não é de desinformação relacionado ao estado de vigilância, mas de omissão diante desta realidade.

Conforme Shirky (2017), uma questão essencial para o jornalismo é como os jornalistas podem fortalecer a sua capacidade de relatar notícias importantes em um período de crescente interferência. A intervenção está alinhada aos movimentos significativos de restrição dos relatos jornalísticos e dos vazamentos de informação. Novos elementos como, por exemplo, os vazamentos de informações estão revelando debilidades jornalísticas. O volume grandioso e a complexidade das informações disponibilizadas revelam a necessidade de readequações e adaptações para o melhor aproveitamento e tratamento dos dados. O norte parece estar no trabalho de depuração e dimensionamento do impacto de revelações e colaborações.

Shirky (2017) aponta uma tendência de aumento no volume de informações reveladas e indica que os jornalistas devem maximizar a sua capacidade de relatar notícias e minimizar a interferência do governo por meio de três competências. A primeira está relacionada com a obtenção de bons canais de comunicação criptografada onde, no mínimo, os repórteres sintam-se confortáveis ao se comunicar por e-mails criptografados. A segunda indicação diz respeito ao contato dos jornalistas com “vazadores” por meio de um plano que envolva outros jornalistas. A terceira competência aponta que os jornalistas devem descobrir a quem eles podem ser úteis como um terceiro destinatário dos segredos que serão publicados, como uma forma de backup. Por fim, fontes corajosas vão exigir jornalistas corajosos e cooperação entre concorrentes em algum momento.

“Vault 7”: a nova série de vazamentos do WikiLeaks

No dia 7 de março, o WikiLeaks começou uma nova série de vazamentos chamado de “Vault 7”. Considerada a maior publicação de documentos confidenciais da Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA) e o vazamento mais importante sobre vigilância desde das revelações de Snowden em 2013. Os documentos revelam um programa da CIA chamado “Weeping Angel”, que acessa TVs Samsung Smart, permitindo que o microfone embutido do controle por voz fosse manipulado remotamente enquanto a TV aparentemente permanecia desligada.

A primeira parte completa da série é composta por mais de 8 mil documentos e arquivos de uma rede isolada de alta segurança, situada dentro do Centro de Inteligência Cibernética da CIA, e foi obtido através de uma fonte não identificada que queria iniciar um debate público sobre a proliferação de armas cibernéticas. A repercussão dos relatórios e documentos vazados, que está se desenvolvendo, pode ser considerada tímida diante do número de informações reveladas. A complexidade e o número elevado de dados podem ser obstáculos para a divulgação de fatos relevantes e de interesse público.

Os documentos reafirmam o estado de vigilância em massa e revelam um quadro de avanço permanente dos instrumentos de intrusão. Novamente, fica evidente a necessidade de apuração e tratamento destas fontes de informação, pois esses dados precisam ser decifrados e divulgados como informações jornalísticas. Os vazamentos, que incluem documentos datados de 2013 a 2016, reforçam a necessidade de um debate aprofundado sobre as armas cibernéticas. Atualmente, a proteção, abordagem e tratamento de informações sensíveis é algo vital para o jornalismo e para sociedade.

Os jornalistas têm um papel fundamental a desempenhar na luta pela reapropriação, descentralização, experimentação e exploração das possibilidades tecnológicas no que elas têm de melhor: a liberdade. Todos devem estar cientes dos riscos aos quais estão expostos em um contexto que está extinguindo ambientes pessoais e espaços privados. Os governos e as grandes empresas estão muito mais preparados do que os cidadãos para essa disputa desigual pela liberdade nos ambientes digitais. O jornalismo deve demonstrar o nível de risco que estamos enfrentando e o WikiLeaks é uma das tantas iniciativas contemporâneas que encorajam e possibilitam a realização desta função que depende fundamentalmente de disposição e dedicação.

Referências

ORWELL, George. 1984. São Paulo: Companhia das Letras, 2009.

RUSBRIDGER, Alan. Life after Snowden: Journalists’ new moral responsibility. In: BELL, Emily at. al. (org.). Journalism After Snowden: The Future of Free Press in the Surveillance State. New York: Columbia University Press, 2017. Disponível em: http://migre.me/wf7bK. Acesso em: 15 mar 2017.

SHIRKY, Clay. The value of digital data. In: BELL, Emily at. al. (org.). Journalism After Snowden: The Future of Free Press in the Surveillance State. New York: Columbia University Press, 2017. Disponível em: http://migre.me/wf7aT. Acesso em: 15 mar 2017.

SPANNOS, Chris. Vigilância em massa e “totalitarismo inteligente”. 06/03/2017. Actantes. Disponível em: http://migre.me/wf5Z6. Acesso em: 15 mar 2017.

WIKILEAKS. Vault 7: CIA Hacking Tools Revealed. 07/03/2017. WikiLeaks. Disponível em: http://migre.me/wf7fz. Acesso em: 15 mar 2017.

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