Rogério Christofoletti
Professor de jornalismo e pesquisador do objETHOS

Uma das vozes mais críticas à precarização do trabalho do jornalista na Espanha tem um tom comedido, com um volume baixo e sempre calmo. Essa voz é respeitada na academia e no mercado, e tem contribuído muito para o avanço das pesquisas sobre ética profissional e o fortalecimento da profissionalidade das redações naquele país. A dona da voz é a professora Elena Real Rodríguez, do Departamento de Jornalismo III da Universidad Complutense de Madri. No entanto, sua discrição não impede a firmeza com que manifesta preocupação. “Precisamos retomar o protagonismo nos temas da ética e da profissionalidade”, afirmou durante a 4ª Internacional Conference On Media Ethics, onde foi conferencista de abertura em março passado, em Sevilha.

Na entrevista a seguir, feita por e-mail, a professora Elena Real aborda alguns temas importantes da ética jornalística e ainda sinaliza o papel da educação no processo de aprimoramento deontológico e moral da sociedade.

Na Conferência de Sevilha, a senhora defendeu a necessidade de duas formas de autorregulação: uma comunicativa e outra jornalística. Pode falar um pouco mais sobre isso?

Desde que comecei na docência e na pesquisa em jornalismo, há 25 anos, tenho defendido que as soluções para o exercício jornalístico vêm da sua profissionalização. Isto é se consolidar como uma verdadeira profissão. Entre os requisitos para cumprir-lo está o desenvolvimento de um código deontológico. A Deontologia é um conjunto de normas que os próprios profissionais formulam para si mesmos. Para orientar sua conduta profissional. Não implica intervenção dos demais sujeitos envolvidos no processo da informação e da comunicação jornalística. A isso eu chamo de autorregulação profissional. O organismo mais indicado para levá-la a cabo é o colégio profissional, onde estão representados todos os jornalistas [essa instância existe na Espanha e se assemelha aos sindicatos no Brasil, sem ter as funções de representação classista e negociação de acordos coletivos de trabalho]. Há outros mecanismos de autorregulação que afetam diretamente os empresários do setor e o público, e nesses mecanismos participam os demais sujeitos do processo informativo-comunicativo. A isso chamo de autorregulação comunicativa, já que não se refere aos profissionais unicamente, ainda que esses também intervenham porque são parte da elaboração e da difusão da mensagem.

Como a senhora avalia a ética jornalística na Espanha? Que problemas mais se destacam?

Ela está há anos em ponto morto. Precisamente porque a profissionalização está abandonada. E mesmo que essa se cristalize, a ética e a deontologia não poderão se consolidar e avançar. Serão sempre frágeis. Além disso, a alta precarização do trabalho torna as coisas mais difíceis ainda.

E em outros países, em escala mundial, como está o jornalismo em termos éticos?

Para além de promover a profissionalização com as instituições necessárias, é preciso que a vontade dos jornalistas não se curve. E nesse ponto dou muita importância à educação tanto profissional como a da própria pessoa. Se nos equiparmos com os mecanismos que apoiam o nosso trabalho frente ao dever social que temos para com os cidadãos de uma democracia, e em seguida, não nos articularmos nem trabalharmos. E se ainda preferirmos nos vender aos interesses políticos e econômicos, nada vai ser servido. Veja o caso da Itália, a mais avançada na União Europeia no processo de profissionalização. A falta de vontade de seus profissionais não conseguiu exportar o modelo e vender suas virtudes. É um modelo que ainda requer melhorias, como observei em minhas pesquisas. Em vários países da América Central e do Sul tem sido um pouco como na Itália. Ao ponto de suspender as associações profissionais, considerando falta de utilidade, conflito com a liberdade de expressão ou de livre concorrência. É uma oportunidade perdida porque o momento foi mal compreendido e a solução mal aplicada. Em outros países é mais ou menos a mesma coisa.

Uma grande preocupação atual é a quantidade de notícias falsas e o surgimento de um ambiente que muitos têm chamado de pós-verdade. Isso é realmente uma ameaça? O que se pode fazer para combater isso?

A mentira sempre esteve lá. E em nível jornalístico, dando lugar a formatos desagradáveis do ponto de vista da excelência. Temos o exemplo da imprensa marrom do início do jornalismo de massas. Mentir faz parte da maldade humana. E agora, com a ascensão das redes sociais, sofremos com ela igualmente em formato virtual. Mas você tem que separar o que é o bom exercício do jornalismo, ou seja, aquele que é feito por jornalistas e atribuído a eles, e o que vem da mão do usuário em geral, as outras pessoas que compõem uma sociedade e que se manifestam na grande auréola comunicativa da Internet. A profissionalização permitiria que não se confundisse a mentira de jornalistas profissionais com a dos demais sujeitos. E ao não termos a profissionalização, essa confusão se estabelece. Será que toda a comunicação é jornalismo? Por que, então, classificar todos os sites como sites jornalísticos assumindo qualquer conteúdo como jornalismo? Devemos diferenciar o que é jornalismo de outros tipos de comunicação. Jornalismo tem suas próprias características, e só deve ser feito por jornalistas. Aí sim, poderíamos agir contra sua falta de ética e deontologia. A pós-verdade é um problema social. Não se deve culpar apenas o jornalismo por isso.

A crise das empresas jornalísticas também se traduz numa crise ética. O que a senhora pensa disso?

As empresas de comunicação têm sua ética empresarial, e ao mesmo tempo têm que respeitar a ética jornalística, facilitando o cumprimento dessa última aos seus jornalistas. São parceiros de jornalismo, que levam a cabo a partir de uma aposta midiática. Eles têm que responder à finalidade social do jornalismo. Muitas vezes isso não aconteceu. E prevaleceu o desejo de ganhar dinheiro e influência dentro do poder político. Outra história é a crise econômica destes anos. Uma crise que tem sido dada pela perda de valores éticos e humanos nas pessoas e nos negócios. E a ela se juntou a pressão tecnológica, o que nem sempre empresas e profissionais têm sido capazes de lidar.

Em que medida as redações podem confiar nos públicos para aumentar seus padrões éticos e melhorar suas práticas profissionais? Estaríamos esperando demais da audiência?

O público tem sua parcela de culpa quando não exige que se cumpram os princípios e padrões de excelência informativa, e mesmo assim consome produtos de uma qualidade francamente duvidosa. Mas de alguma forma devemos tentar estimular, especialmente agora que você tem em suas mãos a capacidade de comunicar, sem intermediários. Portanto, é importante a transparência do trabalho jornalístico. Para mostrar quando algo é bem feito, e para denunciar quando não é bem feito. É como convidar o público a ser cúmplice dessa crítica construtiva para a empresa e para o jornalista. Além de apoiar o bom jornalismo. Para isso, temos de educar as pessoas desde muito jovens. Isso acarreta outro problema, o da vontade do público… Finalmente, aí está a grande solução para os problemas de falta de ética: educar as pessoas para o bem para que despertem suas consciências para abater o mal. Aplique-se isso ao jornalismo ou a qualquer esfera do comportamento humano. Não precisamos descobrir nem criar nada novo.

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