Rogério Christofoletti
Professor de Jornalismo na UFSC e pesquisador do objETHOS

Um dos maiores desafios para uma ética profissional é dar à categoria instrumentos para a orientação de condutas. Mas não basta apenas formular um bom código de ética. É preciso ainda zelar para que os padrões de comportamento adotados sejam cumpridos. Por isso, as categorias profissionais precisam de órgãos que recebam queixas de desvios éticos, e que essas instâncias tenham independência, lucidez e rigor para apurar eventuais deslizes. Em toda parte é assim, e na Espanha também, comenta o professor Juan Carlos Suárez Villegas, catedrático de Jornalismo da Universidad de Sevilla.

Um dos mais produtivos pesquisadores de ética da comunicação naquele país, ele já escreveu mais de dez livros, publicou mais de trinta artigos em revistas científicas e desenvolveu pesquisas em universidades da Inglaterra, Itália e Estados Unidos. Seu trabalho, entretanto, não se restringe à academia, e por isso Suárez Villegas atua como membro de importantes órgãos da deontologia na Andaluzia, no sul da Espanha.

Na entrevista a seguir, o professor Suárez Villegas reflete sobre a ética na profissão e sobre desdobramentos das suas pesquisas sobre o assunto.

Como senhor avalia a situação de autorregulação ética dos jornalistas em Espanha?

Minha avaliação é positiva. A Federação das Associações de Jornalistas Espanhóis (FAPE) conta com uma Comissão de Arbitragem, Reclamações e Ética do Jornalismo, que é independente e atua para resolver disputas entre jornalistas e cidadãos. Em seus dez anos de existência, a comissão resolveu 130 casos. Embora possa parecer um número pequeno, tem sido uma importante doutrina sobre a ética do jornalismo. Um estudo sobre os primeiros cem casos foi publicado na revista Comunicação & Sociedade. Além de resoluções, a comissão tem elaborado relatórios e recomendações sobre critérios deontológicos para o tratamento informativo. O Conselho de Informação da Catalunha também tem realizado um importante trabalho de autorregulação com a publicação de resoluções, relatórios e sugestões para a mídia. O conselho é um órgão subsidiário do Colégio de Jornalistas da Catalunha, mas independente nas suas ações. Um órgão semelhante também foi lançado pela Associação de Jornalistas da Andaluzia, com a criação da Comissão de Deontologia e Garantias do Jornalista.

Quais são os principais dilemas éticos do jornalismo espanhol hoje?

A falta de contato do jornalista com a rua, o conhecimento real dos problemas e uma superabundância informativa que o faz ser mais manipulável, pois leva o jornalista a dedicar seu tempo a cuidar do foi publicado na internet, deixando de recorrer a fontes diretas. Outro problema é a informação instantânea levando à pressa indesejável e aos efeitos virais da notícia, o pode ser muito prejudicial se não for devidamente comprovado.

No Brasil, existe pouco diálogo das empresas jornalísticas com as universidades. Há um abismo entre elas, infelizmente. Isso também acontece na Espanha, quando se trata de ética jornalística?

Sim, ainda há uma fraca relação entre mídia e universidades. Seria importante unir os esforços de todos os atores no mundo da comunicação para aumentar a qualidade da informação, assumindo padrões de comportamento comuns.

Em um de seus artigos mais recentes, o senhor reflete sobre a necessidade de desenvolver uma metodologia de pesquisa sobre a ética. Pode explicar mais sobre isso?

Sim, convém pensar a ética jornalística a partir de princípios filosóficos aplicados à comunicação. Por exemplo, a diligência do profissional exige qualidades como a prudência e a autoconfiança de saber que se faz bem o trabalho. A veracidade requer verificação de fatos a partir das fontes. É necessário ter uma responsabilidade social para pensar sobre as consequências dos possíveis tratamentos informativos. Isto é o que distingue um profissional de outros cidadãos que informam sem assumir esses compromissos.

Suárez Villegas (centro) abre os trabalhos na 4ª International Conference On Media Ethics.

Quais são suas pesquisas atuais? Como elas podem contribuir para mudar a realidade do jornalismo e ética?

Atualmente, participo de um projeto de pesquisa dedicado a rever os vários mecanismos de autorregulação em algumas comunidades autônomas na Espanha. Queremos promover a ideia de prestação de contas como um exercício de responsabilidade social dos meios de comunicação (media accountability). Desta forma, vamos elaborar questionários para os meios de comunicação para saber se eles estão agindo de forma responsável e adotando valores como transparência, pluralismo ou rigor informativo. A intenção é estender este projeto a um estudo comparativo com os países latino-americanos e propor um observatório de ética dos dois lados do Atlântico. Este trabalho faz parte do “Projeto MediaACES – Accountability e culturas jornalísticas na Espanha. Impacto e propostas de boas práticas na imprensa espanhola”, financiado pelo Ministério da Economia e Competitividade do Governo da Espanha, da Universidade Pompeu Fabra em Barcelona, dirigido por Ruth Rodriguez-Martinez e Marcel Mauri-Ríos. Também fazem parte os pesquisadores Laura Torre, Marta Narberhaus e Xavier Ramón-Vegas (Universidad Pompeu Fabra); Aitor Zuberogoitia e Andrés Gostin (Universidad de Mondragón); Marta Pérez-Pereiro (Universidad de Santiago de Compostela); Adoración Merino, Marian Chaparro e Jesús Díaz-Campo (Universidad Internacional de La Rioja); Amparo López-Meri (Universidad Jaume I de Castellón) e eu (Universidad de Sevilla).

O senhor criou a International Conference On Media, um evento que acontece a cada dois anos em Sevilha. O que motivou isso? Qual é a importância desse evento hoje?

Pensei que era necessário estabelecer um encontro acadêmico específico para reunir os pesquisadores no campo da ética da comunicação, pois assim poderíamos visualizar melhor quais eram os problemas atuais da área e também encontrar novas iniciativas para promover projetos com outros colegas.

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